Quem é o haitiano que disse a Bolsonaro “Você não é presidente mais, precisa desistir”? Por Joaquim de Carvalho

Bolsonaro ouve o haitiano anônimo: “Você sabe muito bem, você não é presidente mais”

O haitiano que disse a Bolsonaro o que muitos brasileiros querem é um homem anônimo que despontou numa noite peculiar em Brasília.

“Você não é presidente mais, precisa desistir”, afirmou diante do próprio Bolsonaro, que estava cercado de seguranças.

Uma bolsonarista exclama: “Que isso, moço! Que isso!”

Ouve-se um burburinho de reprovação e a câmera que estava em Bolsonaro e no haitiano se dirige para outro ponto da claque.

Aparece, então, um homem grisalho com vocabulário de pastor e diz a Bolsonaro um verso bíblico:

“Fizeste do Senhor o teu refúgio e a tua habitação. Portanto, praga nenhuma entrará na tua tenda.”

Em seguida, apresenta um colega, que quer fazer oração para Bolsonaro, que parece não entender ou finge não entender. Bolsonaro vai embora.

Num momento em que o mundo parece viver dias apocalípticos ou o roteiro de um filme de terror, a cena em Brasília pode ser esquecida rapidamente, como tantas outras.

Em 1994, quando era ministro da Fazenda, o ateu Fernando Henrique Cardoso ficou impressionado com o diálogo que teve com um anônimo.

A cena está descrita no livro A Real História do Real, de Maria Clara R. M. Do Prado, que foi colunista do jornal Valor:

No dia 8 de julho (1993), FHC viu-se confrontado com um episódio absolutamente inusitado. Quando chegou ao prédio da Fazenda, em Brasília, na entrada privativa, foi abordado por um indivíduo que dizia ser um enviado de Deus e insistia em falar-he pessoalmente. Não era a primeira vez que Fernando Henrique se deparava com aquela pessoa ali, na entrada do ministério, sempre repetindo que era um missionário e que precisava transmitir-lhe uma mensagem que recebera do além.

Intrigado, ao chegar à sua mesa de trabalho naquele dia, FHC mandou chamar o seu chefe de gabinete. Contou o que se passara e pediu que mandasse chamar o indivíduo e que conversasse com ele para saber o que, afinal de contas, ele queria.

O sujeito subiu até o quinto andar do prédio da Fazenda, onde ficava a sala do ministro, mas se recusou a falar com o chefe de gabinete. Queria conversar diretamente com Fernando Henrique, porque a mensagem que tinha de Deus era pessoal. Saindo disso, e ainda mais curioso, FHC resolveu receber aquela pessoa estranha na pequena sala contígua ao gabinete do ministro, onde na época ficava instalado o aparelho de TV.

— Ministro, o que tenho para lhe dizer é muito importante. Tive uma visão no Ceará com a mensagem de que o senhor está predestinado a salvar o Brasil, mas precisa mudar o nome da moeda — disse o homem.

— Como assim? — perguntou o ministro.

O enviado perguntou se FHC tinha algum dinheiro com ele e ouviu imediatamente uma resposta negativa.

— Eu não uso dinheiro — disse o ministro.

O visitante pegou então uma cédula ainda denominada de cruzeiro e mostrou-a a Fernando FHC, colocando-a contra a luz.

— Está vendo aqui por que não dá certo? O dinheiro está cheio de símbolos do demo — disse, apontando para algumas figuras que imitavam serpentes e que são naturalmente impressas nas cédulas para evitar falsificações.

— Além disso, o nome também é ruim, tem de tirar essa cruz que está no nome cruzeiro, isso não é bom — disse o mensageiro.

FHC estava olhando meio intrigado quando o indivíduo pegou de repente a sua mão, colocando-a sobre a nota do cruzeiro e fez ali mesmo uma reza para espantar as coisas ruins. Depois, sugeriu que se trocasse o nome da moeda para “trina”. FHC nunca soube que tipo de crença estava por trás do nome sugerido. Agradeceu a sugestão, e jamais esqueceu o episódio. Sabia que ainda era cedo para pensar seriamente em uma reforma monetária. A ideia estava em sua mente, mas não tinha ilusões, um novo programa de estabilização envolveria um processo muito demorado. Conhecia bem as opiniões de André e de Bacha a respeito do assunto.

Só um recuo no tempo permite puxar o fio da meada por onde passavam as propostas e as contrapropostas econômicas que acabaram levando o país ao Real (implantado no seguinte e que abriu caminho para a eleição de FHC).

Nunca se soube o nome desse mensageiro como talvez nunca se saiba o nome do haitiano que confrontou Bolsonaro.

FHC, de certa forma, fez o que o indivíduo anônimo que o esperava sempre na porta da Fazenda sugeriu. Mudou o nome da moeda de cruzeiro para real.

Bolsonaro deveria fazer o mesmo:

“Você não é presidente mais, precisa desistir”.

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Veja o vídeo:

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