Quem diria que esse governo nos levaria ao abismo? Por Luis Felipe Miguel

O presidente Jair Bolsonaro – AFP/Arquivos

Originalmente publicado em FACEBOOK

Por Luis Felipe Miguel

A Folha noticia que os secretários da saúde “estão no limite com Bolsonaro” e “alguns deles dizem que único caminho daqui em diante é pedido de impeachment do presidente”.

Que surpresa, não é mesmo? Quem diria que esse governo nos levaria ao abismo?

Não há dúvida de que uma retirada rápida de Bolsonaro da presidência é necessária. O problema é que isso é mais difícil hoje do que era no começo da pandemia.

No primeiro semestre do ano passado, a condução criminosa da crise sanitária apontava para a formação de um consenso sobre a necessidade de substituir Bolsonaro. De lá para cá, porém, ele soube rearranjar as coisas.
Não nas políticas de saúde, é claro. Ao contrário: o governo aprofundou sua opção pelo negacionismo, obscurantismo e boicote a qualquer medida razoável.

Mas Bolsonaro afinou o discurso – com base na tríade macheza, conspiração e cloroquina – e colocou suas redes para difundi-lo. Surfou no auxílio emergencial imposto contra sua vontade. Acertou o preço do centrão. Refez pontes com o Supremo. Ampliou o comprometimento da cúpula militar com seu desgoverno.

O país parece narcotizado, acostumado à barbárie. O caos estabelecido em Manaus desperta uma fração da indignação que mereceria. Os 210 mil mortos não valem uma tarde na praia.

Boa parte da oposição se acomodou também. Muitos preferiram se iludir com a balela de que bastaria ir pressionando Bolsonaro que ele, aos trancos e barrancos, acabaria por adotar as medidas necessárias ao combate à pandemia, Creio que hoje já está claro que essa não é uma opção viável.

Na esquerda, grassa um “attentisme” paralisante – a ideia de que sempre é preciso esperar mais, até as condições “amadurecerem”, antes de tomar qualquer iniciativa.

Na direita, há tanto o medo de que a retirada de Bolsonaro comprometa as “conquistas” dos últimos anos quando um cálculo interessado.

Bolsonaro no poder é útil para a construção da ficção do “centro democrático e responsável”. De que outro modo, a não ser pelo contraste com a política genocida do governo federal, o gerenciamento incompetente e oportunista da crise sanitária por João Doria poderia ser apresentado como modelar?

Nada disso elude o fato de que, sim, é urgente retirar Bolsonaro do cargo. Mas não há nenhuma garantia de que isso ocorrerá.

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