Que saudade de quando o PT era o culpado de tudo. Por Gustavo Conde

Por Gustavo Conde

O fim da democracia no país e da era petista no governo federal piorou tudo em todos os níveis. Não há novidade nisso.

Mas é importante repassar algumas situações.

Uma delas: a fiscalização deixou de existir. Consumidores, hoje, só encontram lixo no supermercado. Os produtos são mal embalados, mal descritos e inspiram profunda desconfiança. É a lei da selva do mercado: lucro acima de tudo, empulhação publicitária acima de todos.

Outra: os preços dispararam. Há uma inflação não rastreada – porque os núcleos de pesquisa também foram sucateados – da ordem de 40% ao ano. O cálculo é simples: o que se comprava com 700 reais em dezembro de 2019, não sai por menos de 1.100, hoje.

Gás de cozinha? No último, eu paguei 84 reais – mas sei que há lugares em que ele passa de 120. Detalhe: antes do golpe, pagava-se 40.

O vale-tudo no país, no entanto, não está só no cotidiano doméstico, na pandemia ou no meio ambiente: está em toda esfera econômica e social.

A senha para fraudar o que quer que seja – e esfolar o consumidor final – está mais do que posta.

Bolsonaro, aliás, é uma senha ambulante: ele nos confere licença para matar, para desmatar, para incendiar, para fraudar, para roubar. Por isso, 20% da população brasileira o ama.

A despeito de todo esse caos social, no entanto, há um setor, em particular cujo sucateamento do futuro é mais expressivo. Calculem a tristeza que é fazer jornalismo tendo que cobrir esta casta apodrecida de homens brancos: Rodrigo Maia, Jair Bolsonaro, João Doria, Bruno Covas, Luiz Fux, Gilmar Mendes, Flávio Bolsonaro, Ricardo Salles, Eduardo Pazuello, Paulo Guedes et caterva.

É pior que fuçar o lixão.

Que jornalismo brota deste azar estrutural que é pertencer às elites brasileiras?

Evidentemente, o bom e velho jornalismo de esgoto.

É comovente passar os olhos no site do jornal Folha de S. Paulo, por exemplo, e ver no que eles se transformaram: uma assessoria de comunicação vagabunda de Jair Bolsonaro.

Estão tão precarizados que mal sabem o que destacar. Editorializam a catástrofe da vacina e se limitam a confabular as intrigas palacianas em torno da miséria gerencial que nos esmaga. As palavras ‘ousadia’, ‘coragem’ e ‘autoestima’ fogem da redação como o diabo da cruz.

Em suma, o país perdeu a referência civilizatória do PT – da soberania popular. A prática de ‘falar mal do PT’ diariamente pelo menos nos situava em algum lugar histórico de fala: a histeria das elites derrotadas. Convenhamos: era divertido (e dá uma saudade danada).

Mídias “alternativas” tentam se desvencilhar dessa maldição editorial, mas nem sempre é possível. Ler sites alternativos é como passar um lubrificante no noticiário oficial do país: eles nos dão as mesmas matérias sob o signo da indignação. Ajuda – mas não resolve.

O que fazer?

Em primeiro lugar, temos de nos ‘recompor’ – e de levar a sério o significado de ‘recomposição’.

Estamos tão vulneráveis quanto manifestantes capturados pela PM em meio a uma sessão de tortura: temos de resistir e não entregar a nossa esperança – nem nossas convicções.

Vale dizer: há um quê de risível nessa precarização do jornalismo e no desmantelamento do Estado Democrático Social de Direito. Ver um dos maiores países do mundo ser completamente destruído ao vivo e em cores tem, a rigor, sua dolorosa relevância dramática.

Mas há genocídio real em curso – e genocídio não é engraçado.

Além de resistir a essa tortura real, física e também simbólica, nós brasileiros temos de nos preparar para a retomada do país. Não se reverte um quadro de horror se não se pensar em como administrá-lo depois de superada a catástrofe.

A profunda desorganização institucional, sanitária e econômica deverá preceder fatalmente a recomposição do tecido social e do raciocínio histórico.

Os EUA já deram o primeiro passo, defenestrando Donald Trump da cadeira presidencial. Que tenhamos a dignidade de copiá-los neste processo – já que gostamos de copiá-los em tudo.

A hora de o Brasil se reencontrar consigo próprio está chegando.

É bom estarmos preparados.

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