
A promessa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impulsionar a produção de petróleo na Venezuela começa a redesenhar o tabuleiro energético na América do Sul e tende a produzir efeitos diretos sobre a estratégia da Petrobras. Especialistas avaliam que a retomada venezuelana, somada ao avanço de grandes projetos na Guiana e no Suriname, pode antecipar decisões da estatal brasileira, especialmente o início da produção na Margem Equatorial, considerada hoje uma das principais apostas para a reposição de reservas do país. Com informações do Globo.
A Venezuela concentra as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, estimadas em cerca de 303 bilhões de barris. Apesar disso, a produção despencou ao longo das últimas décadas.
Antes do chavismo, chegou a aproximadamente 3,5 milhões de barris por dia, mas caiu para menos de 1 milhão em períodos recentes. Caso os planos anunciados por Trump avancem, o país pode voltar a ganhar relevância no mercado internacional, alterando o equilíbrio regional de oferta.
No curto prazo, o mercado já reagiu. Os contratos futuros de petróleo fecharam em forte alta no pregão seguinte ao ataque dos Estados Unidos à Venezuela, no último sábado, que resultou na captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores. A alta refletiu a percepção de maior risco geopolítico e possíveis interrupções no fornecimento global da commodity.
Para Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro de Petróleo e Gás, os impactos mais relevantes para a Petrobras devem aparecer no médio e longo prazos, à medida que a produção venezuelana se expanda.
“Em dois anos, se os planos de Trump derem certo, a produção na Venezuela pode aumentar para cerca de 400 mil barris por dia. Portanto, os efeitos serão percebidos no médio e longo prazos. Haverá uma disputa por investimento internacional, e a Petrobras precisará ser mais atrativa”, afirmou.

Segundo Ardenghy, os efeitos imediatos estão ligados ao aumento de custos operacionais, especialmente frete e seguros, diante do ambiente de instabilidade no Caribe, rota estratégica para o transporte de petróleo e derivados entre Brasil e Estados Unidos.
“Haverá um aumento entre 10% e 15% nos custos com a atual situação na Venezuela. Temos agora um cenário de instabilidade na região. Além disso, há a perspectiva de aumento de produção na Guiana e no Suriname. Isso é uma preocupação para a Petrobras e para o Brasil, pois estamos em um momento de reposição de reservas”.
A pressão competitiva se intensifica com o avanço dos projetos vizinhos. Na Guiana, o principal campo, liderado pela ExxonMobil, deve elevar a produção dos atuais 900 mil barris por dia para cerca de 1,3 milhão em dois anos. Já o Suriname, com mais de 750 milhões de barris recuperáveis, receberá ainda este ano sua primeira plataforma da TotalEnergies, com início de produção previsto para 2028.
Para Pedro Rodrigues, do Centro Brasileiro de Infraestrutura, o cenário tende a pressionar preços e intensificar a disputa por capital.
“Com o aumento da produção na Venezuela há um cenário de queda de preços, já que a demanda cresce menos do que a oferta. Para a Petrobras, isso é ruim. Para a Margem Equatorial, também. A Venezuela pode se tornar um destino geograficamente mais atrativo para investimentos da indústria. O Brasil também disputa esse capital, mas perde competitividade com um novo concorrente vizinho”.
Já Rafael Chaves, ex-diretor da Petrobras, ressalta que os reservatórios venezuelanos já são amplamente conhecidos, o que acelera investimentos e produção, reforçando a necessidade de rapidez no Brasil.
“O Brasil precisa ter pressa, porque o cenário global tende a se tornar cada vez mais competitivo. Se antes já era necessária mais velocidade, agora essa urgência é ainda maior. É fundamental uma coordenação mais eficiente entre o Ministério do Meio Ambiente e o setor de energia”.
Marcus D’Elia avalia que o novo contexto reforça a importância da Margem Equatorial como alternativa estratégica, “inicialmente para compensar a redução da produção nacional a partir de 2033 e 2034 e para ofertar um petróleo de melhor qualidade do que o venezuelano no mercado internacional”.
Estimativas da CBIE indicam que a Margem Equatorial pode concentrar cerca de 30 bilhões de barris, volume menor que o venezuelano, mas relevante diante da queda esperada da produção brasileira na próxima década.
O geólogo Pedro Zalan destaca que a diferença de custos também pesa. Enquanto as reservas venezuelanas estão em terra ou águas rasas, a exploração na Margem Equatorial, assim como na Guiana e no Suriname, ocorre em águas profundas e ultraprofundas, tornando a produção mais cara. Esse fator amplia o desafio para a Petrobras em um cenário de competição crescente por investimentos e espaço no mercado global de petróleo.