Qual a real importância do grau de investimento? Por Paulo Nogueira

 

Para a imprensa, importância bem relativa
Para a imprensa, importância bem relativa

Qual a importância do grau de investimento, uma classificação que alegadamente norteia decisões de investidores estrangeiros?

Para a imprensa, depende.

Em 2008, no segundo governo Lula, o Brasil ganhou o grau de investimento da agência S&P, algo que não acontecera nos oito anos de FHC, aliás.

A imprensa tratou o assunto com frieza glacial. Não houve rojões, não houve elogios, não houve nada.

A Folha disse que a elevação do Brasil vinha num “momento de descrédito” para as agências.

Agora, sete anos depois, quando o Brasil volta um degrau na escala da S&P, o grau de investimento vira a coisa mais importante do universo.

Manchetes tétricas, artigos fúnebres de comentaristas patronais, vaticínios apocalípticos de políticos de oposição – tudo isso domina o noticiário.

Como explicar a dupla maneira de ver a mesma coisa, essa esquizofrenia jornalística?

A Folha em 2008 desqualificou o grau de investimento
A Folha em 2008 desqualificou o grau de investimento

É o seguinte. Em 2008, o grau de investimento era virtualmente irrelevante para a mídia porque a conquista poderia ser vista como positiva não apenas para o Brasil – mas para Lula, o presidente.

Agora, o grau de investimento é importantíssimo porque funciona como mais uma arma contra Dilma.

Tente achar, em 2008, comentários de jornalistas econômicos e políticos das grandes empresas de mídia.

Míriam Leitão, Sardenberg, Merval e por aí vai. Nada.

Pesquisa a Veja de 2008 para ver como foi tratada a matéria.

Pois agora, se tiver disposição para isso, veja o que todos eles estão falando sobre o assunto.

Tragamos para a linguagem do futebol.

Seu time ganha um título. Esse título é desprezado como nada.

Agora: seu time perde o título. Aí o título, na visão dos adversários e inimigos, vale ouro.

A imprensa atua exatamente assim: como torcedora.

Por isso, e não só por isso, não merece ser levada a sério.

Suponhamos que Aécio tivesse sido eleito presidente no ano passado. A perda  do grau de investimento sob Aécio seria tratada como se fosse uma coisa banal, uma derrota num campeonato longo em que o time ocupa uma posição muito boa.

O grau de investimento é uma coisa boa de ter, naturalmente. Mas recuar um passo na escala de uma das agências de classificação, como aconteceu agora com a S&P, está longe de ser o fim do mundo. As coisas não são estáticas. Um país, assim como uma empresa, alterna ciclos.

De resto, é um movimento entre as agências de classificação.

Outra grande agência, a Moody’s, anunciou que manterá a nota do Brasil a não ser que ocorra uma catástrofe, o que é uma possibilidade extremamente remota.

O mais relevante, em todo o episódio, é a exploração política cínica que vem sendo feita pela mídia.

Eu falei há pouco que a cobertura teria um tom bem diferente se a mesma coisa ocorresse sob Aécio.

Pois acrescento outra hipótese.

Caso o retorno do Brasil ao grau de investimento se dê numa administração petista, será recebido com a mesma frieza registrada em 2008.

É claro que se for sob um amigo da mídia, como Aécio, a festa durará dias, numa espécie de Carnaval político e financeiro do mais baixo nível.

E assim caminha a mídia brasileira: não joga luz onde existem sombras, como é o primeiro mandamento do bom jornalismo.

Onde já existe sombra, joga ainda mais sombra.

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