PSOL quer apuração contra PMs que foram armados a escola por desenho de orixá

Atualizado em 23 de junho de 2026 às 22:24
Orixá
Desenho feito por uma criança da divindade Orixá, Iansã. Foto: Reprodução

A Associação Movimento Brasil Laico pediu ao Ministério Público de São Paulo a investigação dos policiais militares que entraram na Emei Antônio Bento, no Butantã, zona oeste da capital paulista, após um pai acionar a corporação por causa de um desenho da orixá Iansã feito pela filha, de 4 anos. A representação foi protocolada nesta terça-feira (23), depois da divulgação de imagens das câmeras corporais da ocorrência.

A entidade afirma que as gravações reforçam indícios de intolerância religiosa, abuso de autoridade e constrangimento contra educadoras da unidade. As imagens mostram policiais questionando a atividade pedagógica desenvolvida pela escola e discutindo com a direção após serem chamados pelo pai da aluna.

Em um dos trechos registrados pela câmera corporal, um tenente acusa a diretora de tentar impor uma visão ideológica. “A senhora quis impor e ditar as suas regras, ditar seu pensamento, ditar a sua ideologia. Não vou conversar com a senhora agora. E, se tiver alguma medida, eu tomarei; voltarei aqui com a medida administrativa”, afirmou o policial durante a abordagem.

A Bancada Feminista do PSOL também apresentou representações à Corregedoria da Polícia Militar e ao Ministério Público de São Paulo. O mandato coletivo pede a apuração da conduta dos agentes e sustenta que a entrada de policiais armados em uma escola de educação infantil para questionar uma atividade sobre cultura afro-brasileira extrapolou as atribuições da corporação.

Nos documentos, as parlamentares afirmam que a ação pode configurar racismo religioso e abuso de autoridade. Elas também argumentam que a presença dos policiais teve efeito intimidatório sobre professores, funcionários e crianças, além de representar interferência indevida em uma atividade prevista no currículo escolar.

O caso ocorreu em novembro de 2025. A atividade que motivou a reação do pai era baseada no livro infantil “Ciranda em Aruanda”, da autora Liu Olivina, que integra o acervo oficial da rede municipal de ensino. Após a leitura da obra, os alunos fizeram desenhos inspirados nos personagens apresentados. A menina desenhou Iansã, orixá ligada aos ventos e às tempestades.

O pai da criança, que também é policial, afirmou aos agentes que a filha estaria sendo obrigada a ter aula de uma religião diferente da sua. Segundo relatos colhidos na época, policiais entraram na escola portando armas de grosso calibre, o que assustou crianças e profissionais da unidade.

Laura Jordão
Estudante de Sociologia e Política na Fundação Escola de Sociologia e Política; escrevo pelo Diário do Centro do Mundo!