“Professor” de Jair, Paulo Guedes é o mais bolsonarista dos ministros, dizem pesquisadores

Bolsonaro e o ministro da Economia, Paulo Guedes (Foto: AFP / Sergio LIMA)

Publicado originalmente no UOL

Do Blog Entendendo Bolsonaro

[RESUMO] Há muito menos diferenças entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro do que se supõe. Desde a campanha eleitoral, Guedes vem se construindo como uma espécie de professor de Jair, empenhado em “ensinar” que toda intervenção estatal na economia deve ser evitada – agora, segundo o ministro da Economia, sob o risco de custar a reeleição de Bolsonaro em 2022. Com língua ferina, o “Posto Ipiranga” do presidente usa argumentos simples e não tem medo de confrontar cinicamente os seus pares. Agrada Bolsonaro sem jamais confrontar os “valores” e “princípios” defendidos pelo governo que integra. O texto abaixo esmiúça essa relação com base na análise de conteúdo da reunião ministerial de 22 de abril.

* Fernando Cássio e Marco Antonio Bueno Filho

Paulo Guedes: Nós sabemos pra onde nós vamos voltar já, já. Tá certo? E se o mundo for diferente, nós vamos ter capacidade de adaptação. Por exemplo: eu já tenho conversado com o ministro da Defesa, já conversamos algumas vezes. Quantos? Quantos? 200 mil, 300 mil. Quantos jovens aprendizes nós podemos absorver nos quartéis brasileiros? Um milhão? Um milhão a 200 reais, que é o Bolsa Família, 300 reais, pro cara de manhã faz calistenia […]. Aprende… Civil… Organização Social e como é que é o? OSPB, né?

PG: Organização Social e…

Hamilton Mourão: Política.

PG: … política, né?

PG: Faz ginástica, canta o hino, bate continência. De tarde, aprende a ser um cidadão, pô! […] Disciplina, usar o tempo construtivamente, pô! É voluntário pra fazer estrada, pra fazer isso, fazer aquilo. Sabe quanto custa isso? É 200 reais por mês, um milhão de cá, 200 milhões, pô! Joga dez meses aí, dois bi. Isso é nada! Então, nós vamos pegar na reconstrução, nós vamos pegar um bilhão, dois bilhões e contrata um milhão de jovens aqui. A Alemanha fez isso na reconstrução. Aí você também quer fazer estrada? Precisa de três, quatro bilhões a mais. Tem um orçamento de oito. Toma aqui seus quatro bilhões. Isso não faz falta. Isso não faz falta. Não é isso o problema. A mesma coisa o problema [da legalização] do jogo lá nos resorts integrados.

PG: Tem problema nenhum. São bilionários, são milionários. Executivo do mundo inteiro. O cara vem, fazem convenções… olha, o turismo saiu de cinco milhões em Cingapura pra 30 milhões [de turistas] por ano. O Brasil recebe seis. Uma pequena cidade recebe 30 milhões de turistas. O sonho do presidente de transformar o Rio de Janeiro em Cancún lá, Angra dos Reis em Cancún. Aquilo ali pode virar Cancún rápido. Entendeu? […] Espanha recebe 30, 40 milhões de turistas. Isso aí é uma cidade da Ásia. Macau recebe 26 milhões hoje na China. Só por causa desse negócio. É um centro de negócios. É só maior de idade. O cara entra, deixa grana lá que ele ganhou anteontem. Ele deixa aquilo lá, bebe, sai feliz da vida. Aquilo ali não atrapalha ninguém. Aquilo não atrapalha ninguém. Deixa cada um se foder. Ô Damares. Damares. Damares. Deixa cada um … Damares. Damares. O presidente, o presidente fala em liberdade. Deixa cada um se foder do jeito que quiser. Principalmente se o cara é maior, vacinado e bilionário. Deixa o cara se foder, pô! […] Não entra nenhum brasileirinho desprotegido. Entendeu?

Damares Alves: Se a CGU concordar. Se a CGU tiver como controlar a entrada e a saída do dinheiro.

PG: Isso, então vamo lá.

DA: Se não tiver como lavar dinheiro sujo lá.

(Reunião ministerial de 22 de abril de 2020, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 64-66. As hesitações e trechos ininteligíveis foram removidos para facilitação da leitura, sem qualquer prejuízo do conteúdo)

 


 

Paulo Roberto Nunes Guedes, 70 anos, é o atual ministro da Economia do Brasil. Fez mestrado e doutorado na Universidade de Chicago, tendo sido professor da PUC-Rio e da FGV. É também um dos fundadores do Banco Pactual, de diversas empresas e fundos de investimento e do think tank liberal Instituto Millenium.

Por esses atributos e pelos mantras que repete, o ultraliberal Guedes é frequentemente excluído do círculo ministerial dito “ideológico” do governo Bolsonaro – aquele que abarca, entre olavetes, vivandeiras da ditadura, fundamentalistas religiosos e fanáticos do mesmo jaez, figuras espalhafatosas como Ernesto Araújo, Damares Alves, Abraham Weintraub (agora ex-ministro) e Augusto Heleno. Isso para ficarmos no primeiro escalão. O ministro da Economia, por sua vez, faria parte de um segundo círculo de ministros, de denominado “perfil técnico”.

O noticiário político não cansa de anunciar que Paulo Guedes está por um fio no governo Bolsonaro, em um esforço constante para dissociar o técnico ministro da Economia do autoritário presidente da república. Já na primeira semana de janeiro de 2019, o ministro Guedes levou bola nas costas do recém-empossado Jair Bolsonaro, que fez dois anúncios desastrosos: a idade mínima para a aposentadoria na reforma da previdência pública que sobreviria (62 anos para homens e 57 para mulheres, segundo o presidente) e o aumento do IOF. A imprensa noticiou alvoroçada a rusga aberta entre o presidente e o ministro da Economia, mas o diligente Augusto Heleno declarou que, apesar do ruído, Guedes e Bolsonaro eram “best friends”.

Um ano e meio depois, a relação do presidente com vários de seus ministros azedou, a economia do país não decolou e as ligações da família Bolsonaro com a corrupção e com as milícias estão mais do que explicitadas. A pandemia devastou empregos, a cotação do dólar, paralisou o comércio, aprofundou desigualdades e moeu direitos sociais. E nenhum vaticínio de rompimento entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro se cumpriu. Ao contrário, a relação entre os dois parece estar mais firme do que nunca.

“Nós tamos aqui por esses valores”

Há muito menos diferenças entre Paulo Guedes e Jair Bolsonaro do que se supõe ou do que se finge supor. Nesse sentido, a reunião ministerial de 22 de abril de 2020 foi um momento luminoso para entender o que se passa. Avalizado por Bolsonaro, o ministro Guedes dominou a reunião quase tanto quanto o chefe. Considerando o número de palavras pronunciadas nas quase duas horas de reunião, Paulo Guedes só não falou mais do que o próprio Jair Bolsonaro. Walter Braga Netto, o ministro-chefe da Casa Civil encarregado de apresentar a sequência de slides sobre o Plano Pró-Brasil – a verdadeira pauta da reunião – foi praticamente eclipsado pela exuberância verbal do ministro da Economia.

Fonte: Produzido pelos autores, a partir das transcrições do Laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020 (lexicometria a partir do corpus textual ajustado). Laudo disponível em: https://static.poder360.com.br/2020/05/transcricao-video-reuniao22abr.pdf. Acesso em: 4 jul. 2020.

Na mesma semana, antes do imbróglio com Sergio Moro que resultou na divulgação do vídeo da reunião, a imprensa anunciou que Paulo Guedes, escanteado por ministros militares e do Centrão, manifestara descontentamento com o Plano Pró-Brasil.

Pois é justamente isso o que se vê no vídeo da reunião, divulgado um mês depois. Contudo, nem Guedes parece ter sido deixado de lado pelo presidente e nem ele e Bolsonaro parecem descontentes um com o outro. Assim que Braga Netto concluiu a apresentação de slides, por exemplo, o presidente disse: “Vamos dar a palavra ao Paulo Guedes, […] com todo respeito aos demais, acho que é o ministro mais importante nessa missão aí” (JB, p. 11). A missão em questão era o Plano Pró-Brasil, cujos fundamentos seriam imediatamente desconstruídos pelo ministro da Economia.

De saída, Guedes criticou a expressão “Plano Marshall brasileiro”, usada por Braga Netto na apresentação. “Pró-Brasil é um nome espetacular. Dez, mil. Plano Marshall é um desastre. […] revela despreparo nosso” (PG, p. 11). Em seguida lançou um petardo sobre a ênfase do plano nos investimentos públicos: “é super bem-vinda essa iniciativa, para nos integrarmos todos. Agora, não vamos nos iludir. A retomada do crescimento vem pelos investimentos privados, pelo turismo, pela abertura da economia, pelas reformas” (p. 11). Depois advertiu os pares de que o governo não pode voltar a uma agenda de “30 anos atrás” (p. 12). Citou Dilma Rousseff como contraexemplo, e deu o seguinte recado ao presidente:

Não pode ministro, pra querer ter um papel preponderante esse ano, destruir a candidatura do presidente, que vai ser reeleito se nós seguirmos o plano das reformas estruturantes originais. Então eu tenho que dar esse recado, nós vamos estar à disposição, nós vamos ajudar [em] tudo, mas nós não podemos nos iludir. O caminho desenvolvimentista foi seguido, o Brasil quebrou por isso, o Brasil estagnou. (PG, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 12)

Guedes olha para Bolsonaro enquanto fala. Gesticula, o dedo em riste: “alguém foi para a imprensa e falou ‘Ó, vem um Plano Marshall aí e a economia tá fora’ […] enfraquecer o nosso discurso num momento desse é uma tolice [ênfase de Guedes], é um atentado contra nós mesmos” (p. 14). O chefe assente e dá a medida aos demais ministros:

Pera um pouquinho, dá licença um pouquinho. A questão da imprensa. Eu acho que eu resumi hoje na frente do palácio em 20 segundos: “Eu não vou falar com vocês, porque vocês não deturpam, vocês inventam, e potencializam”. Tem que ser o papel de cada um, não pode um sair daqui no cantinho: “Ah, foi mais ou menos isso”, não pode falar nada. Tem que ignorar esses caras, cem por cento. Senão a gente não vai para frente. A gente tá sendo pautado por esses pulhas, pô. O tempo todo jogando um contra o outro. Até a Tereza Cristina contra mim […]. O tempo todo, tá? Então se a gente puder falar zero com a imprensa é a saída. (JB, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 14)

Paulo Guedes (à esquerda) gesticula ao criticar o “caminho desenvolvimentista” do Plano Pró-Brasil. Trecho do Laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020 (p. 12). Disponível em: https://static.poder360.com.br/2020/05/transcricao-video-reuniao22abr.pdf. Acesso em: 4 jul. 2020.

Paulo Guedes fala ao coração de Bolsonaro, e faz isso como poucos. A extrema liberdade com que expõe aos demais ministros aquilo que vê como um vício de origem do Plano Pró-Brasil (seu teor desenvolvimentista) e a forma como emprega o infalível argumento eleitoral que silencia as objeções do presidente mostram que o “Posto Ipiranga” não é um vassalo comum na corte presidencial.

Thaís Oyama, em seu livro sobre o primeiro ano do governo Bolsonaro, relata que “Guedes chama o presidente de Jair e Bolsonaro o chama de Paulo” (2020, p. 169), relação que Bolsonaro não estabelece com outros ministros. Apoiada em múltiplas fontes, a jornalista mostra que, desde a campanha eleitoral, Paulo vem se construindo como uma espécie de “professor” de Jair, com quem “tem uma inaudita paciência”.

Ao mesmo tempo, o professor não trata o aluno como idiota. Na reunião ministerial e em outras situações, o professor Paulo empenha-se em ensinar Jair que movimentos de intervenção estatal na economia devem ser evitados, sob o risco de serem interpretados como uma volta aos anos petistas e de custarem a reeleição presidencial em 2022. Foram as preleções de Guedes que, segundo Oyama e suas fontes, transformaram “o outrora estatizante Bolsonaro” em um feérico defensor das privatizações (2020, p. 140).

O sarcasmo com que Guedes se dirige a Damares Alves na reunião, zombando de forma machista de sua preocupação com os “brasileirinhos desprotegidos” ante a liberação dos resorts-cassinos (em áreas de proteção ambiental, aliás), agrada Bolsonaro. O ministro da Economia tem raciocínio rápido e uma língua ferina, usa argumentos simples e não tem medo de confrontar cinicamente os seus pares. Apesar disso, Guedes jamais confronta os “valores” e “princípios” defendidos pelo governo que integra:

Ô presidente, esses valores e esses princípios e o alerta aí do Weintraub é válido também, […] sua evocação é que realmente nós estamos todos aqui por esses valores. Nós tamos aqui por esses valores. Nós não podemos nos esquecer disso. (PG, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 59)

O “alerta” de Weintraub, que o ministro da Economia valida, foi feito na única participação do ex-ministro da Educação da reunião, uma fala de 4’40” em que expôs toda a sua carga de sacrifício pessoal por fazer parte do governo (AW, p. 53), criticou os pares que insistem em conversar “com quem a gente tinha que lutar” (p. 54) e condenou os jogos da política no Planalto Central:

A gente tá perdendo a luta pela liberdade. É isso que o povo tá gritando. Não tá gritando pra ter mais Estado, pra ter mais projetos […] o povo tá gritando por liberdade, ponto. Eu acho que é isso que a gente tá perdendo, tá perdendo mesmo. O povo tá querendo ver o que me trouxe até aqui. Eu, por mim, botava esses vagabundos todos na cadeia, começando no STF. (AW, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 54)

Weintraub também repudiou o “partido comunista”, afirmou odiar “o termo ‘povos indígenas’ […] ‘povo cigano'” (AW, p. 54) e, por fim, lamentou as intrigas palacianas que envenenam as relações entre os membros do governo. Minutos depois, o técnico ministro Guedes referendou o alerta do ideológico colega: “Nós tamos aqui por esses valores” (PG, p. 59).

Para esvaziar os argumentos pró-investimento público dos proponentes do Plano Pró-Brasil, Guedes não ruboriza em propor na reunião ministerial que se “absorva” um milhão de jovens aprendizes nos quartéis para tocar as obras paradas no país. Segundo os cálculos do ministro, tamanho contingente, trabalhando durante dez meses a 300 reais por mês, resolveria em pouco tempo o problema da infraestrutura diagnosticado por seus pares “desenvolvimentistas”, e a um custo módico de três bilhões de reais.

O governo poderia propagandear que está fazendo investimentos públicos, gerando empregos e, de quebra, ensinar alguma disciplina para uma massa de jovens pouco escolarizados e sem perspectivas na vida. “Faz ginástica, canta o hino, bate continência. De tarde, aprende a ser um cidadão, pô! Aprende a ser um cidadão. Disciplina, usar o tempo construtivamente, pô!”. Didático, o professor Paulo arremata: “A Alemanha fez isso na reconstrução”. Ironicamente, este trecho aparece à página ’64’ do laudo da transcrição.

Na reunião de 22 de abril, a pessoa mais saudosa dos tempos da Educação Moral e Cívica e da OSPB [Organização Social e Política Brasileira] nas escolas brasileiras (o trecho aparece na mesma página 64) não foi Jair e nem ninguém do séquito presidencial de puxa-sacos.

Foi o ministro que leu Keynes “três vezes no original” antes de aterrissar em Chicago (PG, p. 60), e que propôs que a melhor forma de tocar grandes obras no país sem gastar muito seria fazer uso da mão-de-obra semiescrava de jovens pobres em campos de trabalho militar. Tal ideia mirífica brotou da mesma mente que, em março de 2020, acreditava que “Com cinco bilhões de reais a gente aniquila o coronavírus”.

É pelos muitos valores em comum que Jair admira Paulo. Se eles são mesmo “best friends”, não temos condições de saber, mas é fato que Bolsonaro – e não apenas ele – trata Guedes com uma deferência especial.

Um homem de poucas gafes

Bem mais contido em público do que seus os pares “ideológicos”, o economista Guedes também diz o que pensa nas vezes em que esquece que os microfones estão ligados. “Não se assustem se alguém pedir o AI-5”, afirmou em coletiva em Washington (25 nov. 2019), mostrando que o governo temia a radicalização dos protestos de rua convocados pela esquerda após a soltura de Lula. Na ocasião, a Folha de S. Paulo relatou que, “após quase duas horas de entrevista coletiva, o ministro afirmou que estava dando declarações em off”.

Nos primeiros dias de fevereiro de 2020, Guedes defendeu a reforma administrativa e a necessidade de lidar com o risco de insolvência dos estados chamando os servidores públicos de parasitas. Pouco depois, tentando mostrar o lado bom das sucessivas altas do dólar, pontificou que no tempo em que a moeda estadunidense custava R$ 1,80, era “todo mundo indo pra Disneylândia, empregada doméstica indo pra Disneylândia, uma festa danada”.

Diante do amplo repúdio gerado pela declaração, o ministro pediu desculpas durante um evento de lançamento de uma linha de crédito da Caixa Econômica Federal com taxa de juros fixa, e que, segundo ele, beneficiaria as “famílias mais humildes, empregadas domésticas, inclusive, a quem eu peço desculpas, se puder ter ofendido, dizendo que a mãe do meu pai [a avó do ministro] foi uma empregada doméstica”. É como o racista que mostra a foto com o amigo negro para dizer que não é racista.

Nessas situações, o ministro sempre pôde contar com a solidariedade de Jair Bolsonaro. “Se o Paulo Guedes tem alguns problemas pontuais como todos nós temos, é muito mais pela sua competência do que por possíveis deslizes que eu mesmo já cometi muito no passado” (18 fev. 2020). Mas a solidariedade com Guedes não é só do presidente da república, já tão habituado ao “deslize”.

Diversos comentaristas criticaram as declarações de Guedes sobre os servidores públicos e as empregadas domésticas, mas a maior parte da imprensa limitou-se a classificar as suas falas como “gafes”. A Agência O Globo, cujas matérias são replicadas em todos os estados do país, produziu uma com o seguinte título: “Bolsonaro sai em defesa de Guedes e diz que gafes de ministro foram ‘deslizes'” (18 fev. 2020).

A gafe é certa, mas prefere-se aceitar a explicação de Jair Bolsonaro – “deslize” – em vez de incitar a dúvida nos leitores: será que o Posto Ipiranga do presidente é tão elitista quanto parece? Será que ele naturaliza a ditadura e o autoritarismo para vender do Estado tudo o que puder e garantir o laissez-faire em que tanto acredita? Será menos insensível do que o chefe por vestir ternos bem cortados e por parecer menos grosseiro?

A cobertura de imprensa da reunião ministerial de 22 de abril, que deu muito menos atenção às falas de Paulo Guedes do que as da manjadíssima “ala ideológica”, não deixa dúvidas: muita gente segue aferrada à certeza de que Paulo Guedes é um ministro com perfil técnico e que as suas “gafes” são menos graves do que as incertezas geradas pela sua eventual saída do governo. Talvez o Mercado não admire Paulo Guedes tanto quanto Bolsonaro, mas certamente prefere fingir que ele e o chefe são muito diferentes.

Onde estava Paulo Guedes na reunião ministerial?

É sabido que o interesse do público na reunião ministerial de 22 de abril nada tinha a ver com Paulo Guedes, mas com Sergio Moro, cuja exoneração do Ministério da Justiça e da Segurança Pública (dois dias depois) se deu em meio à denúncia de que Jair Bolsonaro tentava interferir nas ações da Polícia Federal usando o ministro como escada. A prova da conduta presidencial imprópria estaria, de acordo com Moro, no vídeo da reunião.

Até que o ministro Celso de Mello, do STF, autorizasse a liberação do vídeo, a curiosidade do público sobre o conteúdo da reunião foi sendo alimentada por comentários de fontes que haviam tido acesso ao material gravado. Já se sabia, por exemplo, que as falas do presidente e dos ministros eram coalhadas de palavrões, e que Abraham Weintraub, então ministro da Educação, dissera que os ministros do STF deveriam ser presos. Mesmo que as denúncias de Moro não frutificassem, o escândalo era certo.

Quando o vídeo finalmente veio a público, todas as atenções se voltaram ao minúsculo trecho em que Bolsonaro dá a entender que vai interferir em todos os órgãos do governo (incluindo a PF) ao seu bel-prazer. Também aqui, o presidente aproveitou para lembrar aos presentes que um de seus ministros tem sido irrepreensível na satisfação dos desejos do mandatário:

A pessoa tem que entender. Se não quer entender, paciência, pô! E eu tenho o poder e vou interferir em todos os ministérios, sem exceção. Nos bancos eu falo com o Paulo Guedes, se tiver que interferir. Nunca tive problema com ele, zero problema com Paulo Guedes. Agora os demais, vou! Eu não posso ser surpreendido com notícias. Pô, eu tenho a PF que não me dá informações. (JB, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 25)

Ninguém se preocupou em investigar a que intervenções nos bancos o presidente se referia. Nem em saber por que, no tocante a tais intervenções, Jair Bolsonaro teve “zero problema” com Paulo Guedes. Estaria se referindo ao seu veto transfóbico a um comercial do Banco do Brasil, pelo qual exigiu a suspensão da exibição da peça e a demissão do diretor de marketing da instituição? Não sabemos.

Apesar disso, a cobertura da imprensa sobre a reunião ministerial foi generosa e didática. Chancelou os queixumes de Moro – para que lado Bolsonaro olhou ao pronunciar o verbo “interferir”? – e condenou moralmente a boca-suja dos presentes (tal como fazia com Lula). Os comentários de Abraham Weintraub sobre o STF e sobre os povos indígenas foram amplamente repercutidos nas reportagens. Menos de um mês depois, o ministro da Educação foi exonerado do cargo.

As falas de Damares Alves, ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, também ocuparam as manchetes que se seguiram à divulgação do vídeo. A ministra ameaçou pedir a prisão de governadores e prefeitos por ações durante a pandemia (DA, p. 47).

Também expôs a Nelson Teich, o brevíssimo ministro da Saúde, as suas preocupações com os movimentos pela liberação do aborto, capitaneados, segundo ela, pelo STF e pelas feministas do Ministério da Saúde (p. 46). Por fim, Alves trouxe à atenção de Bolsonaro a teoria conspiratória de que inimigos do governo estariam contaminando populações indígenas com o novo coronavírus para responsabilizar o presidente pela eventual dizimação de comunidades na Amazônia (p. 46-47).

A lupa da imprensa também escrutinou os comentários de Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente que defendeu que o governo aproveitasse a “tranquilidade no aspecto de cobertura de imprensa, porque só fala de COVID”, para “ir passando a boiada” e desmontar a legislação ambiental, “mudando todo o regramento e simplificando normas. De Iphan [Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional], de Ministério da Agricultura, de Ministério de Meio Ambiente, de ministério disso, de ministério daquilo” (RS, p. 20).

Apesar de pertencer à “ala técnica” da Esplanada, a imprensa não trata o ministro do Meio Ambiente com a mesma amabilidade que dedica a Paulo Guedes. Após a divulgação do vídeo da reunião, as denúncias de enriquecimento ilícito do ministro enquanto secretário do Meio Ambiente de São Paulo voltaram ao noticiário, embora Salles já tivesse os seus sigilos bancário e fiscal quebrados desde novembro de 2019.

Figuras “ideológicas” como Weintraub, Alves, Salles e Bolsonaro sempre protegeram Paulo Guedes e o gabinete “técnico” do bombardeio midiático. É verdade que as falas de Guedes na reunião sobre “OSPB nas escolas” (p. 64), “jovens nos quartéis a R$ 300 mensais” (p. 64), “cassinos e jogos de azar” (p. 64-65) e “privatização do Banco do Brasil” (p. 70) também geraram pequenas matérias de imprensa. No entanto, todas essas falas ficaram de fora dos recaps didáticos dos grandes portais de notícias e dos compactos televisivos com os “melhores momentos” da reunião. Foram, ao contrário, relatadas na melhor tradição do jornalismo declaratório e ocuparam as colunas de opinião de forma apenas marginal.

Embora Paulo Guedes tenha pronunciado quase 16% das palavras transcritas no vídeo da reunião ministerial (ver tabela anterior), toda a minúcia analítica e todo o furor crítico se voltaram aos “ideólogos” bolsonaristas de sempre. Diante do pouco interesse na participação do Posto Ipiranga, produzimos uma nova análise do conteúdo da reunião ministerial de 22 de abril. Como o vídeo e a transcrição da reunião não animaram os críticos, resolvemos nos embrenhar no universo da pesquisa qualitativa e tentar desenhar as coisas.

“Livre mercado” e “povo armado” ao lado de “Deus”

As transcrições do laudo pericial da reunião (INC/DITEC/PF n. 1.242/2020) foram analisadas com o Iramuteq, software de código aberto utilizado em estatística textual. Inicialmente, construímos um corpus textual removendo ecos e hesitações da transcrição bruta (da… da… da…) e eliminando ambiguidades por meio de um processo conhecido como hifenização.

Por exemplo: a expressão “Banco do Brasil”, formada por dois substantivos (banco, Brasil) ligados por uma preposição modificada por artigo (do), deve ser identificada na análise como a locução substantiva que é, e não como três palavras separadas. A palavra “banco” foi usada na reunião para se referir tanto ao Banco do Brasil, quanto à Caixa Econômica Federal, ao Banco Central e ao BNDES, mas também poderia se referir a um banco de sangue ou a um banco de praça. Desse modo, a expressão foi hifenizada no corpus como “Banco_do_Brasil”.

A primeira e mais simples das análises, a contagem de palavras (análise lexicométrica), revela aquilo que adiantamos mais cedo neste artigo: Paulo Guedes falou muito mais do que os demais participantes da reunião, o que seria em si suficiente para despertar a curiosidade das centenas de jornalistas e comentaristas que se debruçaram sobre o vídeo da reunião e preferiram, como vimos, se concentrar em trechos pontuais e em sublinhar os palavrões e arroubos verbais das figuras mais caricatas do governo, incluindo o presidente.

Adotando um outro caminho, produzimos uma análise geral do conteúdo das falas circulantes na reunião utilizando a Classificação Hierárquica Descendente (CHD), desenvolvida por Max Reinert nos início dos anos 1990 e incluída entre as rotinas analíticas do Iramuteq. Em termos simples, o método permite classificar segmentos de texto em função de seus respectivos vocabulários. A partir de matrizes que cruzam segmentos de textos e palavras (em repetidos testes estatísticos), o texto é dividido em um certo número de classes. Nikos Kalampalikis, pesquisador da Universidade de Lyon, explica que o objetivo desse método

não é o cálculo do significado, mas a organização tópica do discurso ao colocar em evidência os “mundos lexicais”. […] Traços lexicais redundantes circunscrevem um lugar habitual do discurso – um lugar, portanto, onde um certo vocabulário é usado com frequência, um lugar referencial onde o sujeito-enunciador parece ter depositado sentido. (2003, p. 151)

Esse tipo de análise evidentemente não substitui o trabalho de interpretação dos pesquisadores, pois nenhum algoritmo tem obrigação de gerar resultados que façam sentido no mundo real. Aplicada sobre o corpus textual da reunião de 22 de abril, a CHD retornou três classes de conteúdos, cujas ideias e temas centrais foram atribuídos por nós, ajudados por leituras sucessivas e independentes da transcrição bruta e pelo laborioso processo de preparação do corpus textual.

Dendrograma com as três classes obtidas do corpus textual da reunião de 22 de abril de 2020. As ideias e temas centrais das três classes foram atribuídos por nós. Fonte: elaboração própria (Iramuteq, método CHD), a partir do laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020.

A classe 1, em vermelho e mais afastada das demais, reúne a maior parte das apreciações gerais sobre o Plano Pró-Brasil, dos comentários acerca da necessidade de investimentos e dos debates relacionados a políticas públicas. O comentário execrável de Ricardo Salles sobre “passar a boiada” e “mudar o regramento”, por exemplo, foi associado à classe 1. A classe 2, em verde, circunscreve as preocupações de Jair Bolsonaro com a própria família e com a sobrevivência no cargo: “Paralelamente a isso, tem aí OAB da vida, enchendo o saco do Supremo, pra abrir o processo de impeachment […]” (JB, p. 21).

A palavra mais representativa dessa classe é a interjeição “pô”, que foi repetida 23 vezes por Bolsonaro. Contudo, isso não significa que essa palavra não apareça nos segmentos de texto das outras classes. A associação de uma palavra a determinada classe não é exclusiva. A classe 3, por sua vez, que aparece em azul e é semanticamente mais parecida com a classe 2 do que com a classe 1, compreende os segmentos de texto que evocam valores e princípios do governo Bolsonaro, a missão de “luta pela liberdade” (AW, p. 53) de quem não quer “ser escravo nesse país” (p. 53).

Nesse diagrama, e também nos seguintes, o tamanho das palavras não é proporcional ao número de vezes em que elas aparecem no corpus, mas ao seu grau de associação à classe correspondente (o chi quadrado). Portanto, os diagramas não podem ser lidos da mesma forma que as hoje populares “nuvens de palavras”, que o Iramuteq também é capaz de gerar, mas que servem ao fim bem mais singelo da contagem de palavras em textos.

Para se ter uma ideia daquilo que o método “reconhece” em termos do conteúdo dos textos, selecionamos uma amostra do output dos segmentos de texto classificados de dois trechos da transcrição com falas de Jair Bolsonaro (p. 55 e 58 do laudo pericial). Os trechos foram divididos em dez segmentos de texto, reconhecidos pelo Iramuteq como pertencentes a duas classes diferentes.

Dois fragmentos do corpus, mostrando os segmentos de texto associados às classes 2 (verde) e 3 (azul). Fonte: elaboração própria (Iramuteq, método CHD), a partir do laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020. Os trechos da reunião a que esses segmentos aparecem às páginas 55 e 58 do laudo pericial. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2020/05/transcricao-video-reuniao22abr.pdf. Acesso em: 4 jul. 2020.

Nos trechos em verde (classe 2), Bolsonaro refere-se majoritariamente a si mesmo, expõe as suas expectativas em relação aos comandados e ataca nominalmente os seus opositores. Abundam os pronomes pessoais e possessivos na primeira pessoa do singular.

Já nos trechos coloridos em azul (classe 3), o presidente evoca princípios e valores de seu governo: “família”, “Deus”, “Brasil”, “povo armado”, “liberdade de expressão”, “livre mercado”, “64”, etc. Insuspeito de qualquer tipo de bolsonarismo ou de esquerdismo, o método de Reinert classifica tudo isso sob o mesmo bandeiral ideológico. O “livre mercado” de Guedes e o “povo armado” de Bolsonaro estão umbilicalmente ligados. Ambos, ao lado de “Deus”.

Os resultados da CHD também podem ser representados em diagramas de Análise Fatorial de Correspondência (AFC), gráficos bidimensionais que nos dão uma ideia mais clara sobre a proximidade vocabular entre as classes, sobre as palavras mais ou menos associadas a cada uma delas e, especialmente nesse caso, sobre como os diferentes enunciadores se localizam no “mapa” temático da reunião – ou seja, quem falou o quê na reunião de 22 de abril.

Diagrama das palavras que caracterizam os segmentos de texto classificados no corpus, mostrando apenas substantivos e adjetivos (interjeições são reconhecidas como substantivos). O tamanho da fonte indica o grau de associação da palavra à sua respectiva classe (χ2). Fonte: elaboração própria (Iramuteq, método CHD/AFC), a partir do laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2020/05/transcricao-video-reuniao22abr.pdf. Acesso em: 4 jul. 2020.

Diagrama das palavras que caracterizam os segmentos de texto classificados no corpus, mostrando apenas verbos, artigos, advérbios, numerais, preposições, pronomes e conjunções. No detalhe acima (à dir.),vemos uma ampliação do centro do diagrama. O tamanho da fonte indica o grau de associação da palavra à sua respectiva classe (χ2). Fonte: elaboração própria (Iramuteq, método CHD/AFC), a partir do laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2020/05/transcricao-video-reuniao22abr.pdf. Acesso em: 4 jul. 2020.

A diferença entre esses dois diagramas é que o primeiro mostra apenas os substantivos e adjetivos do corpus textual (interjeições são reconhecidas como substantivos). Os verbos, artigos, advérbios, pronomes, numerais, conjunções e preposições – palavras comuns à fala de todos os presentes e, portanto, menos úteis para a identificação das especificidades das classes – são mostrados no segundo gráfico.

No primeiro diagrama, as classes aparecem bem mais separadas umas das outras, o que ajuda a entender que é o uso diferencial de substantivos e adjetivos aquilo que de fato permite distinguir as especificidades dos “mundos lexicais” acessados pelos participantes da reunião. Já o segundo gráfico, mostra as três classes muito mais aglutinadas entre si, já que muitos verbos, artigos, advérbios, pronomes, numerais, conjunções e preposições são utilizados quase que indistintamente nas falas. Quando mais central for a posição de uma palavra no diagrama, mais ela pertencerá ao vocabulário comum às três classes e a todos os falantes.

O artigo definido “o” (e suas variações “a”, “os”, “as”, que o Iramuteq aglutina), por exemplo, é visto no centro do segundo diagrama. É essa a palavra mais frequente da transcrição, juntamente com algumas preposições (“de”, “para”), os verbos “ser” e “estar” (e suas conjugações, que o algoritmo reconhece e reduz automaticamente à forma infinitiva), artigos indefinidos e pronomes demonstrativos que pertencem ao universo lexical de todos os participantes.

Diferentemente, os substantivos “investimento” e “Brasil” e a interjeição “pô”, fortemente associados às classes 1, 2 e 3, respectivamente – e por isso mostrados em fonte maior no primeiro diagrama – diferenciam muito mais claramente o conteúdo de cada classe. Note-se que o artigo “o” também aparece em fonte menor, o que significa que ele é associado de forma praticamente igual às três classes.

Esta longa explicação ajuda a entender o diagrama que mostra as “posições” dos participantes em relação às três classes levantadas na análise. É ele que nos levará de volta ao Posto Ipiranga, com o qual todas as estradas discursivas da reunião ministerial parecem se cruzar.

Diagrama da variável suplementar “ID2” (nome do participante) em relação à posição das três classes (representadas nas cores vermelha, verde e azul). O tamanho da fonte representa o grau de associação do participante à classe (χ2). Fonte: elaboração própria (Iramuteq, método CHD/AFC), a partir do laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020. Disponível em: https://static.poder360.com.br/2020/05/transcricao-video-reuniao22abr.pdf. Acesso em: 4 jul. 2020.

Assim como o Iramuteq permite selecionar as palavras representativas por classes gramaticais, gerando diagramas mais fáceis de ler, o software também gera gráficos das chamadas “variáveis suplementares”, que definimos na preparação do corpus.

A variável suplementar mais relevante em nossa análise é o nome dos participantes da reunião. Como se vê no último diagrama, assim como o artigo definido “o” é a palavra mais central – porque mais homogeneamente distribuída no corpus textual analisado –, o participante mais “central” em termos da contribuição para o conteúdo geral da reunião não foi Jair Bolsonaro, chefe do governo que mais falou na reunião, mas Paulo Guedes, seu ministro da Economia, professor e Posto Ipiranga.

A variável suplementar “ID2_PGUEDES” aparece na cor azul, o que significa que a maioria dos segmentos de texto classificados das falas de Guedes foi associada à classe 3 (valores e princípios/guerra cultural). Aqui, mais uma vez, é importante perceber que o tamanho da fonte não tem a ver com a participação na reunião em termos quantitativos.

Assim, a variável suplementar “ID2_PGUEDES” é associada de forma quase equivalente a todas as classes, com ligeiríssima preferência pela classe 3, à qual estão associados os “ideológicos” Damares Alves e Abraham Weintraub. A posição das variáveis no diagrama representa a proximidade do “mundo lexical” de cada participante com o conteúdo temático das classes. As variáveis “ID2_DAMARES”, “ID2_JBOLSONARO” e “ID2_BNETTO”, por exemplo, aparecem não apenas em fonte bem maior do que “ID2_PGUEDES”, mas também estão posicionadas onde se localizam as classes 1, 2 e 3 (ver diagramas anteriores). Já “ID2_PGUEDES”, aparece no centro.

Assim, tanto por sua posição central no diagrama, quanto por sua associação quase indistinta às três classes – e também por contribuir com quase 16% das palavras faladas na reunião –, as falas de Paulo Guedes são aquelas que melhor representam o conteúdo geral veiculado na reunião de 22 de abril.

Isso corrobora o que descrevemos no começo deste artigo: na reunião ministerial, Paulo Guedes conseguiu ao mesmo tempo agradar o presidente, acenar aos militares e aos defensores da moral e silenciar os desenvolvimentistas de ocasião vinculados ao Plano Pró-Brasil. Discursivamente mais hábil do que os seus pares e do que o presidente, é ele quem fala a língua de todos os presentes e do próprio governo.

Entender Paulo Guedes

A denominação “superministro” tem sido utilizada desde o início de 2019 para enfatizar a centralidade política de Paulo Guedes e Sergio Moro no governo Bolsonaro. Se essa centralidade se verifica para Guedes na reunião de 22 de abril, o prefixo “super” também confere uma distinção especial aos dois ministros, que nunca foram tratados com o mesmo rigor aplicado ao troglodita Weintraub ou ao siderado Araújo. Esta é apenas uma das muitas estratégias discursivas corriqueiramente empregadas para desconectar Guedes e Moro do governo ao qual eles sempre estiveram organicamente ligados.

Exonerado Moro, o ministro da Economia foi chamado, em matéria da revista Época, de “o último superministro” (1 mai. 2020). Suas falas absurdas durante o mês de fevereiro chegaram a ser interpretadas como “excesso de confiança”, e as suas “gafes” foram comparadas às de Lula. Foi esse o diagnóstico do colunista do UOL Reinaldo Polito, que produziu o seguinte parecer sobre os “deslizes” do ministro da Economia:

Como Paulo Guedes é inteligente e tem sensibilidade, vai botar a cabeça no travesseiro e refletir melhor sobre como tem se expressado. Ao observar as reações negativas de suas falas, talvez fique um pouco mais receoso, vista o manto da humildade, tenha alguma descarga extra de adrenalina e pondere sobre as mensagens que transmite.

Um pouco mais de prudência para falar em público fará com que o ministro continue se dedicando às questões econômicas e não tenha de ficar se desculpando pelas impropriedades de suas palavras. Afinal, o peixe morre pela boca. (14 fev. 2020)

A mesma crítica condescendente ressurgiu nos primeiros dias de julho, no contexto da divulgação do vídeo de uma conversa entre Bia Doria, primeira-dama do estado de São Paulo, e a socialite Val Marchiori, em que as duas, sentadas em um sofá do Palácio dos Bandeirantes, engatam uma conversa animada e com um repulsivo conteúdo higienista. Em meio às expressões públicas de repúdio, não faltou quem apontasse que a primeira-dama precisa de uma assessoria de comunicação. Assim como Bia Doria é aquilo que é, Paulo Guedes é aquilo que é. O peixe já estava morto desde antes de abrir a boca.

O ministro da Economia não apenas reproduz a verborreia bolsonarista, mas é rigorosamente um dos membros mais “ideológicos” do governo. Não há separação entre a “técnica” e a “ideologia” quando Paulo Guedes cita Hjalmar Schacht, ministro da Economia da Alemanha nazista (1934-1937):

A reconstrução da Alemanha, a reconstrução da Alemanha na Segunda Guerra, na Primeira Guerra com o Schacht. A Segunda Guerra, com o Ludwig Erhard, […] a reconstrução da economia do Chile com os caras de Chicago. […] o caso da fusão das duas Alemanhas. Eu conheço profundamente, no detalhe, não é de ouvir falar. É de ler oito livros sobre cada reconstrução dessa. (PG, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 59)

Embora a citação nominal a Schacht tenha – claro! – passado despercebida da imprensa, Fernando Pureza, historiador e professor da Universidade Federal da Paraíba, analisou no Twitter a relação entre essa menção e a “reconstrução da Alemanha” evocada pelo ministro.

A análise de Pureza afasta qualquer dúvida: Paulo Guedes não estava se referindo à reconstrução da Alemanha no período pós-Segunda Guerra, mas ao período anterior, o da ascensão do nazismo. A conclusão do historiador é que o ministro de Adolf Hitler é mesmo uma referência para o atual ministro da Economia brasileiro. Este que, em 2020 e inspirado em Schacht, defende candidamente a criação de frentes de trabalho militarizadas e remuneradas a salários inferiores ao mínimo constitucional.

A alusão de Guedes à “reconstrução da economia do Chile com os caras de Chicago” – durante a sangrenta ditadura do general Augusto Pinochet (1973-1990) –, não é gratuita e nem diferente dos muitos elogios públicos a Pinochet já feitos por Jair Bolsonaro. Nesse ponto, o Posto Ipiranga tem toda razão: ele de fato conhece esse universo “profundamente, no detalhe, não é de ouvir falar”.

No dia 25 de junho, durante a já tradicional live presidencial, Gilson Machado Neto, presidente da Embratur, arriscou na sanfona a Ave Maria de Gounod. Foi a homenagem do governo Bolsonaro às dezenas de milhares de vítimas fatais da Covid-19 no Brasil. Feito uma estátua de sal, fixado em um ponto qualquer do horizonte, Paulo Guedes ouviu impassível a voz desafinada e a sanfona claudicante de Machado Neto. O ministro virou motivo de piada. Alguns disseram que ele parecia agonizar em público, e que o inferno para Guedes deveria ser assim: ouvir por toda a eternidade o lamentável concerto.

A despeito da graça da situação, riu-se muito mais de Guedes que dos demais, como se fosse necessário explicitar uma vez mais a disjunção entre o “Chicago boy” de 70 anos, que leu Keynes “três vezes no original” e oito livros sobre a reconstrução da Alemanha (no entreguerras), e toda a cafonalha circundante. Afinal, alguém como Guedes jamais poderia ter identificação estética com o presidente maltrapilho, o músico sofrível ou o ambiente improvisado e meio amarelado que parece caracterizar todas as lives de Bolsonaro. Paulo Guedes usa máscara enquanto a ralé troca perdigotos. Calça sapatos especiais que o fazem parecer descalço. E tudo isso vai nos desviando do assunto principal.

Paulo Guedes sabe muito bem onde está e sabe muito bem com quem deseja “conversar”. Ao contrário de seus pares mais tagarelas, o ministro sabe a diferença entre aquilo que fala “aqui” e aquilo que conversa “lá fora”. O trecho a seguir é a continuação da fala em que Guedes afirmou que “tamos aqui por esses valores”:

Nós podemos conversar com todo mundo aqui, porque é o establishment, é porque nós precisamos dele pra aprovar coisa, mas nós sabemos que nós somos diferentes. Nós temos noção que nós somos diferentes deles. E quando eles cruzam a linha a gente solta a mão e sai andando sozinho. Enquanto eles tiverem no trilho, conosco, no caminho de fazendo as reformas que nós prometemos, nós tamo junto. Na hora que o cara soltou a mão e passou pro lado de lá, a gente deixa o cara ir sozinho e a gente continua sozinho e vai procurar outra conversa, em outro lugar. Então, eu acho que manter essa ideia que nos trouxe aqui, e eu tenho dito isso em todo lugar, e lá fora eu converso. (PG, laudo INC/DITEC/PF n. 1.242/2020, p. 59)

Nos últimos meses, com o aprofundamento da crise humanitária da Covid-19 e com a percepção quase unânime de que investimentos públicos e intervenções estatais na economia são inadiáveis, economistas de várias linhagens vêm espinafrando Paulo Guedes e as suas concepções político-econômicas. Enquanto isso, o ministro da Economia “sai andando sozinho” e o “establishment” vacila: recusa-se a soltar a mão do Posto Ipiranga e a reconhecer aquilo que sempre foi óbvio. Que entender Paulo Guedes é o mesmo que entender Bolsonaro.

Fernando Cássio e Marco Antonio Bueno Filho são doutores em Ciências e professores da UFABC.

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