“Que a flecha do amor penetre nesta humanidade”, escreveu Simone Barreto, brasileira morta por terrorista em Nice

“Onde estiveres, Deus te guarde. Onde andar, Deus te guie. O que decidir, Deus te ilumine, e por toda a vida, Deus te proteja e te abençoe” foi uma das últimas mensagens publicadas nas redes pela brasileira Simone Barreto Silva, morta ontem aos 44 anos por um terrorista na Basílica de Notre-Dame de Nice.

Suas publicações na internet refletem os últimos momentos de vida. Giram em torno da fé, da maternidade e da profissão.

“Que tenhamos claridade no caminhar, passos certos ao andar. Luz divina a nos orientar e fé para nos sustentar”, diz uma publicação que ela compartilhou no dia 23 de julho. Um paralelo sobre sua última hora. Na quinta-feira, foi perseguida e atingida por Brahim Aouissaoui, 21 anos, armado com uma faca. Conseguiu fugir da igreja e se escondeu num restaurante.

Seu perfil tem fotos dos filhos, lembranças de 8 anos atrás. “Minha vida”. Foi neles que ela pensou antes de morrer, testemunharam os socorristas. “Diga para os meus filhos que eu os amo”.

E fotos dos pratos que ela, cozinheira, preparava.

Simone tinha publicado uma outra imagem de 8 anos atrás, ao lado do prefeito de Nice Christian Estrosi, a quem felicitou pela reeleição. “Bravo”. Hoje, ele responde “Niçoise adotada há décadas, essa mamãe radiante conseguiu fugir antes de sucumbir às feridas num café. Penso em seus três filhos, seu companheiro, sua irmã Solange e em toda a família”.

Simone Barreto e o prefeito de Nice Christian Estrosi


“Velhos piratas, é… Eles me roubaram, me venderam para os navios mercantis, minutos depois me jogaram no porão sem fundo”, diz um reggae que serve como música de fundo para um vídeo que ela compartilhou dia 16 de julho, mostrando imagens de pessoas escravizadas, que ela legendou com emojis de pés negros, punhos fechados, um símbolo de paz e amor, oração e um olhar. Uma mulher negra que expressou numa identificação ancestral um símbolo de força.

“Eles lutarão contra você, mas não o vencerão, pois eu estou com você, e o protegerei, diz o Senhor; Jeremias 1:19”, mensagem que publicou duas vezes. Uma proteção que não veio.

“Que a flecha do amor penetre nesta humanidade”, escreveu em maio. Uma mensagem que não chegou.

Mensagem publicada por Simone no Facebook



Compartilhava vídeos de Milton Cunha, um deles sobre o respeito como sinônimo de liberdade de expressão. As referências de paz também são presentes nas postagens sobre Mahatma Gandhi.

Afeita a recordações, uma delas expressa que o esporte já desde cedo não parecia um lugar de gênero. “Eu 10 anos kkk eu era fera no football fera no boxe kkk”, numa foto de infância. Amigos da época confirmam a habilidade. “Kkkkkk eu lembro sim . tempos bons”, diz um. “Verdade”, diz outro.

Simone Barreto, na infância


“Que Deus tenha misericórdia de nós, E nos perdoem”, diz uma publicação que ela compartilhou em março; uma Pietà invertida, em que um Cristo médico beija uma santa que chora, carregando flores brancas, envolta nas bandeiras do mundo.

A família recebe mensagens de apoio em português, em francês, um universalismo que se expressa pelas relações. “Humilde e carismática”, descreve um primo. Nitidamente uma mulher que morava na França, mas que nutria laços fortes com conterrâneos no Brasil, como se vivesse nos dois mundos ao mesmo tempo, a Bahia e Nice.

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