Procuradores da Lava Jato queriam ser o Batman, mas se transformaram no Duas Caras. Por Joaquim de Carvalho

 

O Duas Caras cai melhor para o cidadão

As voltas que o mundo dá. Em setembro de 2017, Glenn Greenwald realizou uma palestra durante a entrega do prêmio Allard, promovido pela University of British Columbia, em Vancouver, no Canadá. Deltan Dallagnol e alguns procuradores estavam lá, para receberem uma menção honrosa pelo trabalho de combate à corrupção.

O jornalista norte-americano, que vive no Brasil, elogiou a Lava Jato, apesar da pressão da comunidade acadêmica e de amigos para que nem fosse ao evento, em razão dos abusos da força tarefa, que já tinham sido tornados públicos.

“Não obstante o fato de pensar que eles cometeram alguns equívocos, eu nunca, nem por um segundo, cogitei fazer isso (deixar de comparecer). Isso nem passou pela minha cabeça. E a razão é que eu acho que é muito importante entender que esse trabalho é extraordinariamente difícil. Não só o trabalho que vemos no Brasil, mas também no Egito e no Azerbaijão. Quando se está no Brasil, um país que, por décadas, foi governado pela corrupção. Não é um país onde há alguns políticos corruptos aqui e acolá. É um país que é governado por uma criminalidade organizada. Todo o sistema político é baseado em corrupção sistêmica. E isso foi feito por décadas em completa impunidade”, disse ele.

No final, fez um grande elogio aos procuradores:

“O que eu acho que podemos dizer sobre eles é que definitivamente não foram perfeitos, mas que foram guiados por princípios e muito persistentes. E eles são realmente dedicados a essa ideia de que eles querem mudar a sociedade, de um modelo sistematicamente corrompido para um em que a lei prevaleça, não importa se você é um garoto negro e pobre da favela ou oligarca absurdamente rico, nascido em um berço de bilhões de dólares. Então, eu acho que eles encarnam muito bem essa virtude de ser comum, não ter muito poder, mas ser dedicado a mudar o mundo.”

Deltan Dallagnol publicou em seu facebook o vídeo do discurso e afirmou que Glenn Greenwald era um “renomado jornalista”.

Carlos Fernando dos Santos Lima não estava presente em Vancouver, mas certamente endossou as palavras de Glenn Greenwald, pois refletiam o que ele mesmo dizia em suas frequentes postagens na rede social.

Agora, depois que o Intercept revelou seus movimentos para seguir a orientação de Sergio Moro de rebater o “showzinho” da defesa de Lula, Carlos Fernando atacou o trabalho do jornalista. Colocou entre aspas a natureza da atividade do Intercept, fundado por Glenn Greenwald: “jornalismo”. E afirmou: “a liberdade de imprensa não cobre qualquer participação de jornalistas no crime de violação de sigilo de comunicações”.

Para Deltan Dallagnol, Glenn Greenwald era o renomado jornalista. Para Carlos Fernando dos Santos Lima, Glenn Greenwald é agora um possível criminoso.

A manifestação daquele que era chamado de decano da Lava Jato não revela apenas incoerência da turma que se apresentava como cruzados da luta contra corrupção, mas desespero. O post de Carlos Fernando é sintomaticamente confuso.

Ele começa por dizer que o que Intercept publicou é mentira, mas depois afirma que houve crime de violação de sigilo de comunicações.

O procurador (já aposentado) tem que se decidir: ou é mentira, ou houve violação do sigilo de comunicações. Ele precisa escolher uma linha de defesa, embora o que tenha sido revelado não possa ser usado como prova para processá-lo. Mas ele precisará de defesa, para manter a farsa de que ele e seus colegas no Ministério Público Federal agiram movidos por idealismo e não para interferir na politica, afastando Lula.

Já Glenn Greenwald não demonstra incoerência ao revelar sujeira no trabalho dos procuradores, que ele elogiou no passado. Pelo contrário. Reforça a sua credibilidade.

Em entrevista à rádio Guaíba, no programa de Juremir Machado, ele disse:

“Eu fiz um discurso em 2017 defendendo e elogiando o trabalho da Lava Jato. O Deltan estava presente, estava no evento no Canadá, e ele colocou no facebook dele meu discurso e falou: ‘o renomado jornalista Glenn fez um discurso muito importante sobre a força tarefa da Lava Jato.’ Muitas pessoas ouviram esse discurso. Então, meu motivo não é machucar, atacar, enfraquecer a Lava Jato. Ao contrário. Eu acho que, quando estamos revelando corrupção dentro do processo da Lava Jato, estamos fortalecendo a luta contra a corrupção.”

Carlos Fernando dos Santos Lima tem que entender que a lei é para todos, inclusive ele, que já posou para foto segurando a camiseta Liga da Justiça, como se fosse super herói.

Nunca foi. Pelo contrário. E deve doer muito ser flagrado na farsa.

Eles querem ser sempre vistos como Batman, mas, na verdade, são o Coringa. Ou, o que é mais apropriado, o Duas Caras, o vilão do DC Comics que tem dupla personalidade: metade promotor público, metade assassino. No caso, de reputações.

Carlos Fernando e Deltan: vão devolver o prêmio?

 

 

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