Qual é a de Temer? Por Paulo Nogueira

Temer e a mulher Marcela
Temer e a mulher Marcela

Lastimavelmente, uma vez que se passou mais de meio século, há muitos paralelos entre 2015 e 1964.

O maior deles é o óbvio: a sofreguidão com que a direita tenta um golpe.

A maior mudança é onde a direita foi buscar apoio para sua ação contra a democracia.

Em 1964, os golpistas foram bater nos quarteis.

Imaginavam que os militares derrubariam Jango e lhes dariam de bandeja o poder.

Aconteceu o que aconteceu. Os militares gostaram do poder e, em vez de devolvê-lo em 1965, como sonhavam os conspiradores, permaneceram nele por mais de duas décadas. E só saíram quando o regime se degenerara por completo – na economia, na política, no terreno social.

Agora, uma vez que os quarteis já não tem força para nada, a direita foi bater em outra porta, com os mesmíssimos propósitos.

Na de Michel Temer, o vice de Dilma.

O que eles esperam de Temer é que faça aquilo que os militares não fizeram: que saia de cena o mais rápido possível. Em 2018.

Até lá, basta achar algum motivo para impedir Lula de disputar as eleições, e pronto. A direita estará no poder.

Temer estará disposto a ir até as últimas consequências?

Eis a questão de 1 milhão.

Há um ponto, aí, que tem sido subestimado. É o chamado fator humano.

Temer é casado com a chamada “mulher troféu”, Marcela, uma beldade que poderia ser sua filha.

Uma coisa é aparecer ao lado dela como vice, que é pouco ou quase nada no sistema político brasileiro.

Outra, bem diferente, é oferecer a ela a posição de primeira dama, e numa administração que a direita tentaria chamar de governo de salvação nacional.

É possível que, neste momento, Temer, fechando os olhos, veja a imagem dele e de sua mulher em pose triunfal na rampa do Planalto.

Inebriado, Temer talvez não se dê conta da aventura a que estaria atirando não apenas a si próprio mas ao país, aquiescendo ao canto das novas vivandeiras da direita.

Mas seria um aventura potencialmente trágica para o Brasil, e isto não deve ser esquecido.

Ciro Gomes descreveu com perfeição o dia seguinte a um golpe. O PT, a CUT, o MST e outros movimentos sociais infernizariam o novo governo.

Nestes anos todos, falou-se de governabilidade. Teríamos uma situação clássica de ingovernabilidade.

Em 64, os tanques reprimiram a reação. E agora?

Na realidade paralela dos golpistas, basta tirar Dilma, assim como era suficiente, no passado, tirar Jango.

É uma brutal ilusão.

Ciro, acertamente, fez uma comparação: foi o antagonismo incessante da direita que levou a Venezuela ao caos de hoje.

A direita brasileira está fazendo a mesma coisa.

Um golpe e o antagonismo explodiria. Seríamos uma nova Venezuela, não por causa da esquerda, como arquiconservadores tantas vezes apregoaram – mas da direita predadora.

Todo o empenho de cidadãos responsáveis, neste momento, deve ser pela defesa não de Dilma, não do PT, não de Lula – mas da democracia e de um Brasil livre de um conflito que duraria décadas para ser superado, com sinistras consequências para todos, como se vê na Venezuela.

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