Promessa de campanha coisa nenhuma, decreto das armas é agrado para a indústria bélica. Por Sacramento

Bolsonaro e Salesio Nuhs (Foto: Reprodução/Facebook)

Por mais que os entusiastas de revólveres, pistolas e carabinas comemorem a assinatura do decreto de Bolsonaro que facilita a posse de armas de fogo, não foi por eles que o presidente agiu. Em vez de promessa de campanha, a medida foi um acerto de contas com aqueles que ajudaram a financiar sua escalada rumo ao Palácio do Planalto.

Nas eleições estaduais e federais de 2014, última com doações de empresas para campanhas políticas, as duas principais indústrias de armas leves do país doaram cerca de R$ 1,9 milhão a candidatos e partidos.

Juntas, a Taurus e a Companhia Brasileira de Cartuchos (CBC) doaram aos comitês do Democratas, PP, PMDB, PSC, PTB e Solidariedade. Entre os políticos ajudados estava Onyx Lorenzoni, atual chefe da Casa Civil.

Em 2014, quando disputou para deputado federal, Onyx recebeu R$ 50 mil de cada uma das empresas.

Nas prestações de contas de Jair Bolsonaro e dos filhos Eduardo e Flávio, que no pleito disputaram os cargos de deputado federal e estadual, não há doações diretas vindas da Taurus ou da CBC.

Porém, os partidos em que estavam na época, PP e PSC, receberam dinheiro das duas empresas. Como parte das doações para as campanhas desses candidatos vieram dos diretórios dos partidos, é possível que eles também tenham recebido uma parcela dos quase R$ 2 milhões doados pela dupla Taurus/CBC.

O valor parece uma espoleta quando comparado às doações bombásticas declaradas pela JBS, que ultrapassaram R$ 360 milhões. Isso faz das doações da Taurus/CBC um investimento formidável, porque além do fato de que a cruzada dos Bolsonaros em defesa das armas é uma publicidade gratuita, o atual decreto abre excelentes flancos de negócios.

Uma matéria da Deutsche Welle publicada em novembro do ano passado dá noção da euforia do mercado de armas leves diante da expectativa de facilitação da posse de armas prometida por Bolsonaro.

De acordo com o diretor de um clube de tiro citado na matéria, a procura por inscrições acompanhou o crescimento do então candidato no cenário político. Ele informou à DW que havia mais de 300 fichas pendentes de aspirantes a sócios.

Mais sócios representam mais armas no mercado, que levam a despesas com projéteis e aumentam os lucros da Taurus e da CBC, respectivamente as líderes na fabricação e comercialização de armas e munições no Brasil.

A matéria destaca um levantamento da ONG Small Arms Survey que revela o número de armas por habitantes no país e mostra o potencial de crescimento do mercado por aqui. Enquanto no Brasil são 8,8 armas para cada 100 habitantes, nos Estados Unidos são 123 armas para o mesmo grupo de civis.

Estes números representam um mercado fascinante para a Taurus, cujos principais clientes estão no mercado externo – o Brasil representa menos de 20% do faturamento da empresa, segundo a DW.

Não por acaso, as ações da Taurus se valorizaram mais de 800% nos últimos 12 meses, conforme reportagem do Estadão publicada um dia antes da assinatura do decreto.

Também não dá para acreditar que foi apenas a afinidade ideológica que levou Salesio Nuhs, vice- presidente da CBC, que vem a ser a principal acionista da Taurus, à cerimônia de posse de Bolsonaro.

Embora muitos “cidadãos de bem” festejem a possibilidade de ter uma pistola no criado mudo para ficarem seguros enquanto dormem, os donos da festa são os fabricantes de armas, que têm no decreto a oportunidade concreta de ganhar muito dinheiro.

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