Quem pagou a viagem do jornalista da Veja à Filadélfia para cobrir Moro? Por Paulo Nogueira

Moro e a Veja: bons camaradas
Moro e a Veja: bons camaradas

Quem pagou a viagem do jornalista Rodrigo Rangel da Veja à Filadélfia numa ação de relações públicas, muito mais que de jornalismo, em cujo centro estava Sérgio Moro?

A própria Veja? Ou Sérgio Moro?

Me interessei pela questão assim que vi o artigo. Não é coisa pequena.

Num ambiente jornalístico decente, viagens desta natureza são bancadas pelas publicações. Em cenários de promiscuidade jornalística, quem paga é a fonte.

A Folha, décadas atrás, criou uma falsa solução para isso. Avisava, num discreto rodapé, que seu repórter viajara sob patrocínio de alguém. O pobre leitor que decidisse se o texto era contaminado por não ter sido arcado pelo jornal.

Fiz o básico. Perguntei ao diretor da Veja, André Petry, quem pagou a viagem. Ditei a pergunta a sua assistente, depois de haver me identificado. Deixei meu telefone.

A resposta não veio. Ou melhor: veio no silêncio de Petry. Se a Abril tivesse pagado a viagem, ele teria pedido à assistente que me ligasse e dissesse apenas uma palavra: nós bancamos.

Repito: é coisa de interesse público. Um mero telefonema e pronto. Dez segundos.

Uma semana atrás, ao falar no legado editorial de Roberto Civita ao anunciar o lançamento de sua biografia, Petry fez uma eulogia. RC tinha evidentes deficiências como editor e empresário. mas lembro de meus 20 anos de Abril que uma das regras sagradas era não aceitar viagens pagas por outros. Muito menos quando se tratasse da Veja, cuja reputação tinha que ser especialmente protegida.

Fora tudo, a camaradagem entre a revista e Moro no texto é uma afronta ao que deveria ser a conduta de um magistrado. Em que país socialmente avançado do mundo, um repórter confraterniza editorialmente com um juiz a quem cabem decisões tão brutalmente importantes para o futuro da sociedade?

E o mais grave: uma revista sem nenhum sentido de isenção e imparcialidade? Basta dizer que uma pergunta feita pelo repórter foi a seguinte: “Quando Lula vai ser preso?” No capítulo das ridicularias, o repórter se fez de fotógrafo e ‘flagrou’ Moro no vôo  com um patético boné para não ser reconhecido, como se o juiz de Curitiba fosse Brad Pitt.

Moro parece estar repetindo, também aí, Joaquim Barbosa. No comando do STF, Barbosa patrocinou com recursos públicos uma boca livre a uma jornalistas numa viagem de completa irrelevância à Costa Rica.

Ele ia participar de um seminário que não foi notícia sequer na Costa Rica. Uma jornalista do Globo estava presente e cobriu a não notícia. Imitador compulsivo da Folha, o Globo comunicou quem arcara com a despesa.

Os recursos dos brasileiros são escassos demais para serem torrados na promoção de Sérgio Moro.

Se, contra todas as probabilidades diante do silêncio de Petry, a Veja mesma houver pagado para adular Moro, aí fica registrado o monumental desprezo da revista pelo interesse público. Uma resposta telefônica dada pela assistente de Petry teria mostrado respeito, algum pelo menos, pelo interesse público.

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