Que falta faz o Major Olímpio. Por Moisés Mendes

 

Originalmente publicado no BLOG DO MOISÉS MENDES

Por Moisés Mendes

Toda a confusão criada em torno do cabo da Polícia Militar Luiz Paulo Dominguetti Pereira seria em boa parte resolvida por uma figura não existe mais.

O Major Olímpio tentaria entender, como alguém da área da polícia militar, o papel do cabo mineiro no enredo da corrupção da pandemia. Mas o major morreu de Covid no dia 18 de março.

O senador Olímpio era oficial da PM em São Paulo. Foi aliado de Bolsonaro, virou inimigo do sujeito e passou a ser odiado pela família. Só ele, por seus conhecimentos, poderia nos conduzir com clareza ao mundo do cabo Dominguetti.

Major Olímpio poderia nos ajudar, porque a CPI e o jornalismo falharam. O jornalismo da Folha nos apresentou o cabo como alguém que sabia do esquema de propinas do governo Bolsonaro no Ministério da Saúde.

O cabo deu detalhes de que sabe mesmo. Envolveu coronéis da confiança de Eduardo Pazuello e homens de Ricardo Barros e deu pistas de como a corrupção transita entre os que compram vacinas.

Mas chegou à CPI e, de surpresa, atacou os irmãos Miranda, que denunciaram Bolsonaro por se calar diante das suspeitas de que as manobras para compra da Covaxin eram apressada porque o negócio estava superfaturado.

O cabo, elogiado pelos senadores antiBolsonaro, quase conduzido ao pedestal dos homens puros, deu uma volta e, com uma gravação que sacou da manga, com a voz do deputado Luís Claudio Miranda, passou a atacar os irmãos.

Era uma armação. O áudio não foi suficiente para desqualificar os Miranda. O cabo tentava destruir o deputado e o irmão, o servidor público que emocionou o Brasil com a imagem de funcionário assustado e cansado na CPI, mas destemido diante das milícias de Bolsonaro.

Dominguetti tentou armar uma grande confusão para proteger Bolsonaro. Manteve a denúncia contra os pedintes de propina, mas atacou os Miranda para assim livrar a cara do pai de Flavio, Eduardo e Carluxo.

Com os irmãos Miranda destruídos, Bolsonaro seria reapresentado à sociedade como o homem bom que havia confiado em dois pilantras que o visitaram num sábado no Alvorada.

Mas o cabo fracassou ao ser desmascarado ali na CPI. Mesmo assim, há muitas dúvidas. O que ele faz nesse rolo em que todo mundo tenta ganhar dinheiro com os negócios da morte, que envolve tantos coronéis?

A Folha, o jornalismo da grande imprensa e a CPI falharam ao não investigarem, antes do depoimento, mesmo que superficialmente, a vida de Dominguetti.

O cabo é bolsonarista, é ligado a grupos da direita, nunca foi negociador de produto algum na área da saúde e surgiu de repente para cumprir missões.

A primeira missão foi a de entrar na toca dos propineiros das vacinas. Sem ter nenhuma relação formal com a Davati Medical Supply, que diz vender vacinas da Astrazeneca, o cabo foi empurrado para contatos perigosos.

Ele, e não um diretor da empresa, deveria cumprir o roteiro sujo, que certamente já previa uma conversa sobre propinas.

Jantou com dois emissários dos pagadores das comissões, o diretor de Logística do Ministério da Saúde, Roberto Dias, e o coronel e lobista Marcelo Blanco.

Do encontro nas sombras, quando recebeu a proposta do negócio de US$ 1 por dose, foi depois a um encontro oficial com o poderoso coronel Elcio Franco, então secretário executivo da Saúde, o segundo homem depois de Pazuello. Tudo isso em fevereiro.

É fácil identificar o cabo como um ponta de lança que vai abrindo caminhos complicados. Ele pode ter convencido os homens da Davati de que tinha acessos privilegiados dentro do governo e talvez tivesse mesmo, ou não falaria com tanta facilidade com o número dois do Ministério.

Quando o caso estoura, com a denúncia da propina na Folha, o cabo é chamado num canto por emissários de Bolsonaro. E aí é armado o esquema do áudio de Miranda.

O deputado é mostrado pelo cabo, na CPI, como um espertalhão que telefona para um diretor da Davati e se apresenta como interessado no negócio das vacinas.

A própria Davati desmentiu a história, e Miranda disse que tratava no telefonema da vende de luvas cirúrgicas, mas não com a Davati.

O áudio, que não se sabe ainda de onde ele tirou, foi mal armado, porque o cabo exagerou e tentou envolver até o irmão do deputado, o servidor Luís Ricardo Miranda.

Mas por que Dominguetti manteve na CPI a versão de que foi abordado por propineiros num restaurante, se isso prejudica o governo?

Porque não havia como desmentir a entrevista dada à Folha, e era preciso manter alguma coerência.

O que ele fez, sob a orientação de alguém ou alguns ligados a Bolsonaro, é da lógica das máfias. Manteve a acusação contra Roberto Dias, homem de Ricardo Barros, e contra o coronel Blanco, homem de Pazuello, porque os dois deveriam ir para o sacrifício.

E assim salvaria Bolsonaro, o puro. Mas tudo que a extrema direita faz é precário demais, e o esquema falhou.

O Major Olímpio poderia nos dizer como um cabo da Polícia Militar, que se mete no negócio das vacinas, atira para todos os lados, é enquadrado pelos Bolsonaros e quase sai preso da CPI.

O Major Olímpio, que conhecia os pântanos do fascismo, também poderia nos informar sobre o que prevê na sequência desse roteiro imundo que até agora tem mais gente fardada do que civis.

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