
O bolsonarista Apolo Carvalho da Silva conseguiu enganar a Polícia Federal e o Itamaraty, obteve um novo passaporte mesmo com mandado de prisão em aberto e deixou o país rumo à Europa. Réu pelos atos golpistas de 8 de Janeiro, ele aparece em vídeos dentro das invasões aos Três Poderes e é foragido da Justiça brasileira.
Apolo tem 28 anos e responde por incitação ao crime e associação criminosa no âmbito dos ataques de 8 de Janeiro de 2023. Ele foi identificado pela Polícia Federal dentro das sedes invadidas em Brasília a partir de vídeos encontrados em seu próprio celular e analisados por perícia.
As imagens mostram o arte-finalista usando boné branco, máscara improvisada com a bandeira do Brasil e camiseta azul enquanto circulava pelos prédios públicos depredados. Em alguns registros, segundo laudo do perito Jorge Ricardo Oliveira, “é possível ouvir frases como ‘tá invadido’, ‘tudo nosso’, ‘é nosso’ e ‘tudo invadido’”.
Apesar disso, Apolo foi preso apenas no dia seguinte, no acampamento montado em frente ao quartel-general do Exército. Essa circunstância impediu que ele fosse denunciado por crimes mais graves, como golpe de Estado, dano ao patrimônio e abolição violenta do Estado democrático de Direito.
Medidas judiciais e descumprimento
Após a prisão, Apolo passou a cumprir medidas cautelares determinadas pelo ministro do STF Alexandre de Moraes. Ele foi obrigado a usar tornozeleira eletrônica, permanecer em casa, não deixar o país e entregar o passaporte.
A decisão também determinava que a Polícia Federal e o Itamaraty tomassem “todas as providências necessárias para obstar a emissão de quaisquer outros passaportes em nome do investigado”. O documento foi entregue em 18 de setembro de 2023 à Vara de Execuções Criminais de Uberaba (MG).
Em 10 de junho de 2024, porém, Apolo rompeu a tornozeleira eletrônica e fugiu do Brasil com destino à Argentina. Em setembro daquele ano, foi expedido um mandado de prisão contra ele.

Rota de fugas pela América Latina
Após deixar o país, Apolo se juntou a outros investigados pelos ataques aos Três Poderes que haviam se refugiado na Argentina. Meses depois, participou de nova fuga, passando por Peru e Colômbia. O grupo seguiu então para o México, e alguns integrantes conseguiram chegar aos Estados Unidos, onde acabaram presos.
Apolo permaneceu no México entre janeiro e dezembro do ano passado, estabelecendo-se no estado de Querétaro, a cerca de 200 km da Cidade do México, onde trabalhava como mecânico. Foi a partir dali que ele articulou sua terceira fuga.
Em 2 de setembro de 2025, Apolo foi à Cidade do México e registrou um boletim de ocorrência no qual afirmou ter “perdido” o passaporte. “Perdi meu passaporte no centro da Cidade do México. Eu me dei conta da falta do documento ao chegar ao hotel”, declarou. “Estava no México como turista.”
Com o boletim em mãos, ele reuniu a documentação exigida pelo consulado brasileiro: carteira de motorista original, segunda via da certidão de nascimento obtida pela internet, título eleitoral digital, comprovante de pagamento de multas por não ter votado nas eleições de 2024 e o número do CPF. Também informou um endereço falso para evitar ser localizado.
Mesmo com mandado de prisão em aberto e ordens judiciais expressas para impedir a emissão de documentos, nenhuma dessas informações foi verificada pelos funcionários do consulado brasileiro no México.
Passaporte emitido e falha reconhecida
O novo passaporte foi emitido em 29 de setembro e assinado pelo vice-cônsul Gustavo Alexandre Magalhães, com a justificativa de ter sido “concedido em substituição a passaporte extraviado”. O consulado funciona na Cidade do México, onde também operam a Embaixada do Brasil e dois representantes da Polícia Federal, um delegado e um agente.

Ainda assim, ninguém identificou que Apolo era foragido da Justiça. O próprio Itamaraty reconheceu que houve “falha” e “concessão indevida de passaporte comum”. O documento só foi cancelado em 29 de janeiro. Em nota, o ministério afirmou que iniciou uma revisão das práticas de emissão de documentos de viagem “para evitar equívocos como o que lamentavelmente ocorreu no México”.
Após conseguir o passaporte, Apolo permaneceu no México por mais algum tempo, levantando dinheiro para comprar a passagem aérea. Em dezembro, embarcou para a Espanha, onde foi recebido por Oswaldo Eustáquio, apoiador do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
Já em território espanhol, procurou a polícia em Almería, a cerca de 540 km de Madri, e formalizou o pedido de “proteção internacional”. Ele vive atualmente na capital espanhola e deverá se apresentar no dia 16 de abril à brigada da Direção Geral da Polícia para a primeira audiência do processo.
Defesa aposta em asilo político
Apolo é representado pelo advogado Fábio Pagnozzi, defensor da ex-deputada Carla Zambelli, que também está foragida e foi presa na Itália. A expectativa da defesa é repetir o desfecho obtido por Oswaldo Eustáquio, que conseguiu proteção na Espanha e não foi extraditado.
“A Espanha se mostrou muito receptiva às pessoas do 8 de Janeiro”, afirmou Pagnozzi. Segundo ele, o pedido equivale a asilo político e se baseia na alegação de “perseguição política” contra opositores no Brasil.
Em janeiro de 2024, Apolo recusou um acordo com o Ministério Público que encerraria o processo mediante confissão, pagamento de multa de R$ 20 mil, prestação de serviços comunitários e participação em um curso sobre democracia. A defesa sustenta que as acusações são genéricas.
Segundo Pagnozzi, o arte-finalista também teme que, ao retornar ao Brasil, o Ministério Público utilize a perícia da Polícia Federal em seu celular para pedir o agravamento da pena, incluindo acusações de golpe de Estado e dano ao patrimônio.