Quando a diversão deu lugar ao caos na Vila Madalena

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É na Vila Madalena que as coisas acontecem em São Paulo. Assim tem sido nos últimos tempos. O bairro paulistano tem sido o ponto de encontro mais importante da capital para os jogos da seleção, superando até mesmo o Vale do Anhangabaú, onde acontece a Fan Fest.

Segundo a prefeitura, 25 mil pessoas assistiram a Brasil e Colômbia na festa oficial da FIFA no centro e 70 mil no bairro da zona oeste.

Eu estive lá. E o que eu vi não foi um carnaval de alegria.

Ainda que o tempo estivesse ameno, muitos homens andavam sem camisa e se instalavam na beirada dos corredores por onde as pessoas passavam para investir em qualquer mulher que atravessasse o caminho. Segurar no braço, cheirar o cangote e andar alguns metros acoplado à retaguarda das garotas era o roteiro.

Os banheiros químicos instalados próximos à festa liberavam um cheiro forte e o chão já começava a tomar contornos de lixão. Mas as pessoas pareciam se divertir, dançando, cantando, bebendo e beijando.

Não consegui observar tantos gringos quanto os relatos que li e alguns amigos que estiveram nas últimas festas diziam haver. Vi um ou outro fotografando com brasileiras e balançando o corpo ao som das músicas que animavam as rodas que se formavam aqui e ali.

Para assistir ao jogo havia o famoso telão da Aspicuelta com Mourato Coelho, que estava banhado pela luz do sol, outro telão menor e mal posicionado na Fradique Coutinho, ou as televisões dos bares instaladas na calçada. Então eu optei por um bar ali do lado que estivesse mais tranquilo.

Depois da partida, o ambiente era o mesmo, só que bastante mais intenso. O cheiro desagradável havia proliferado pelo lugar e os banheiros químicos tinham perdido suas funções (ao menos para os homens).

O chão estava empesteado de lixo e totalmente molhado, apesar de não ter chovido. Os plásticos sob os pés, somados à umidade e ao odor, davam a impressão de que se estava caminhando sobre o esgoto.

Depois de dez minutos não aguentava mais ficar por ali. Tentei subir até a Fidalga para observar mais um pouco, mas para mim aquilo era impraticável.

A impressão que tive é que só havia um objetivo para aquelas pessoas: beijar a qualquer custo, sob a orientação da velha máxima “quanto mais melhor”.

Eu fiquei pensando nas mulheres. Qualquer moça digna sofreria terrores por lá. Não se andava poucos metros sem receber uma investida truculenta e desrespeitosa. Era preciso mais tempo para se desvencilhar dos rapazes bêbados do que para caminhar até a próxima abordagem. Tenebroso.

E então presenciei a cena que faria com que eu me retirasse o quanto antes.

Um rapaz derrubado pela bebida estava jogado em frente a uma loja, aparentemente inconsciente. Não havia ninguém com ele e a fachada daquele estabelecimento tinha se tornado um grande mictório.

Eis que um moço resolve mijar a menos de um metro do desacordado. Durante o processo, o tal moço parece perceber que há um bêbado jogado aos seus pés e, num lapso de maldade, direciona o jato de urina para a face do bêbado. Sim, à face.

O rapaz desperta de sua inconsciência, passa a mão no rosto, cheira-a, compreende o que se passa, mas, sem forças para reagir de alguma forma, encosta na parede e volta a passar mal.

O moço que mijava, ao observar essa reação, parece acordar para a vida e agacha para conversar com o bêbado no que interpretei ser um pedido de desculpas. E ali fica por uns dez minutos.

O rapaz desmaiado consegue se recuperar depois de um tempo e me conta que havia bebido muito e que suas amigas o tinham abandonado durante a festa. Sozinho, passando mal e sem encontrar alguém que pudesse lhe indicar com segurança o caminho para o metrô, a única solução que encontrou foi encostar naquele canto para esperar a bebedeira passar.

Depois disso eu fui embora, ainda a tempo de presenciar um jovem ensanguentado sendo carregado para longe da multidão. Segundo relatos, ele havia sido atacado covardemente por três homens.

Vale ressaltar que havia bastante policiamento no local. O problema é que os policiais se posicionaram nos limites da festa e pouco circularam pela multidão. Assim, drogas e brigas não encontravam muitos limites. Havia também bombeiros para socorrer emergências.

No caminho para casa fiquei tentando compreender como isso pode soar divertido para alguém. Qual é a graça?

Li uma matéria hoje, sobre o mesmo evento, que termina desta forma:

“Essa é a Copa do Mundo na Vila Madalena. Tem impedimentos, faltas desnecessárias, gol de mão e lances que merecem cartão vermelho. Mas tem também muita alegria, caras pintadas, sorrisos no rosto, paixões escancaradas e outras contidas, explosão de euforia e pessoas responsáveis por lances históricos.”

E então perco a esperança de encontrar uma resposta.

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