“Que Moro saiba que aqui a gente não compra o discurso dele”, diz ao DCM brasileira eleita para o Parlamento da Espanha

Maria Dantas (Foto: Mariana Araújo/Reprodução)

O que ela quer fazer no parlamento espanhol já provoca a ira da extrema direita no Brasil. Antes mesmo de tomar posse, Maria Dantas já recebeu três ameaças de morte de bolsonaristas. Eleita no último domingo, por que ela desperta tanto ódio?

A advogada de 49 anos, moradora de Barcelona há mais de 20, deixou o Brasil para estudar direito ambiental na capital da Catalunha, onde chegou como ilegal e exerceu os trabalhos mais subalternos da sociedade espanhola. O objetivo: financiar seus estudos. Sua trajetória é de militância por direitos humanos, pelo feminismo e luta contra o fascismo. A candidatura ao parlamento espanhol foi uma consequência.

Filha de um caixeiro viajante e de uma enfermeira, a próxima parlamentar a tomar posse na Espanha anuncia um mandato de denúncia de Jair Bolsonaro. Ela promete explicar aos espanhóis o que Sérgio Moro fez com Lula, cuja prisão Dantas afirma ser ilegal.

Ela lançará uma petição para que um espaço público homenageie Marielle, cujas pautas levará ao parlamento.

Nesta entrevista para o DCM, ela conta como ser brasileir@ no exterior mudou depois da eleição de Bolsonaro. Fala da mobilização para barrar a extrema direita na Espanha e lamenta que o mesmo não tenha acontecido no Brasil.

Explica os paralelos da memória histórica do fascismo de Franco e do regime militar no Brasil, chama Olavo de Carvalho de “youtuber maluco que pensa que é filósofo” e denuncia a repressão política na Catalunha. Maria Dantas aponta o que espera para o futuro entre Brasil e Espanha.

Você tem sido muito solicitada nas últimas horas?

Muito, desde domingo à noite. Eu não pensei que (minha vitória) teria um eco tão grande no Brasil. Acho que também pelo fato de que as pautas que estou levando (para o Congresso Espanhol) são pautas que estão sendo perseguidas (no Brasil), acho que pelos recados que eu estou mandando ao capitão Bolsonaro. E também por ser a primeira brasileira, e primeiro brasileiro, que entra num parlamento estrangeiro.

Você foi eleita defendendo causas como o feminismo e o direito à migração. Como você interpreta sua vitória no momento político atual vivido pela Espanha e pela Europa?

Um respiro, um pouco de ar, de fôlego, para as pessoas que defendem o direito a migrar, que temos que nos unir, que a sociedade civil tem que fazer um muro de contenção contra a extrema direita, que está crescendo bastante no mundo inteiro. Como estou há muito tempo em coletivos de base imensos – não são ONGs -, como a Unidade contra o Fascismo e o Racismo, um coletivo que é irmão da United Against Fascism and Racism, de Londres, que barrou o crescimento da Frente Nazi. Acho que foi por isso que me chamaram, pelos 20 anos de ativismo social, porque eu tenho visibilidade como muitas pessoas.

Eu não sou A Maria, nao quero ser vista como A heroína. Eu sou UMA das Marias, uma amiga a mais, uma migrante a mais, uma pessoa a mais, eu sou favela, gente do povo, de carne e osso, trabalhadora, assalariada, mas que tomou esse caminho de lutar, todo o tempo livre que eu tenho, de entrar em todos os movimentos sociais, de defesa dos direitos humanos, do feminismo, dos direitos do menor, etc.

O que é a Frente Nazi?

Depois da II Guerra Mundial, houve um ressurgimento do nazismo, que queria se assentar na Inglaterra. Trabalhadores e trabalhadoras unidas fizeram um muro de contenção. Nesse sentido, surgiu a Unidade contra o Fascismo e o Nazismo, que inspirou o movimento na Catalunha, um coletivo irmão na Grécia, que está fazendo um trabalho fascinante contra a Aurora Dourada. O antifascismo é internacionalista. Ele tem que ser anti-racista. Tem que ser uma luta de toda a sociedade. Um partido político não vai acabar com o fascismo, a extrema-direita. As urnas não podem acabar com a extrema direita, não tem a capacidade de. Se é um componente de luta? Claro que sim, só que a extrema direita a gente combate no sentido de parar os pés, não no sentido de pegar em armas contra a extrema direita. Sou antibelicista.

A gente combate com argumentos nas ruas, fazendo trabalho de formiga, pouco a pouco, explicando às pessoas, mostrando a cara do fascista, mostrando as ligações que essas pessoas têm, que vão aos comícios tentando colocar a gravata e escondendo o bastão de beisebol, escondendo a suástica, explicar as suas propostas econômicas, explicar as suas propostas para a população subalternizada, as propostas para a população que está sendo discriminada e racializada a cada dia nas ruas.

A ideia é que o grosso da população, ou seja, os coletivos de base, sindicatos grandes e pequenos, partidos políticos grandes e pequenos, claro que são partidos da esquerda, são sempre da esquerda e as instituições.

Aqui, a Unidade contra o Fascismo somos mais de 600 coletivos entre partidos políticos vários, instituições várias, desde a SOS Racismo, Somos Migrantes, a Confederação Nacional de Vizinhos e Vizinhas, o Museu de Arte Contemporânea da Catalunha…

A quantidade de coletivos aumentou em relação ao crescimento da extrema direita?

Aqui na Catalunha, diferentemente do Brasil, você tropeça em movimento social, é uma coisa incrível. Aqui é um pais – aqui temos o conceito diferente de pais – que tem uma história muito anarquista. Quem conhece a história da Espanha sabe muito bem da resistência que fez a Catalunha. A Catalunha sempre foi republicana. Eu sou republicana, sou antimonárquica. Então ainda há um viés anarquista.

Aqui você ainda pode encontrar os “casals”, grêmios de cada esquina, uma casa ocupada, grêmios libertários para fazer representações teatrais, discutir… Não sei se você se lembra na favela da Maré daqueles espaços que fazia Marielle Franco.

Aquilo existe muito na Catalunha, espaços para gente negra se encontrar. Inclusive estou agora num desses espaços maravilhosos, que se chama Espaço do Imigrante, num bairro super multicultural que se chama El Raval. A Catalunha, somos a região da Espanha que fala 290 línguas. Isso, para o brasileiro, é difícil entender porque o Brasil é monolingue porque mataram todas as nossas línguas, dos povos nativos.

Como é ser migrante e brasileira em Barcelona?

Você tem que fazer essa pergunta antes e depois do capitão Bolsonaro. Eu faço essa divisor de águas, utilizando o termo bíblico. Tem que também fazer uma divisor de águas entre ser branca e ser negra. Eu nunca sofri racismo. Branco nao sofre racismo. Não só na Catalunha, mas em qualquer parte do mundo, eles fazem bastante diferença entre ser imigrante e ser estrangeiro. O povo que vem do norte global é estrangeiro.

Aqui um norueguês, finlandês é estrangeiro, não é um imigrante. Loirinho de olho azul é estrangeiro, não é um imigrante. Um brasileiro, se ele vem com uma bolsa de estudos, é loirinho e tem dinheiro, ele também é um estrangeiro. Ser imigrante em qualquer parte do mundo é passar muito perrengue, é sofrer muito racismo institucional, abordagens diárias da polícia, principalmente se você é preto, se você é indígena, se você tem traços racializados.

Eu passei muito perrengue uns 15 anos da minha vida, ainda mais com duas crianças pequenas porque não tinha documentação. Mas eu, como boa sergipana, nordestina, cabra da peste, peguei minha peixeira, botei no meio dos dentes e disse: vou sair adiante. Como muita gente imigrante aqui, já fiz um monte de trabalho de economia informal, desde empregada doméstica, tudo isso sem um contrato, lavar banheiro em restaurante, levar cachorro de gente rica para passear.

Eu saia da universidade e pegava cinco cachorros na casa de uma senhora no Arco do Triunfo de Barcelona para levar para passear. Ganhava 1000 pesetas para levar os cachorros para passear. Eu podia comer com esse dinheiro. Dei aula de português, já fiz um monte de coisa. Só não fui puta. Não porque eu tenha algo contra as putas, tenho muitas amigas putas (risos). E nao tenho nada contra as putas. Mas realmente não dou para ser puta. Mas o resto, eu fiz de tudo.

Por que o PSOE ganhou as eleições e como você avalia esse resultado?

Diferentemente do Brasil, isso me orgulha muito na Catalunha e na Espanha, o pessoal acordou a tempo. No BRasil, o pessoal não acordou a tempo. Eu me lembro que um dia antes teve gente que acordou. Foi gente no Twitter, como Joaquim Barbosa, ou Fernando Henrique, Felipe Neto. No dia anterior o pessoal começou a ver que no dia seguinte o perigo poderia estar no poder no Brasil, um governo de extrema direita. Aqui não.

Devido a essa luta social, de explicar com cara e olhos a ligação que tem o Vox com toda a extrema direita europeia, com o Salvini da Liga do Norte, na Itália, que é um partido fascista, com a Marine Le Pen, do Front (Rassemblement) National, que também é um partido fascista. Com o Orban, da Hungria, com o mesmo Steve Bannon, que vem aqui a cada semana, com um pessoal da Bélgica, que criou o The Movement, que é um movimento fascista, que está formando a extrema direita mundial.

A gente explicando tudo isso, eu acho que teve um pessoal que acordou, teve uma parte da população que acordou, uma parte da populaçao que nao comprou o discurso da extrema direita. O Partido Popular teve uma queda drástica, a maior queda que o partido teve na sua história. Esse partido, que governou a Espanha desde a época da redemocratização (em alternância com o PSOE), é um partido eminentemente pós-franquista, criado por Fraga, que foi um ministro de Francisco Franco, ditador fascista da Espanha. Isso, o povo brasileiro nao sabe. E o que fez o Partido Popular?

Ele queria tirar os votos do Vox, que nada mais é do que uma dissidência do PP, a parte mais reacionária e franquista do Partido Popular, encabeçada pelo líder atual do Vox, Santiago Abascal. Ele saiu do PP e fez esse partido, que se chama Vox, um partido nocivo, tudo de pior que pode existir no ser humano. Além de tudo de Bolsonaro, temos que acrescentar o discurso nacional falangista e franquista que tem esse partido; recentralização da Espanha, pena de morte, deportação de migrantes sem documentação. Se ele quiser deportar os migrantes sem documentação, eu acho que todos os meus amigos vão ter que ir embora daqui. Uma parte da população não comprou esse discurso.

O PSOE cresceu bastante. Não conseguiu a maioria absoluta. Eu estou contente porque no Congresso da Espanha não aconteceu o que todos temíamos, que era o tripé fascista, que é o Vox, o partido da ultradireita, com a extrema direita na rua, batendo no povo com as milícias, como a gente pode ver no Brasil, onde assassinaram a Marielle; e também com o populismo. Existem pessoas que se elegeram no Vox agora e que estavam na Democracia Nacional, um partido falangista da Espanha que nunca foi ilegalizado, um partido de Franco.

Pra entender essa questão é preciso entender a história recente da Espanha, a Guerra Civil, a história do período franquista, como a Monarquia chegou ao poder aqui na Espanha. O pessoal fica dizendo maravilhas da monarquia aqui da Espanha. Mas o povo não sabe que o rei Juan Carlos viveu desde os doze anos de idade na casa de Francisco Franco. A Espanha era uma república. Franco trouxe o rei, da Grécia. Quem cuidou dele foi a mulher do Franco.

Quando ele chegou numa idade tal, como Franco sabia que ia morrer – a ditadura fascista na Espanha não foi aniquilada como foi na Alemanha ou na Itália, Mussolini foi enforcado e Hitler morreu, assassinaram. Franco foi mais inteligente que o Hitler ou o Mussolini. Ele morreu de velho, na cama. E colocou como herdeiro o rei, o futuro rei Juan Carlos I. Essa monarquia, que foi imposta por um ditador fascista, essa monarquia que as pessoas dizem que redemocratizou nunca foi votada.

Essa monarquia é corrupta. Eu, que moro aqui há mais de 20 anos, vejo como ela é corrupta. Não sou apenas eu que o digo, são também os meios de comunicação. Essa monarquia vai a atos da Fundação Francisco Franco, uma coisa inimaginável na Alemanha. Você imagina em Berlim uma fundação que se chame Adolf Hitler?

Não.

Pois aqui, nós temos, na Espanha. São temas que o povo e a mídia brasileira precisam saber para entender um pouco da questão da Catalunha, do pais Basco,

da Galícia com a Espanha, da Andaluzia com a Espanha. A Espanha é um pais multinacional. Essas eleições deixaram claríssimo que a Catalunha continua sendo republicana. E a única coisa que a gente quer é poder votar, que o povo da Catalunha possa votar. O direito de votar é universal e nenhum político, nenhum Estado espanhol, nem mesmo a Constituição pode eliminar esse direito soberano do povo.

O resultado obtido pelo Vox, abaixo das previsões, foi uma surpresa?

Para os movimentos sociais, não foi uma surpresa porque fizemos um trabalho até o dia anterior às eleições. Sabíamos que o voto de Vox ia ser um voto heteronormativo, branco, rico. Os três bairros ou cidades onde Vox teve maioria esmagadora foram os mais ricos do pais, seria o que em São Paulo é Higienópolis, que só tem gente riquíssima.

Pode olhar os comícios do Vox. Pra você achar uma mulher, você tem que usar uma lupa. Por todo o trabalho que nós, dos movimentos sociais, fizemos, pensávamos que ia ser menos. Mas para a imprensa em geral foi uma surpresa. A imprensa está vendo com super bons olhos. E foi uma surpresa para o partido (Vox).

Eles pensavam que iam ganhar de 50 a 70 cadeiras. Mas eu quero dizer que nós não temos que cruzar os braços. A partir de agora em maio 24 representantes da extrema direita no parlamento da Espanha. Isso é um absurdo, que tenha entrado tanta gente racista, machista, xenófoba e com ideologia fascista. Então, a gente tem que continuar a luta na rua. Luta no sentido social.

Temos que continuar explicando o que é a extrema direita. Dia 26 de maio, teremos eleições para as prefeituras. Vamos ter também para o dia 26 as eleições para o parlamento europeu. Eles estão querendo arrasar no Parlamento europeu. Eles são 48 representantes fascistas no Parlamento e querem triplicar esse número. Santiago Abascal assumiu um resultado aquém do que queriam.

Mas mesmo assim, ele ainda continuou mexer com a política espanhola de uma forma geral. Por quê?

Bastante. Por mais que muitos deles já estivessem dentro do Partido Popular. Não estou chamando o PP de um partido fascista. Sou muito criteriosa para não banalizar essa palavra. Eles terão 10% do Parlamento. Tem países da União Europeia que têm 14%. Agora esperamos que o Partido Socialista não faça nenhum tipo de coalizão com o Ciudadanos porque Ciudadanos é a legitimação da extrema direita, colocando sua gravatinha e escondendo o bastão de beisebol, com um discurso liberal. A Andaluzia está sendo governada pelo tripé fascista, que é o Vox, o PP e o Ciudadanos.

No comício de Pedro Sánchez, depois de eleito, a militância, de esquerda mesmo, gritava: “nenhum pacto com Rivera”, que é o presidente do Ciudadanos; “nao é nao”, ou seja, nenhum espaço para machista, para pessoas que querem eliminar a lei do feminicídio, que é o que Vox quer fazer; “nao passarão”, um não à coalizão com o tripé fascista. Esperamos que Pedro Sanchez escute sua militância até porque quem gritava isso não éramos nós, mas a militância do Partido Socialista, que se uniu. O PSOE é um partido imenso aqui, então a gente tinha que aproveitar para não permitir à extrema direita de ganhar.

Quais são os paralelos entre a memória que o povo espanhol tem do franquismo e aquela que os brasileiros têm da ditadura militar?

Quando eu estudei no Brasil, na época do ensino médio, nunca me ensinaram, nem nunca esteve escrito nos livros que o Brasil passou por uma ditadura. Eu nasci na época da ditadura. Tenho amigos que foram reprimidos. Tenho amigos que foram morar fora do Brasil (exílio), pais de amigos meus, tios de amigos meus. O Brasil nunca passou a limpo sua fase ditatorial, seu golpe militar.

Quando chegou a época dos dois governos progressistas, fizeram uma coisa maravilhosa, que foi a Comissão da Verdade. A CNV foi o que de melhor aconteceu no Brasil pela verdade histórica. Aqui na Espanha, na época do governo socialista de Zapatero, fizeram a mesma coisa. Fizeram uma lei que se chama Memória Histórica, que na minha humilde opinião foi uma das melhores leis a nível europeu para recompor a memória histórica. Com a vitória de Mariano Rajoy (PP, direita), essa lei foi quase eliminada, foi posta de escanteio.

Deixaram de abrir as valas comuns. Deixaram de responder à população onde estavam enterradas suas vítimas, seus pais, seus tios, as suas mães. Isso foi eliminado na época do Partido Popular, obviamente, porque é um partido pós-franquista. O que o Vox quer agora é a eliminação total. O Estado espanhol não cumpriu com os seus deveres como fez a Alemanha.

A Alemanha explicou nos colégios o que foi o nazismo, quem foi Hitler, como nós chegamos aqui. Na Espanha, não foi feito isso. Foi feito um pacto de cavalheiros. Com a lei de transição, de 1978, que para mim é uma das leis mais danosas da Espanha, o Estado espanhol disse: “vamos fazer o seguinte? Vamos esquecer os mortos de um lado e os mortos do outro e vamos seguir a vida”. Esse seguir a vida é com políticos vindos do franquismo, com uma constituição feita com o exército por trás. Não interpretem que nos nao vivemos num pais democrático.

A Espanha é um pais onde se vive numa democracia, acho que uma democracia de baixa qualidade, mas de fato é uma democracia, houve uma democratização. Mas ainda existe esse laço, que é terrível, com o passado franquista. E isso não só por parte da direita. Também por parte da esquerda. Entra o poder econômico, não somente da memória histórica. Quais são os grandes bancos colocando dinheiro nos dois grandes partidos da Espanha, tanto o PP quanto o PSOE? Tanto dirigentes tanto do PP quanto do PSOE, quando deixam a presidência, para onde eles vão? Isso denuncia muito bem o Pablo Iglesias, do Unidas Podemos.

No Brasil, nunca se falou de ditadura. Começamos a falar algo de ditadura com o advento da lei da Comissão da Verdade, que foi execrada por uma parte da população e dos meios de comunicação hegemônicos, que ajudaram bastante no linchamento da Comissão da Verdade, porque para mim a CNV não é de um partido político, era do povo, era uma obrigação do Estado brasileiro para com o seu povo, que foi assassinado na época da ditadura.

Para citar um caso do que fez o franquismo na Espanha, eles assassinaram Garcia Lorca. Até hoje, não abriram a vala comum onde foi enterrado Garcia Lorca. Uma associação de vítimas do franquismo foi à justiça contra o Estado espanhol para saber onde estavam enterrados seus familiares. O juiz Baltazar Garzón começou a investigar. Ele foi inabilitado por 15 anos.

O STF da Espanha inabilitou o juiz por 15 anos pelo fato de ele ter tido a ousadia de investigar os crimes do franquismo.

Agora os crimes do franquismo estão sendo investigados por uma grande juíza da Argentina. Então a gente não pode dizer que a Espanha passou a limpo nem o franquismo, nem a memória histórica, por mais que haja uma lei maravilhosa. Nós podemos ainda ver a Falange Espanhola, um partido franquista. Eu faço sempre o paralelismo com a Alemanha, porque foi na mesma época e o mesmo tipo de regime ditatorial. Você pode imaginar hoje na Alemanha que exista um Partido da SS?

Eu posso imaginar os neonazistas…

Pois aqui, temos o partido Falange Espanhola, que era a força militar de Francisco Franco. Essas pessoas ainda saem às ruas com as suas suásticas nos braços. A cada dia 12 de outubro, essas pessoas invadem Barcelona e todas as cidades espanholas dizendo “viva Franco”, fazendo a saudação romana, levantando o braço. Há muitas milícias falangistas, pós-franquistas, nas ruas matando gente na rua, batendo em pessoas, dizendo “viva Vox”. Agora nas eleições, foi horroroso, você não podia sair na rua com uma camiseta LGBT que passava um militante do Vox e cuspia, jogava pedra, jogava tinta, a expressão do discurso de ódio levado ao extremo.

Pedro Sanchez chamou a população a votar citando Bolsonaro no Twitter como um presidente que ninguém achou que fosse ganhar. Finalmente, a eleição teve uma participação considerável da população. Qual a imagem de Bolsonaro na Espanha?

Não só na Espanha como em toda a Europa, eu acho que em quase todo o mundo. Eu chamo a população brasileira à responsabilidade de se dar conta que quem está governando o Brasil agora é o capitão reformado do exército, expulso do exército – isto quem diz não sou eu, é o próprio exército -, um terrorista, quem diz é o próprio exército. Ou seja, tudo que eu estou dizendo aqui, ele não pode nem me denunciar porque foi o próprio exército que o disse.

Todo mundo sabe que o governo Bolsonaro tem diversas linhas e uma linha é neofascista, composta por ele, por seus filhos, uma linha absolutamente ideologizada por um youtuber maluco que pensa que é filósofo, terraplanista. Eu sinto uma tristeza imensa pelo que o Brasil está passando agora. Espero que o povo brasileiro se dê conta do que está acontecendo. Espero que a imprensa brasileira faça um mea culpa.

Eu quero deixar claríssimo que eu levanto a bandeira do Lula livre. Levanto a bandeira de que houve um golpe de estado no Brasil. O impeachment da Dilma foi um golpe na minha opinião. No primeiro turno, eu votei Boulos porque eu acho que o PT precisa fazer um mea culpa imenso. Vou à rua mesmo levantar a bandeira do Lula. Acho que Lula está injustamente preso. Não é só uma injustiça como é ilegal que o Lula esteja na prisão, além de toda a parte da figura pública que é o Lula.

Eu, como pessoa pobre, do nordeste, na minha família tenho muitas pessoas que se beneficiaram de muitíssimos projetos e campanhas dos dois governos progressistas que houve no Brasil. Mas o PT tem que fazer obrigatoriamente uma mea culpa.

E outra coisa: o Lula não foi um inventor da corrupção, que foi o que a grande mídia hegemônica tentou passar para o povo brasileiro e o povo comprou essa história. O PT, a nível de gente imputada em casos de corrupção, era o oitavo partido. E o partido por onde saiu o capitão que se elegeu estava em segundo ou terceiro lugar.

Também é preciso levantar a pauta de Marielle Franco, porque é uma pauta internacional, são pautas de direitos humanos, direitos civis, direitos políticos, sociais, são pautas anti-racistas, contra o discurso de ódio, são pautas contra a desigualdade social. Não são somente pautas identitárias, como as pessoas pensam. Marielle Franco é um bastião contra as desigualdades sociais que existem no Brasil, que existem também aqui em Barcelona. Tem três mil pessoas dormindo na rua.

As pautas da Marielle vão permear a minha passagem pelo Congresso espanhol. Vou denunciar publicamente cada dia, incansavelmente, as atrocidades que o capitão Jair Bolsonaro e o seu governo, que está tentando legitimar a extrema direita no poder, como por exemplo o ex-juiz Sérgio Moro, que já sabemos por que colocou Lula na prisão, porque quer ser presidente do Brasil e está num governo de extrema direita. Que ele saiba que aqui a gente não compra o discurso dele.

Que ele saiba que aqui os políticos sabem perfeitamente o que foi a Operação Lava Jato. Pedro Sanchez é por Lula Livre. Ele é por Marielle, pela pauta dos direitos humanos. A população sabe muito bem que o juiz Sergio Moro foi o grande juiz da Operação anticorrupção do Brasil é agora ministro da justiça e segurança de um governo da extrema direita, com milícias na rua assassinando defensoras de direitos humanos, como Marielle Franco. Essa é a imagem que o senhor Sérgio Moro tem aqui. Essa imagem, eu vou fazer questão de explicar em inglês, em francês, em português, castelhano. A denúncia, vai ser cada dia.

Aqui na Catalunha, temos o coletivo Brasileiras contra o Fascismo, conseguimos fazer a prefeitura de Barcelona aprovar por unanimidade uma moção contra o governo do capitão Bolsonaro. Integramos outros coletivos, Amigos da Democracia, Comissão contra o Lawfare, Comitê Internacional contra o Golpe… No Parlamento da Catalunha, uma proposta de resolução votada por unanimidade a favor do Lula Livre. Fazemos muitas coisas aqui, além de ir para a rua levantar a bandeira dos direitos humanos.

Você foi delegada de polícia civil no Brasil. Você poderia dizer por que a ideologia de Bolsonaro e o ódio à esquerda, sobretudo a Lula, é tão forte em setores da polícia?

Terrível. Eu acho que a polícia é muito mal entendida. Na Europa, tem países que a policia nao carrega nem arma. A segurança no Brasil é muito mal interpretada e explicada para a população. A polícia não é para matar o povo. Ela não existe para cercear os direitos das pessoas. A polícia é para defender os direitos de ir e vir das pessoas. A polícia é para defender os direitos, a liberdade de expressão. Infelizmente, no Brasil, existe uma militarização excessiva não só na policia, mas também na mente das pessoas.

Também é preciso recordar as 65 mil pessoas mortas a cada ano no Brasil, os feminicídios. O Brasil, nesse sentido, é um ciclo vicioso. Não é porque tem muito assassinato que tem que matar bandido para que as pessoas “de bem”, que pagam impostos, possam viver em paz. Vamos à raiz da questão.

Por que há pessoas consideradas de bem e outras que não são consideradas de bem? Por que no bairro de rico, a policia não bate no povo? Por que no bairro de gente pobre a polícia se vê no direito de dar 80 tiros de fuzil num carro onde eles nem sabiam quem estava dentro? Essa base, a população brasileira infelizmente não tem.

Eu era muito novinha quando entrei na polícia. Eu não era o que eu sou hoje. Eu não pensava o que eu penso hoje. Eu já tenho quase 50 anos. “People change”. Eu hoje não entraria na polícia. Não quero falar dos meus companheiros da época. Eu aprendi bastante. Aprendi tanto que sai da polícia. Eu acho que é fundamental que as pessoas exijam que o corpo policial seja defensor de seus direitos e não opressor e matador.

Paris terá um jardim em homenagem a Marielle. Haverá um engajamento de sua parte por algo semelhante na Espanha?

Começamos isso no ano passado e nós, do Mulheres Unidas Contra o Fascismo, estivemos presentes numa proposta de resolução à prefeitura de Barcelona. Conversamos sobre de maneira muito informal, não de maneira institucional. Mas pode ter certeza; vamos fazer uma petição expressa tanto à prefeitura de Barcelona quanto ao parlamento da Catalunha para que se faça algo, ou uma rua, ou uma praça, ou um centro cívico, e se possível em bairros multiétnicos, seria melhor ainda.

Compor um governo com os catalães será um desafio para Pedro Sanchez?

Um desafio enorme. Ele vai ter que escolher, infelizmente, fazer um governo com um dos representantes do tripé fascista ou com um dos representantes da Esquerda Republicana Catalã (ERC), que somos pela soberania da Catalunha. Uma coisa que explicam muito mal no Brasil é o tema da soberania dos povos, a soberania da Catalunha.

Eu acho que a mídia brasileira comprou muito o relato da mídia hegemônica aqui da Espanha. Sabemos perfeitamente quem financia a mídia hegemônica. Utilizam inclusive um termo muito pejorativo, que aqui nós não utilizamos, o termo “separatista”. Nós utilizamos o termo “soberanista”. Queremos poder votar, que haja uma decisão entre a Espanha e a Catalunha para que a Catalunha possa votar.

Eu sou de ideologia marxista. Formei parte de um grupo chamado Marx 21 e o partido, da Esquerda Republicana, é um partido social democrata, mas não uma social democracia como a que vemos no Brasil, nao tem nada a ver. Dentre essas quinze pessoas que entramos no Congresso, tem pessoas desde o Partido Comunista, gente do Podemos, que saiu do partido para compor a lista da Esquerda Republicana. Tem gente que vem de partidos como Catalunha em Comum, que é o Podemos da Catalunha. Tem muita diversidade. O Pedro Sanchez sabe perfeitamente que é um processo que vem de base popular. Não é um processo que vem da burguesia.

A burguesia catalã jamais tocou no tema. Por quê? Porque estava de conchavo com a burguesia espanhola. Os dois milhões de pessoas que saiamos às ruas pedindo para que pudéssemos votar é de base popular e foi muito mal explicada. Vou explicar isso não só do ponto de vista acadêmico, mas também como gente precária, normal, migrante que passou muito perrengue, de esquerda, de forte convicção antifascista, anti-racista, anti-LGBTIfobia.

Quero levantar a minha bandeira para todos os meus amigos transexuais no Brasil, que estão passando muito medo. Uma conterrânea minha, Larissa, no ano passado, foi assassinada em Aracaju no segundo turno. Mestre Moa, mestre da minha filha, que faz capoeira, foi assassinado num crime terrível de um bolsonarista. O Brasil está doente, vamos ver se a gente consegue colocar mais amor e menos ódio no discurso.

O povo brasileiro aqui fora sempre foi bem visto. Nós éramos bastante estereotipados, o soft power que fazia o Brasil aqui era bastante estereotipado – futebol, carnaval, mulata. Mas era um soft power agradável, de paz e alegria. Agora você diz que é brasileiro, o povo te olha assim, quer saber primeiro se você votou em Bolsonaro ou não. O povo brasileiro precisa entender o tipo de governo que está presidindo o nosso pais.

Qual a sua avaliação sobre a maneira como Pedro Sanchez conduziu a questão catalã?

Eu não posso comparar de maneira alguma a maneira com Mariano Rajoy. Pedro Sanchez é uma pessoa de forte convicção democrática, de direitos humanos, não posso comparar esse senhor ao Mariano Rajoy, do Partido Popular. O PSOE não quis romper com o grupo constitucionalista. Ele se uniu ao bloco que aplicou o artigo 155 na Catalunha, uma intervenção federal em todos os sentidos, desde a economia até a polícia. Eu fazia parte da Confederação Nacional de Vizinhos e

Vizinhas e quase tivemos que fechar porque estávamos à mercê do que dizia o governo da Espanha.

Aqui não somos uma república presidencial, aqui não somos uma república presidencial. Somos uma monarquia parlamentar como forma de Estado e forma de governo. E a Catalunha é uma comunidade autônoma. O próprio nome já diz, autônoma. Cada comunidade tem o seu estatuto, que seria uma espécie de Constituição que tem cada estado no Brasil. O Brasil é um pais muito centralizador, tudo se faz em Brasília. Aqui, não.

Pedro Sanchez escolheu ficar do lado dos constitucionalistas. E a Constituição espanhola pode ser interpretada de duas formas. Existem diversos juristas que dizem que é impossível fazer um referendo de autodeterminação numa parte do seu território. Existem também diversos juristas, como eu, que defendem que a Constituição espanhola não diz nada contra sobre o direito de autodeterminação.

Quero citar um exemplo: segundo tanto o PSOE quanto o PP, não se pode modificar a Constituição de um dia para o outro. Mas durante a crise, pela qual o Brasil também passou, quando governava o Partido Popular, eles não tiveram nenhum problema em 7 dias modificar um artigo da Constituição espanhola que permitiu a ingerência econômica porque a Merkel levantou o braço e disse: “não pode ser! A Espanha está gastando muito. Precisamos resgatar os bancos”. Resgatamos várias instituições do mercado financeiro com dinheiro público. Foi uma coisa terrível. A Constituição foi mudada pra isso para o poder econômico, sem um referendo, sem passar pelo legislativo, sem que o povo aprove, para fazer um resgate.

Uma enorme parte da Catalunha que implora pacificamente nas ruas (poder votar). Espero que ele se sente com a gente sem condições, sem pré-condições, se a gente for conversar tem que ser sobre tudo. E ele nao quer conversar sobre tudo. E um ponto inflexível para nós são os presos políticos. O Lula tem uma sentença, que não é firme, contra ele, mas tem uma sentença. Os presos políticos da Catalunha estão presos de maneira provisória. Isso não existe. O Tribunal Supremo da Alemanha não extraditou o ex-presidente da Generalitat – que não é do meu agrado, que vem de um ramo da burguesia catalã – disse que não ia extraditá-lo, porque para o Tribunal, ele não tinha cometido nenhum crime de rebelião.

O Tribunal Supremo da Espanha determinou que a televisão da Catalunha não podia utilizar determinadas palavras. Nenhum jornalista na televisão da Catalunha pode dizer “presos políticos”. Isso é uma sentença de duas semanas.

Sua posição pessoal é pela independência?

Em primeiríssimo lugar, é pela autodeterminação dos povos, o direito de decidir, de votar algo. O ato de votar é um direito universal. Depois, pelo direito de autodeterminação do povo da Catalunha. Depois, pela independência da Catalunha. Por que não ? Eu sou republicana, a Catalunha é republicana, tem um passado anarquista. A Andaluzia sempre foi um bastião da esquerda e agora está sendo governada pela direita liberal em coalizão com a extrema direita. Já perdemos a Andaluzia. O Bolsonaro ganhou pelo antipetismo. O Vox, felizmente, não ganhou os votos que disse que ia ter com o tema catalão.

O ódio que existe aqui com a questão da Catalunha é uma coisa incrível. Quando fomos votar em outubro de 2017, a BBC fez um compilado impressionante das porradas que a gente tomou da polícia espanhola. O governo do Mariano Rajoy, eu nao me lembro da quantidade exata, mandou milhares de policiais para reforçar, porque eles não confiavam na polícia da Catalunha, eles militarizaram Barcelona por diversos meses. Era horrível. Nesse primeiro de outubro, eu tenho vídeos gravados, eles chegaram batendo forte nos colégios. Eu tenho vídeo gravado de gente passando por cima da minha filha.

Tinha senhoras em cadeira de rodas querendo votar. Eles estão tentando incriminar pessoas por rebelião quando não houve rebelião. O Tribunal da Bélgica entendeu que não houve rebelião. Eu tenho oito amigos ativistas que têm que pagar uma indenização porque estavam tentando defender os colégios. Eu fui uma das que defenderam os colégios para que as pessoas pudessem votar. Estão querendo incriminar pessoas por violência “contra a polícia” quando na verdade foi o contrário. As pessoas estavam de cara limpa, sem capuz, sem armas, sem nada. Eles não estão conseguindo porque não vivemos na época do Franco.

Agora existem celulares, vídeos gravados, os correspondentes internacionais levaram suas webcams, então está muito difícil para o Estado espanhol incriminar essas pessoas. A repressão continua e as pessoas continuam na cadeia.

A vitória da esquerda na Espanha pode ser um sinal de esperança para o Brasil?

Com certeza. Acho e espero. De repente, amanhã eu tenho uma surpresa grande. Minha opinião e desejo é que não sera feito nada mais do que a liturgia dos cargos obriguem. Não vejo o Pedro Sanchez fazendo alianças estratégicas com o governo Bolsonaro. Não acredito em alianças geopolíticas e estratégicas. Acho que isso não vai acontecer.

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