Quem é Stan, líder sindicalista preso na ditadura, e suas lutas com Boulos — seu genro. Por José Cássio

Boulos e o sogro Stan

Stanislaw Szermeta, o Stan, é um líder operário conhecido e respeitado.

Fez parte do movimento que liderou as primeiras greves do ABC nos anos 70. Preso pela ditadura, ficou 16 meses encarcerado.

Perseguido na sua carreira de eletricista industrial, teve uma vida difícil e de incertezas. Não se arrepende de nada, tampouco guarda mágoa. “Sou um militante das causas da esquerda”, diz. “Feliz e realizado”.

Anistiado, reserva 80% dos recursos que recebe do governo para investir em ações de preservação da memória do movimento sindical, da luta democrática e em solidariedade aos “companheiros” que precisam.

Stan estava na sede do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo nos dias que antecederam a prisão de Lula. Rezou por dona Marisa. “Fui levar o meu abraço ao velho amigo de lutas”.

Radicado na cidade de Taboão da Serra, é ao mesmo tempo protagonista e testemunha viva do movimento de trabalhadores que resultou no surgimento do PT e na chegada de Lula à presidência.

Essa história é bem conhecida.

A outra, que muitos não sabem, é talvez ainda mais intrigante.

Aos 72 anos, acompanha de perto, e ajuda como pode, o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, o MTST, ação de luta popular que tem tudo para repetir, em intensidade e mobilização, o movimento representado pelos metalurgicos nos anos 70.

Stan é pai da líder Natália Szermeta, mulher de Guilherme Boulos, um dos coordenadores do MTST e pré-candidato do Psol à presidência.

“Conheci o Guilherme em 2004”, diz.

“Demos um pequeno suporte logístico após uma ocupação que eles fizeram no bairro do Campo Limpo. Basicamente intermediamos junto à prefeitura de Taboão apoio para o acampamento, coisas simples como água e segurança”.

Stan vê semelhanças entre os movimentos liderados por Boulos e Lula, ressaltando as diferenças pessoais – Lula vem de uma construção social através do sindicato e o Guilherme da luta estudantil – e, principalmente, de estrutura.

“O Lula surgiu a partir de uma expectativa social, numa organização forte que é o sindicato, em meio a um processo de abertura. O Guilherme de uma atitude de crise decorrente do crescimento das cidades, a partir da marginalização dos segmentos populares e das minirias e de processos explosivos de ocupação urbana”.

Segundo Stan, a luta de Boulos é mais penosa, embora, como Lula, tenha como foco a mobilização de massas.

Outra diferença é que Boulos tem uma visão progressista mais à esquerda.  

“Apesar de ser um negociador muito hábil, difícil imaginar ele fazendo concessões ao centro de forma tão ostensiva. Alguém que defende um projeto soberano de país jamais poderia saldar, como fez Lula, por exemplo, a dívida de um banco quebrado, como o Panamericano, de Silvio Santos, com anúncios numa emissora de televisão como o SBT”, diz.  

A precarização do trabalho, a marginalização dos mais pobres e das minorias, o desmonte do aparato estatal em áreas sensíveis como saúde, educação, moradia, assistência social, entre outras, somados à redução e em alguns casos ao desaparecimento dos sindicatos tem tudo para resultar, segundo Stan, no exponencial crescimento de movimentos populares como o MTST, Povo Sem Medo e outros.

“Eles catalisam uma necessidade que nem o Estado nem a iniciativa privada conseguem suprir”, explica o lider sindical.

“Trabalhadores de baixa qualificação, precarizados, desempregados, gente que não tem a quem recorrer mas não perde a esperança de mudar de vida vai se organizar onde? No shopping center é que não é. As pessoas ainda não se deram conta da força desses movimentos, mas quem conhece sabe que são práticos e eficientes no seu modelo de atuação”.

Stan foi por décadas filiado ao PT. Saiu quando percebeu que o partido se negava a discutir com profundidade a crise do mensalão e depois que Lula deu continuidade ao processo de reforma trabalhista iniciado por Fernando Henrique.

Há 11 anos é filiado ao Psol, partido pelo qual concorreu à prefeitura de Taboão em 2012.

No sábado, 7, após passar a manhã toda conversando com o DCM, mandou ver um PF num boteco no bairro do Caxingui e seguiu para o edifício Martinelli, no centro da cidade, para um encontro sobre o plano de governo na área trabalhista com o pré-candidato do partido à presidência.

Em sua fala, Boulos reiterou que a construção do processo que está começando agora não encerra em 7 de outubro.

“O que estamos construindo é algo para os próximos 20 anos, que reacenda e encante as gerações com uma nova perspectiva de futuro”.

O líder do Povo Sem Medo, que ocupou o triplex do Guarujá — o primeiro entre os não petistas a defender Lula no imbroglio do sai e volta da prisão –, que comanda as maiores mobilizações de massa desse país desgovernado, deixou para o final as homenagens aos representantes da velha guarda presentes na reunião.

Entre eles “Stanislaw Szermeta, o grande opositor nos debates da Central Operária e meu sogro perfeito”.

Humilde, no seu cantinho, timidamente o velho sindicalista sorriu e agradeceu os aplausos.

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