Quem é o eurodeputado de extrema direita anti-LGBT que foi flagrado em orgia

József Szájer. Foto: PETER KOHALMI/AFP

Publicado originalmente em Visão, do site Sapo, de Portugal

POR GABRIEL RIBEIRO

Durante a carreira, posicionou-se contra os direitos sexuais e pessoais, como o aborto ou o casamento homossexual. Agora, o episódio da orgia gay afasta-o da vida política – “a única decisão certa”, considera o partido.

József Szájer, eurodeputado e um dos precursores da proibição do casamento entre pessoas do mesmo sexo na Hungria, demitiu-se este domingo. Dois dias depois, surgiu o verdadeiro motivo da renúncia: foi detido pela polícia numa orgia, na Bélgica, com mais de 20 homens, numa altura em que o país atravessa regras restritas de confinamento. Contra a comunidade LGBT e sempre a favor da defesa da “família tradicional”, este dirigente conservador – um aliado do primeiro-ministro Viktor Orbán – luta agora pela sua sobrevivência política após fazer tábua rasa dos princípios definidos pelo Fidesz, partido que ajudou a fundar.

Durante o fim de semana, o ruído que saía de um bar gay, na capital belga, a poucos metros de uma esquadra policial, obrigou as autoridades a atuarem após as queixas da vizinhança. No estabelecimento, mais de 20 homens participavam numa orgia.

A imprensa local fala na presença de diplomatas não identificados e de um eurodeputado, József Szájer, membro do partido de extrema-direita Fidesz. O político ainda tentou fugir por uma caleira, mas sem sucesso. 

“Após a identificação policial, disse às autoridades que sou deputado ao Parlamento Europeu, uma vez que na altura não tinha documento de identificação. A polícia conduziu o procedimento necessário, recebi uma advertência e fui levado para casa”, explica Szájer, em comunicado, mas sem nunca revelar pormenores da festa. O político lamenta “ter violado a proibição de ajuntamento” e que a conduta “foi um ato irresponsável”.

Sobre o alegado uso de estupefacientes, o eurodeputado nega qualquer envolvimento nesse crime: “Não usei drogas, disse à polícia no local que estava disposto a fazer um teste oficial, mas eles não fizeram”. A polícia belga, no entanto, fez sair um comunicado em que apresenta uma outra versão da história, afirmando que foram “encontrados narcóticos na sua mochila”. Szájer ainda não se pronunciou sobre a acusação.

Da Hungria para a UE: o percurso político

“Faz o que eu digo, não faças o que eu faço” poderia ser o mote para a estratégia política do eurodeputado, depois do incidente do fim de semana. Szájer tem 59 anos, é casado com Tünde Handó, juíza do Tribunal Constitucional da Hungria, e já publicou três livros. Formou-se como especialista jurídico na Eötvös Loránd University (ELTE), em Budapeste, em 1986 e, dois anos depois, no fim do regime comunista, ganhou relevância política ao fundar o Fidesz, partido liberal conservador que governa atualmente o país. Ocupou a posição de vice-presidente do grupo partidário de 1996 a 2004.

Manteve-se alguns anos como deputado do Parlamento húngaro e, já como eurodeputado, foi uma importante figura nas instituições europeias. Serviu, por exemplo, na Comissão do Mercado Interno e da Proteção do Consumidor, na Comissão dos Assuntos Constitucionais e na Comissão de Assuntos Jurídicos.

Em 2011, foi uma figura-chave na revisão da Constituição magiar. As novas medidas foram ao encontro dos ideais do partido Fidesz, liderado por Viktor Orbán, atual primeiro-ministro, mas rapidamente encontraram resistência nas ruas do país. A deriva autoritária do Governo e o carácter tradicional e nacionalista da nova lei suprema agudizaram ainda mais as divisões no país.

Mesmo assim, as alteração constitucionais e o reforço dos poderes de Orbán avançaram, apesar das reticências da sociedade magiar e da União Europeia. No documento, redigido por Szájer, afirmavam-se alíneas como a proibição do aborto, a defesa da “família tradicional”, a exaltação do “casamento entre homem e mulher”, a salvaguarda da importância da religião, entre outras.

Em 2019, a Hungria foi o primeiro país da União Europeia a ser considerado parcialmente livre, segundo o relatório da Freedom House. Em matéria de direitos sociais, o documento alerta que “o governo geralmente não restringe as liberdades, embora a Constituição consagre o conceito de casamento como uma união entre um homem e uma mulher”.

As polémicas que já vêm de trás

Szájer confirmou, logo após o episódio da orgia, que marcou presença no encontro, o que veio reavivar uma das maiores polémicas de que já teria sido alvo no passado. Foi em 2015 que Klára Ungár, membro do partido Aliança dos Democratas Livres, acusou o então eurodeputado de hipocrisia por este defender medidas contra a comunidade LGBT mesmo sendo homossexual – algo que nunca teria assumido publicamente. O político decidiu não reagir ao comentário.

Ainda assim, este não é o primeiro caso em que membros da política húngara se veem envolvidos em polémicas com sexo e drogas. No final do ano passado, o governador da cidade de Gyor, Zsolt Borkai, também filiado do Fidesz, foi acusado pela opinião pública, através de um vídeo a circular na internet, de ter um caso extraconjungal com uma jovem, num iate. As orgias e o uso de drogas eram, alegadamente, um hábito na vida do político. Apesar de ter vencido as eleições locais, renunciou um mês depois.

Até agora, Viktor Orbán, primeiro-ministro da Hungria, não se pronunciou sobre o episódio de Szájer nem da consequente renúncia do cargo de eurodeputado. No Twitter, o também fundador do Fidesz e chefe da delegação húngara no Partido Popular Europeu (PPE), Deutsch Tamás, afirma que “ele tomou a única decisão certa” – a demissão. “Reconhecemos a sua decisão, assim como reconhecemos que ele se desculpou para com a sua família, a sua comunidade política e os eleitores”, conclui.

Se dentro do partido os colegas aceitam a decisão do húngaro, noutras famílias políticas o episódio está a servir de lembrança à luta pela igualdade. Sem nunca se referir a este caso, Terry Reintke, membro do Partido Verde, disse, esta terça-feira, que é “necessário repetir” que “o ódio anti-LGBTI espalhado pela extrema-direita durante anos – incluindo Fidesz e PiS [partido que governa a Polónia] – está a destruir a vida das pessoas”.

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