Quem financiou e foi cúmplice do desastre de Nikolas em Brasília

Atualizado em 26 de janeiro de 2026 às 11:40
Ato liderado por Nikolas Ferreira, em Brasília, neste domingo (25). Foto: Sergio Lima/AFP

O que seria o encerramento simbólico de uma caminhada de centenas de quilômetros liderada pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) terminou em correria, gritos e ambulâncias abrindo caminho entre apoiadores feridos. A queda de um raio nas proximidades do evento, em área aberta de Brasília, deixou dezenas de pessoas machucadas e levantou uma pergunta inevitável: quem sustentou politicamente e institucionalmente uma mobilização mantida sob condições climáticas já classificadas como perigosas?

De acordo com os dados divulgados pelos serviços de emergência, 42 vítimas estavam estáveis, conscientes e orientadas. Outras 30 precisaram ser encaminhadas ao Hospital de Base do DF e ao Hospital Regional da Asa Norte. Oito apresentavam estado grave. Houve registro de queimaduras, especialmente em mãos e tórax, além de torções e quadros de exaustão térmica ligados ao esforço físico prolongado e ao tempo instável.

Não se tratava de uma mudança repentina do clima. Desde a sexta-feira anterior, o Distrito Federal estava sob alerta laranja para chuvas intensas, com risco de descargas elétricas, segundo o Instituto Nacional de Meteorologia. Manter um ato político de grande porte em campo aberto, com estruturas metálicas elevadas — como guindastes e grades — significou expor milhares de pessoas a um cenário já descrito como perigoso por órgãos técnicos.

Testemunhos e registros em vídeo indicam que a descarga elétrica atingiu um guindaste que sustentava uma bandeira, estrutura que funcionou, na prática, como ponto de atração para o raio no meio da multidão. Manifestantes que tentavam se proteger da chuva acabaram atingidos ou feridos na confusão que se seguiu.

O Corpo de Bombeiros do DF atuou rapidamente, mobilizando dezenas de profissionais e viaturas. Ainda assim, a dimensão do atendimento revela o tamanho do risco ao qual o público foi submetido.

Responsabilidade política e silêncio no palanque

A discussão sobre responsabilidade não se limita ao instante do raio. Minutos depois de apoiadores serem retirados em macas, o discurso final do deputado priorizou ataques a instituições e pautas eleitorais. Não houve referência direta às pessoas que, naquele momento, estavam sendo socorridas ou levadas a hospitais.

Além de Nikolas Ferreira, outros parlamentares participaram da mobilização e da organização do ato na capital, entre eles a deputada Bia Kicis (PL-DF). A decisão de manter a programação mesmo com alertas meteorológicos em vigor passa, portanto, por um conjunto de lideranças que convocaram público, estruturaram o evento e definiram sua continuidade.

O apoio do setor produtivo

A caminhada que terminou em Brasília também recebeu respaldo público de entidades de peso do setor produtivo de Minas Gerais. Federações ligadas à indústria, ao comércio, ao agronegócio e a associações empresariais divulgaram nota defendendo mobilizações em nome da “liberdade” e da participação cívica. O texto não citava nominalmente o evento, mas fazia referências claras à iniciativa liderada por Nikolas.

Assinam o documento entidades como FIEMG, Fecomércio MG, FAEMG, Federaminas, FCDL-MG e CIEMG. Ao oferecerem apoio institucional e simbólico à mobilização, essas organizações ajudaram a conferir legitimidade política ao ato e a ampliar seu alcance.

Esse apoio não significa, por si só, responsabilidade direta pela logística ou pelas decisões operacionais do evento. Ainda assim, levanta um debate sobre o papel de atores econômicos influentes ao endossar grandes concentrações públicas sem cobrar garantias explícitas de segurança, sobretudo quando há alertas oficiais de risco climático.

Um desastre que não veio do nada

Tempestades com descargas elétricas são fenômenos previsíveis e monitorados. Protocolos básicos de segurança recomendam evitar áreas abertas, estruturas metálicas altas e aglomerações durante esse tipo de condição. Ignorar esses parâmetros em nome de um ato político transforma um risco conhecido em escolha consciente.

O resultado foi uma cena que contrasta com o discurso de celebração planejado: pessoas feridas, equipes médicas sobrecarregadas e famílias buscando informações em meio ao caos. Mais do que um episódio isolado, o caso escancara como decisões políticas, apoio institucional e desprezo por alertas técnicos podem convergir para produzir tragédias anunciadas.

A apuração sobre responsabilidades legais e administrativas ainda deve avançar. No plano político e moral, porém, a pergunta já está posta: quem convocou, quem incentivou e quem deu aval público para que milhares de pessoas permanecessem expostas a um perigo que já estava no radar?