
A família do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, aparece no centro de um projeto bilionário de créditos de carbono estruturado sobre terras públicas da União, com valores inflados e sem lastro no mercado ambiental. Documentos obtidos pela Folha de S.Paulo indicam que os Vorcaros participaram desde a origem de um plano para explorar créditos de carbono em uma área da Amazônia, usando como alavanca fundos administrados pela Reag, também investigados.
Créditos de carbono são certificados negociáveis usados por empresas para compensar emissões de gases de efeito estufa. Em projetos regulares, eles dependem de certificações reconhecidas e de comprovação efetiva de redução ou remoção de carbono. No caso investigado, porém, dois fundos da Reag tiveram seus patrimônios reavaliados após empresas investidas serem infladas em mais de R$ 45,5 bilhões com base em supostas “unidades de estoque de carbono” geradas em uma área pública da Amazônia, o que é irregular.
O elo entre a família Vorcaro e o projeto passa pela Alliance Participações, sociedade anônima fechada controlada por Henrique Moura Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, e por Natália Bueno Vorcaro Zettel, sua irmã, casada com o pastor Fabiano Zettel.
Em agosto de 2022, a Alliance firmou contrato com o fazendeiro Marco Antônio de Melo, apresentado como dono da área, e com José Antônio Ramos Bittencourt, que atuou como mediador. Pelo acordo, a Alliance ficou com 80% das unidades de carbono associadas à Fazenda Floresta Amazônica, em Apuí (AM), enquanto Bittencourt ficou com 20%.

Em 2023, a estimativa de 168,8 milhões de toneladas de CO₂ atribuídas ao território, com base em estudo da Unesp, foi transformada em cotas de fundos. Bittencourt recebeu 2,5% das cotas do fundo New Jade 2 e 7,5% do Biguaçu, ambos administrados pela Reag. O arranjo previa ainda pagamento por meio de tokens de carbono, apesar de não detalhar valores nem critérios de precificação.
Esses ativos foram parar nas empresas Global Carbon e Golden Green, que passaram a valer R$ 31 bilhões e R$ 14,5 bilhões, respectivamente, sem vender um único crédito de carbono. Embora não representassem dinheiro disponível, esses valores inflaram artificialmente o patrimônio dos fundos, permitindo a ampliação de operações financeiras ligadas ao Banco Master, inclusive a venda de CDBs.
A fragilidade do esquema está na própria natureza dos ativos. Diferentemente do mercado tradicional de carbono, as unidades usadas eram apenas estimativas, sem preço público, certificação reconhecida ou referência de mercado. Ainda assim, auditorias aceitaram os números com base em balanços das próprias empresas, sem verificar a situação fundiária da área, que pertence à União e é destinada à reforma agrária.
A Golden Green tem como investidor o fundo Jade, e a Global Carbon, o New Jade 2, ambos sob gestão da Reag e investigados na Operação Carbono Oculto, que apura suspeitas de lavagem de dinheiro para o PCC. O New Jade 2 integra uma cadeia que começa no fundo Hans 95, apontado pelo Banco Central como um dos seis fundos fraudulentos no caso Master.