Quem foi a Mafalda de Quino e o que a sua geração representou. Por Ana Isabel Fernandes

Publicado na Comunidade Cultura e Arte

Criador da Mafalda, Quino morreu nesta quarta-feira (30) aos 88 anos

Por Ana Isabel Fernandes

O argentino Quino é criador de uma das personagens de BD mais icónicas e reconhecíveis a nível mundial. Talvez, só terá comparação com ‘Charlie Brown’ e o seu amigo beagle ‘Snoopy’. E tanto assim é, que muitos já terão visto a sua imagem, nem que seja só por uma vez, mesmo sem terem lido uma única tira sua – o que representa uma perda inqualificável. Falamos de ‘Mafalda’, a ‘enfant terrible’ dos anos ‘60’ que corria para a farmácia à procura de ‘nervocalm’ para o seu pai, para o apaziguar das perguntas difíceis de cariz existencial, político e social que lhe fazia constantemente. Sonhava ser intérprete da ONU e, por essa via, ajudar a curar o mundo da sua enfermidade para lá da crónica.

A sua tática seria esta, quando um político dissesse guerra e desacordo, ‘Mafalda’ traduziria para paz e união. Lê-la é entender a geração que passou a sua infância nos ’60’ e, por conseguinte, mesmo que essa não fosse a finalidade principal, ajuda a compreender o que esta se tornou à luz da atualidade mundial. Não podemos esquecer que a geração de ‘Mafalda’ é a que vai dos 56 até aos 62 anos e a que ainda teve uma extrema importância na educação dos Millennials. Vamos, então, não só recordar ‘Mafalda’, mas também provar como, afinal, passado todo este tempo, e à luz de um mundo que se diz no meio de uma reforma sem precedentes, não só ainda faz todo sentido, como ainda encontra repercussão e uma similitude não só nos mais velhos, mas também naquelas que são, afinal, as gerações mais jovens.

E assim Mafalda veio ao mundo.

É surpreendente, mas a verdade é que ‘Mafalda’, que teve em Umberto Eco um grande fã, foi criada, inicialmente, como uma campanha publicitária da marca de eletrodomésticos ‘Mansfield’. Joaquín Salvador Lavado Tejón, tratado por Quino para se distinguir do seu tio homónimo, também desenhista, já havia comentado com o seu amigo, o escritor e humorista Miguel Brascó, que tinha imensa vontade de criar umas tiras de banda desenhada com crianças. Um certo dia, Brascó recebe um telefonema de uma agência de publicidade, a pedir um cartunista capaz de elaborar umas tiras de pendor humorístico para publicitar, então, a ‘Mansfield’. A ideia seria lançar os produtos da marca através de uma história que retratasse uma família típica da classe média argentina sem, no entanto, fazer uso de publicidade directa e declarada. Seria uma estratégia de publicidade encoberta que passaria através de uma história principal. Brascó indicou o seu amigo Quino para elaborar o trabalho, este aceitou-o, e iniciou-se, então, a fase embrionária da pespineta precoce e perspicaz.

O imperativo para esta campanha seria que todos os nomes das personagens começassem por ‘M’, daí o nome ‘Mafalda’. Nome, aliás, que segundo as notas do livro ‘Mafalda Inédita’ – que agrega as primeiras tiras que nunca chegaram a ser publicadas ou, mais tarde, agregadas em livro – terá a ver, essencialmente, com a bebé ‘Mafalda’ do livro ‘Dar La Cara’, do escritor e historiador argentino David Viñas. Mais tarde, fazer-se-ia, também, uma leve associação ao nome da princesa italiana Mafalda de Saboia, como uma espécie de homenagem pelo seu fim trágico. Assim que Mussolini foi destituído, o Rei de Itália voltou a assumir o seu cargo e pediu o armistício. Como retaliação, Hitler enviou a princesa, que se encontrava a viver na Alemanha, para o campo de concentração de Buchenwald, onde acabou por morrer em 1944.

As primeiras tiras publicadas de Mafalda, em 29 de Setembro de 1964/ Quino

Quando a pequena Mafalda começou a ser pensada, estávamos, então, em 1962, um ano antes dos ‘Beatles’ lançarem o seu primeiro álbum ‘Please Please Me’ e abrirem as portas à ‘Beatlemania’ e ao seu tão característico ‘Yeah, Yeah, Yeah’. Acontece que a campanha da ‘Mansfield’ não foi muito bem sucedida, aliás, as inovações que a empresa tentaria empreender nunca chegaram a ir avante. A esta questão, soma-se o facto do jornal ‘Clarín’, onde ‘Mafalda’ seria publicada, não aceitar as tiras e não cumprir com o contracto já assinado, pela descoberta da associação da personagem à marca. Se a ‘Mansfield’ queria um espaço publicitário, teria de pagar por ele como publicidade. ‘Mafalda’ esperou, assim, um tempo na gaveta (2 anos), até que um outro amigo de Quino, Julián Delgado, editor-chefe do ‘Primera Plana’, convidou o autor a publicar as suas tiras no semanário argentino.

Os primórdios da banda desenhada começaram por ser bastante simples, uma família típica da classe média argentina com a sua pequena filha de seis anos, de cabelos negros e desgrenhados. Eram só estas três personagens quando ‘Mafalda’ começou, então, a ser publicada pela primeira vez, no dia 29 de Setembro de 1964. Em 1965, seria adicionada a primeira personagem extra, o seu primeiro grande amigo ‘Felipe’: o mais sonhador, distraído, bondoso e criativo de todos, talvez o que contivesse mais elementos da personalidade de Quino, embora o próprio tivesse confessado que o desenho da nova personagem foi inspirado no seu amigo jornalista Jorge Timossi, principalmente nos dois dentes salientes da frente. As personagens que se seguiram foram, depois, ‘Manolito’ e ‘Susanita’. Por último, no que diz respeito ao principal núcleo das suas amizades extra família, veio ‘Miguelito’. A pequena mas tão importante ‘Liberdade’, que nos parece a nós sempre tão pequena, surgiria já na fase final, tal como o seu irmão, o bebé ‘Guille’, um grande apreciador da sua ‘chucha on the rocks’, como quem diz, da sua chupeta que tinha de ser servida tal como Whiskey, num largo copo com pedras de gelo. Era também um grande admirador precoce de Brigitte Bardot , mas não, necessariamente, pela sua intelectualidade, entenda-se.

A primeira tira com Felipe, de 19 de Janeiro de 1965

‘Mafalda’ continuaria, no entanto, no ‘Primera Plana’ durante pouco tempo, já que a publicação acabaria com as tiras logo em Março de 1965. Houve um jornal do interior argentino que pediu a Quino se seria possível publicar Mafalda também, e o cartunista e humorista tentou enviar os originais para publicação. O que Quino desconhecia era que o ‘Primera Plana’ tinha ‘Mafalda’ como exclusividade e propriedade sua, e, assim, a colaboração chegou ao fim. Dessa altura, resultaram 48 tiras que, apesar de já publicadas, não chegaram a ser reeditadas em livro, excepto na obra ‘Mafalda Inédita’. Ainda nesse mesmo ano, passado pouquíssimo tempo, logo uma semana depois, a menina argentina ganharia nova vida no jornal ‘El Mundo’, dos diários mais populares editados em Buenos Aires. A publicação seguiria nesse jornal até Dezembro de 1967. Foi nesse mesmo órgão de comunicação que ‘Mafalda’ se consolidou tal como a conhecemos.

Além do pai, da mãe e do seu amigo ‘Felipe’, eram necessárias mais personagens. Nasceu assim ‘Manolito’, ‘Manuel Goreiro’, a 29 de Março de 1965, inspirado no pai do seu amigo Julián Delgado que tinha uma padaria em Buenos Aires. Mais tarde surgiria ‘Susanita’, ‘Susana Beatriz Chirusi’, a 6 de Junho do mesmo ano. O seu irmãozinho, ‘Guille’, apareceria, já, no terceiro jornal que receberia a BD, uma vez que, quando a publicação acabou no ‘El Mundo’, a mãe de ‘Mafalda’ já estava grávida. Esse terceiro jornal a receber a criança contestatária seria o ‘Siete Días Ilustrados’, até Julho de 1973, quando as tiras (mais de 3 mil) acabaram definitivamente por opção de Quino, para a sua querida ‘filha’ não cair na repetição e transformar-se em algo esgotado.

É neste período que a verdadeira consagração de Mafalda se dá, uma vez que a publicação das tiras é aberta a vários outros pequenos jornais argentinos. Desta forma, dá-se a sua verdadeira difusão e, partir daí, o mundo passou a contar com uma menina assertiva que não queria apenas tocar nas feridas do que se encontrava mal; queria, também, fazer parte de uma solução verdadeira para um mundo melhor.  É verdade, e já lá vamos, que há muito de ‘Charlie Brown’ em ‘Mafalda’. Não podemos esquecer que os ‘Peanuts’, de Schulz, são de 1950, enquanto que ‘Mafalda’ chegou, oficialmente, 14 anos depois. Há uma complexidade existencial e um pessimismo partilhado, mas ‘Mafalda’ faz parte da boa contestação e não tem medo de ser colocada na linha da frente. Ou seja, o facto de ela sonhar em ir para a ONU, é sinónimo que quer ajudar a pensar nos grandes problemas de ordem mundial e ser uma parte activa na busca das melhores soluções. Além do mais, os ‘Peanuts’ poderiam ser filosóficos, mas não continham referências acerca da actualidade mundial e política.

Mafalda, quem és tu?

No mundo da banda desenhada há um antes e depois de Charles Monroe Schulz e os seus ‘Peanuts’, sem dúvida, e o ano de 1950 estabelece essa marca no tempo. Tal como o próprio Quino afirmou em entrevista, antes de ‘Charlie Brown’, as personagens infantis nas BD’s eram regidas, apenas, por uma característica marcante e só. Com os ‘Peanuts’, isso foi totalmente invertido. Havia bondade, havia maldade, havia confusão emocional e sentimental, verdadeira frustração, amores e desamores, ou seja, sentimentos bastante complexos e reflexões que não esperávamos ver no mundo infantil retratado nas revistas da especialidade. Aliás, uma das inovações foi precisamente essa – em ‘Peanuts’, sabíamos que os adultos existiam apenas por referência indirecta, mas nunca eram demonstrados, nem tinham parte activa nas histórias.

‘Charlie Brown’ era, então, um miúdo cheio de crises existenciais, com complexos, e inseguro – aquele miúdo em quem os amigos até podem encontrar segurança mas nem sempre almejam ser – contudo, capaz das mais acertadas e profundas reflexões filosóficas. O objectivo de Quino seria, então, fazer uma mistura do mundo ‘Peanuts’ com a banda desenhada ‘Blondie’, dos anos 30, que captava a dinâmica familiar de classe média americana de então. Ou seja, o pretendido seria ter como base uma BD com crianças com a mesma assertividade, complexidade e partilha de pessimismo como os ‘Peanuts’ – embora a BD ‘Mafalda’ reflectisse nos assuntos de ordem mundial  – com o retrato de uma classe média argentina, tal como ‘Blondie’ já o fazia com a sociedade americana. Claro que, e vale a pena referir este pormenor, como ‘Mafalda’ teve toda a sua génese em diários ou semanários de informação, tinha, como seria óbvio, de estabelecer uma ponte, como consequência, com o que acontecia na ordem política e social.

O desenho de Nancy foi a inspiração para a fisionomia de Mafalda/ Ernie Bushmiller

Um dos aspectos importantes quanto às influências de ‘Mafalda’ prende-se, sem dúvida, com o desenho desta personagem em específico. Pode-se reconhecer o traço de Schulz na BD em geral, pelos corpos pequenos e cabeças grandes em proporção, mas não podemos negar que, a nível do traço, o desenho específico de ‘Mafalda’ está cheio de referência a ‘Nancy’, uma personagem de BD de 1938. Ambas têm o corpo pequeno, a cara rechonchuda e apresentam o mesmo cabelo negro disposto de maneira bastante parecida, com a mesma curvatura que cobre as faces e vai desde os olhos até à boca ou até à linha do nariz – neste aspecto, a diferença é que ‘Nancy’ tem o cabelo mais curto do que ‘Mafalda’. Outra particularidade é que ‘Nancy’ também usava um laço a separar a franja do resto do cabelo – geralmente vermelho – e sim, embora não fosse a única cor, a verdade que esta personagem precursora de ‘Mafalda’ também utilizava bastante o vermelho. A questão da cor merece ser referida porque é algo que salta bastante à vista na comparação das BD’s, mas com uma ressalva bastante importante. Quino não adicionava cor. Mesmo quando as tiras começaram a sair em livro, vinham sem cor. Essa foi uma particularidade que começou a ser adicionada muito, muito mais tarde.

A data de nascimento oficial de ‘Mafalda’ é 29 de Setembro de 1964 – é o marco da sua primeira publicação, a altura em que se deu a conhecer ao mundo. Se pensarmos, no entanto, que a petiza já tinha 6 anos quando apareceu pela primeira vez, então é só fazer as contas e ver que o ano do seu verdadeiro nascimento remonta a 1958 e faria no próximo mês de Setembro 62 anos reais. Se ‘Mafalda’, embora com crianças como protagonistas, era, acima de tudo, para ser lida por adultos, isso devia-se ao facto da personalidade dos intervenientes ter funcionado como  um reflexo do que essas crianças seriam como adultas, aproveitando, assim, a oportunidade para se lançar um olhar crítico à sociedade argentina, em particular, e à sociedade em geral que grassava na altura.

A menina vivia com a sua mãe e o seu pai e, já no final, com o seu irmão bebé ‘Guille’. A sua mãe era doméstica, como grande parte das mulheres de então casadas e com filhos, e o seu pai representava o empregado de escritório cansado, esgotado, sem voz perante o patrão, com muitas inseguranças e que tinha de fazer alguns números de acrobacia  para o dinheiro esticar até ao fim do mês. A consequência de ser pai de ‘Mafalda’ reflectia-se nas grandes doses de ‘nervocalm’ que tinha de tomar para aguentar as suas conjecturas e perguntas difíceis.Enquanto o pai tinha como hobby terapêutico, em casa, cuidar das suas plantas, a sua mãe cuidava do lar e entretinha-se a ser a autora do maior pesadelo de ‘Mafalda’ – a sopa, essa enorme gafe que todas as mães cometem. O seu desprezo por sopa era tão grande que a fazia ser contra a liberdade de imprensa num e só pequeno requisito – publicação de receitas de sopa.

Embora a mãe de ‘Mafalda’ fosse doméstica, existia nela uma particularidade que nem sempre é lembrada por ser fácil enquadrá-la nesse arquétipo de dona-de-casa. Há imensos quadrinhos em que ‘Mafalda’ espicaça, explicitamente, a mãe por não se interessar, a priori, por mais nada a não ser as lides domésticas e atira-lhe à cara a sua suposta ‘ignorância’. Outros há em que demonstra uma imensa curiosidade e uma necessidade tremenda em conhecer a mãe além desse contexto – quer conhecê-la como mulher e pessoa. “Mamã, o que quererias ser se vivesses?”, atira-lhe constantemente. Farta das provocações, a mãe de Mafalda explica que estudou e, sim, estudou a “sério” e era boa aluna. E há, também, outras tiras em que a mãe não só é capaz de lhe responder à altura, ter afirmações bastante pertinentes e reflexivas como, também, demonstra ser das únicas capazes de desconstruir a sua filha. É então que percebemos que o que Quino queria com a mãe de ‘Mafalda’ era a denúncia da ideia feita de que o casamento, para uma mulher, teria de significar o abandono da faculdade ou de uma carreira – na época as duas vias não eram vistas como compatíveis. A mãe da pequena fez a sua escolha e dedicou-se a uma família. A sua filha, por sua vez, representa aquele ser ‘irritante’ que lhe relembra e faz vir à tona essa outra via que seria possível para ela, mas que já está esquecida e enterrada.

Por um lado, vemos que a mãe e filha não poderiam ser seres mais diferentes, por ‘Mafalda’ ser a representação da intelectualidade, por outro, temos a sensação de que a criança é, também, a representação de uma parte do espírito da mãe deixado à solta e sem a convenção social a comprimi-lo. ‘Guille’, por sua vez, representa a esperteza, uma malícia pueril e anarca, mas esperta e sagaz. Demonstra inúmeras vezes que é atento à realidade que o rodeia – gosta de perceber, por exemplo,  de que forma o preço das chupetas anda a ser inflacionado. Se o víssemos crescido, seria compatível à irmã em inteligência, sem dúvida, e há fãs que não deixam de referir que seria, ainda, muito pior.  Além da sua querida e amada Brigitte Bardot, ama a sua ‘chucha on the rocks’ e riscar as paredes de casa – é a sua ‘paisagem pop’.

Este é o núcleo, a representação da família de ‘Mafalda’. Já a pequena, desde as primeiras tiras inéditas até às mais conhecidas, foi sofrendo ligeiras alterações comportamentais. ‘Mafalda’ podia ser caracterizada como difícil, mas não era por ser mal criada ou a típica criança que está sempre em confusões. Não havia rebeldia apenas pela rebeldia. Havia só uma menina sagaz que desarmava os adultos  com as suas considerações e perguntas tão espontâneas, tal como se bebe um copo de água para matar a sede. No início, no entanto, logo nas primeiras tiras, podemos ver uma Mafalda rebelde que retirava algum prazer em criar confusão e fazer algumas tropelias. Depois, ‘Mafalda’ foi-se transformando em alguém mais consciencioso das suas atitudes e com sensibilidade – um ser que não retirava prazer em magoar só para ser engraçada.

O resto dos seus amigos eram, então, ‘Felipe’, o mais bondoso, imaginativo e distraído, mas também o que acalentava mais medos e receios. Não gostava das aulas porque se perdia na sua imaginação, fomentada e alimentada pelas inúmeras histórias de heróis que lia. Por isso, concentrar-se nos trabalhos de casa era sempre muito difícil para si. Preferia fazer de conta que era o seu herói, o ‘Lone Ranger’, o famoso cowboy criado nos anos 30. ‘Felipe’ representaria, enquanto adulto, a típica pessoa com dificuldades em aceitar o lado concreto da vida, sempre pronto para estilhaçar os nossos sonhos, imaginação e fantasias.

Já ‘Manolito’ era o seu total oposto, era a representação do neoliberalismo puro, da ideia do ‘self-made man’ americano que não é nova. O curioso da sua personalidade é que não era nada inteligente na escola, nem precisava ser, já que a única coisa que precisaria de saber seria fazer contas, para poder expandir o negócio do seu pai, a mercearia na qual também tinha de trabalhar além da escola, e abrir várias sucursais do armazém ‘Don Manolo’. Ao não ser nada brilhante na escola, além das contas, há aqui uma crítica ao neoliberalismo e ao seu pendor pelo técnico, palpável e concreto.

O neoliberalismo, por este prisma dado pela BD, não tem de pensar nem de fazer grandes conjecturas morais ou éticas sobre os acontecimentos, só defende o lado moral que está ao lado do bom negócio. Por isso é que é fácil utilizar-se a bandeira de que o neoliberalismo não é conservador per si, mas não se pode dizer que seja progressista também, porque a verdade, mesmo que se diga inovador, é o que mais teme uma aparência verdadeiramente dissidente da norma, por abalar o constante, o seguro e o confiável, por nem sempre se ir ao encontro da confiança daquilo que o consumidor supostamente gosta.  Por isso é que, enquanto ‘Mafalda’ amava os Beatles, ‘Manolito’ odiava-os. Quando a banda apareceu causou uma verdadeira revolução social e os seus penteados, com o cabelo mais comprido do que seria habitual para um homem, causaram uma divisão social – homens não deveriam usar o cabelo assim. Outro aspecto a salientar é a dinâmica pai e filho existente entre ‘Manolito’ e ‘Don Manolo’. ‘Don Manolo’ fazia o seu filho trabalhar enquanto deveria estudar mais e brincar, só assim se subiria na vida. Essa forma de pensar era bastante comum na educação de outrora, fazendo uma ponte com as fortes punições físicas e com a maneira bastante bruta e muscular com que o pai lidava com ‘Manolito’. Todo este tipo de pensamento, desde a concepção económica até à educacional, reflectiam, então, uma sociedade argentina desigual e ainda subdesenvolvida.

‘Susanita’, por sua vez, era a representação do lado hipócrita da sociedade. Tinha ódio aos pobres e não gostava de ser confrontada com as injustiças sociais. O seu grande objectivo era ser mãe e casar com um homem rico que lhe pudesse proporcionar conforto e luxos. ‘Susanita’ significava a fachada de uma determinada classe média e o seu desejo de aristocracia, pomposidade e reconhecimento em detrimento dos demais. Uma classe média que não se considerava igual, mas superior às restantes. Por último, ‘Miguelito’ é o que  consegue ter, igualmente, grandes reflexões sobre o tempo e outros aspectos de cariz existencial, e leva-os bastante a sério. Não raras vezes gosta, apenas, de estar sentado à espera de algo da vida, mas a sua infância também é limitada pela sua mãe que vive obcecada com a perfeição e a limpeza extrema da casa, local onde não pode brincar sob pena de sujar tudo.

A última personagem a aparecer foi a ‘Liberdade’. O facto de ser pequena é uma clara analogia às liberdades circunscritas dos vários povos. A liberdade nunca é grande nem nunca nos parece suficiente, muito menos quando se dá o processo oposto de estarmos presos à nossa própria liberdade. Embora os seus pais vivam de forma bastante precária, a sua mãe é bastante culta, recém licenciada e dá o sustento para a alimentação da família através das suas traduções, através das quais se faz a menção aos principais pensadores de então, como Jean Paul Sartre. O seu pai era socialista e representava a linha pura e dura desta vertente política e ideológica. Muito do pensamento de ‘Liberdade’ se deve, também, ao que ouvia do seu próprio pai, a quem faz imensas referências. Quino, e não é segredo para ninguém, foi anti-peronista convicto, anti-fascista e longe da direita. Aliás, numa entrevista ao jornal ‘Folha de S. Paulo’, de 1998, chegou a afirmar que todos os políticos caíram na armadilha neoliberal e se resguardaram na direita, como também relembra a importância que o discurso económico ganhou no discurso político – não se discutem práticas políticas, mas sim económicas. Os próprios ideais políticos de Quino já vinham da sua família, também ela politizada, de origem espanhola, de Andaluzia, mas republicana e de esquerda. Isso não o impediu, no entanto, de lançar o dedo ao seu próprio lado. O pai de ‘liberdade’ serviu para lançar críticas, acima de tudo, à censura e falta de liberdade de expressão política de então. Acreditava na igualdade social e que um dia tal poderia ser real, mas não deixou de expressar algumas das suas próprias dúvidas ou, então, algumas incongruências. Tal como se pode ver nesta tira:

Aliás, em plenos anos 60, num contexto de guerra fria e guerra do Vietname, Quino fez com que a própria ‘Mafalda’ não fosse especialmente simpática com a China de Mao Tsé-Tung, sempre trazida à liça, e dissesse a célebre frase, “a sopa é para a infância o que o comunismo é para a democracia.” Há também uma tira em que ‘Susanita’ chama Fidel de anti-democrático, com todas as letras, e outras mais em que o nome de Fidel aparece não de forma muito lisonjeira ou, pelo menos, de forma ambígua. Independentemente de Quino ter trabalhado em Cuba numa altura particular da sua vida, o revolucionário não era, particularmente, fã da pequena de cabelos negros. Por saber disso, por já lhe terem pedido explicações e pelo facto do próprio Fidel fingir não se recordar do desenhista sempre que o via em eventos durante a sua estada em Cuba (a grande memória de Fidel era uma das suas características marcantes), Quino chegou a perguntar directamente se as suas tiras seriam proibidas. Fidel respondeu que o argentino poderia fazer o que quisesse, mas se as tiras passassem a conter um carácter anti-revolucionário, Quino seria preso.

‘Mafalda’ tinha consciência social mas não era, propriamente, um fantoche ou propriedade política. Nem Quino deixaria ou gostaria que tal acontecesse. Em entrevista chegou mesmo a afirmar que embora o seu socialismo seja conhecido, e que será socialista até ao seu último dia, não está conotado a nenhum partido para poder ter o gosto de apontar o dedo assim que seja preciso. Mas se a pequena era contestatária, a ‘Liberdade’ funcionava, quase, como que um alter-ego seu. A ‘Liberdade’ conseguia ser mais ‘Mafalda’ do que a própria ‘Mafalda’. A sua consciência política era muito mais aguçada e levada ao limite. A sua capacidade de resposta muito mais sagaz, ao ponto de deixar ‘Mafalda’ sem resposta, e muito mais pertinente. Era também o pesadelo das próprias professoras e estava sempre na defensiva porque estava acostumada a que as pessoas olhassem, primeiro, para o seu tamanho antes de conhecerem a sua personalidade – mas, se fizermos uma analogia, é tal e qual como a liberdade que conhecemos e nos foi dada a conhecer hoje em dia.

Quem é a geração de Mafalda e como viveria hoje?

Não há volta a dar, o século XX pôs em confronto um novo e um velho mundo. O seu início, com a primeira guerra mundial, traria o fim dos velhos impérios, de várias famílias monárquicas europeias e marcaria o nascimento de novos países. A segunda guerra mundial, que começaria também por questões mal resolvidas desde a Grande Guerra, traria a ascensão e a queda das grandes ditaduras e o nascimento de outras posteriores,  já num contexto de guerra fria, como a Coreia do Norte, a China de Mao e, especialmente, na América Latina, com Pinochet, nos anos 70, por exemplo. Já para não se falar do que se vivia a leste. O mundo encarou de frente a sua monstruosidade, tentou compreendê-la e criou mecanismos e organizações para não voltarmos ao mesmo – a ONU, nascida em 1945, foi disso um exemplo. Este período da história foi bastante importante para a arquitectura contemporânea do nosso mundo, tal como o conhecemos hoje.

Após a Bomba Atómica, e não foi por acaso que tal pesou na consciência de Einstein, o ser-humano fez uma descoberta que abalaria, para sempre, a humanidade – pela primeira vez descobrimos que quer fosse pela via da guerra, da ciência amoral ou do progresso tecnológico sem ética, o homem poderia criar o botão para a sua própria auto-destruição e total aniquilação. Isso chocou a sociedade e estávamos prontos para dar o início a uma revolução de valores. Não que a maldade se tenha extinguido desde então, mas a dúvida que paira nas nossas cabeças como ameaça já desde essa altura, ‘o que aconteceria se partíssemos para uma 3ª guerra mundial’, é o que nos tem posto a salvo, apesar das ameaças que também vivemos actualmente. O poder pode ser bom, mas quando é desmedido, volta-se contra nós mesmos.

A geração de ‘Mafalda’, a que passou a sua infância nos anos 60, é justamente a última geração dessa transição de um mundo a tentar reajustar-se. A transição de um velho para um novo mundo dos idos anos 90, já capaz de reconhecer os valores que pensávamos serem um dado adquirido para nós, os seus filhos, ao mesmo tempo que assistia ao nascimento da sociedade de consumo, da informação, da globalização e a sua plena abertura às massas. Os pais dessa geração ainda viveram durante a 2ª guerra mundial ou foram parte activa da guerra. Viram os seus irmãos mais velhos preconizarem o Maio de 68, fazer a revolução sexual, aderirem ao ‘Flower Power’, insurgirem-se contra a guerra do Vietname e lutarem contra a segregação racial. Ao contrário do que se possa imaginar, também fizeram tomadas de posição contra as gerações anteriores, criaram o punk, proporcionaram o Grunge – se considerarmos ‘Mafalda’ como sendo de 64, então Cobain era só três anos mais novo – e fizeram com que os seus filhos pudessem ter uma infância longe dos fortes castigos físicos que essa geração ainda sofreu, embora ainda seja adepta da dita ‘bofetada’. Quanto à educação, ainda são do tempo das palmatórias (instrumento de madeira para bater nas palmas das mãos) ou do escárnio do professor perante o aluno – “Hey,  teachers, leave them kids alone” – mas romperam essas práticas e nós, os seus filhos, felizmente já não sabemos o que uma palmatória é e já pudemos estudar além da quarta classe ou 9º ano e sonhar em aderir muito mais ao ensino superior.

Tudo isto está presente em ‘Mafalda’, em pleno clima de guerra fria, que dividiria o mundo em dois blocos, o ocidental e americano pró-capitalismo, e o bloco comunista da então URSS. A América Latina, por estar, também, em plena transformação social, funcionaria como um dos palcos de medição de forças entre as duas potências de então, e foi isso mesmo que levou ao surgimento de figuras marcantes de ambos os lados, só para citar algumas: Fidel em Cuba, Perón na Argentina com dois mandatos (um pré e outro pós ‘Mafalda’), Getúlio Vargas no Brasil e Pinochet no Chile após Salvador Allende.

Esta era a realidade de ‘Mafalda’ e a grande pequena bem a soube demonstrar. Em pleno início da era da informação, em que as televisões começaram a chegar em massa às nossas casas em detrimento das telefonias (a BD não deixou de retratar isso), a criança vivia aterrorizada com a ameaça nuclear, fascinada com a corrida ao espaço, alarmada com as ditaduras tanto de direita como de esquerda e, também, com as acções de então da China de Mao. A sociedade de consumo e o liberalismo, assim como o capitalismo, não deixaram de ser alvo das suas considerações. A Argentina também estava num processo de americanização, tanto nos costumes como na linguagem, e nem esse pormenor passou despercebido. O seu fascínio e desilusão pelas organizações responsáveis por manter a paz era recorrente e visível nos quadrinhos, uma vez que a menção a U Thant, Secretário Geral das Nações Unidas de então, era constante.

A geração de ‘Mafalda’, também ela uma geração que viveria em pleno os grandes excessos de uma sociedade de consumo após uma infância dificultada numa escala global – basta recordar estava ainda na casa dos ‘vinte’ quando, nos anos 80, a guerra comercial entre a ‘Pepsi’ e a ‘Coca-cola’ quase gerou uma guerra civil nos Estados-Unidos’ – foi aquela que acreditou piamente numa globalização sem ser cuidada e desenfreada, mas que não imaginava que velhos fantasmas pudessem voltar. Lutaram contra e sentiram na pele um conservadorismo do qual queriam evoluir, mas não conseguiram dar a estocada final necessária – esses, supostamente, seríamos nós. A querida filha de Quino representava isso, a vanguarda e essa vontade de evolução que essa geração no fundo queria. ‘Susanita’ e ‘Manolito’ as amarras que sempre impediriam uma maior abertura.

Se ‘Mafalda’ fosse mesmo real, cresceria e assistiria a muita evolução aparente – como a entrada em massa das mulheres no mercado de trabalho (embora as diferenças salariais entre os géneros ainda seja uma realidade) e à abertura do ensino superior. Mas certamente ficaria (ou talvez não) atónita com as mesmas ameaças nucleares e de destruição, e com as mesmas velhas acusações, “não passas de um facho, és um esquerdalho, abaixo o socialismo.” Olharia, também, com extrema apreensão, para a pouca capacidade política dos seus pares e ficaria aflita com a perda de importância das democracias e a consequente ascensão de países de pendor autoritário.  Com muito ‘nervocalm’ continuaria, mas não se livraria de assistir, outra vez, à discussão das questões raciais, como actualmente, e não ficaria orgulhosa pelas actuações políticas recentes terem trazido de novo os fantasmas do autoritarismo, conservadorismo e polarização ideológica, sem no entanto sermos capazes de ver onde as armadilhas estão.

Mas o que incomodaria ‘Mafalda’, de facto, seria ver uma nova geração incapaz de dar a volta e dar o avanço democrático que a sua própria geração não foi capaz de dar. Olharia os seus filhos e veria com perplexidade a nova moda de arranjarmos todo um novo vocabulário, como ‘mobilidade’, para perpetuarmos situações que significam, apenas, insegurança laboral,  e aceitarmos essa manipulação com a maior facilidade do mundo. Não compreenderia como, após o Maio de 68, nós mesmos deixámos que as nossas universidades abandonassem os cursos de humanidades como o fizeram, e jamais conceberia a nossa capacidade de repetir ideias que pensávamos estarem já mortas.

Seria muito fácil transpormos as personagens de ‘Mafalda’ para o mundo de hoje, caso ainda fossem jovens. ‘Felipe’, provavelmente, seria o típico jovem à nora, sonhador, com dificuldades em adaptar-se ao mundo laboral actual, e voltaria a sentir que a sociedade só serve para estilhaçar, por completo, as suas verdadeiras ambições e aspirações. ‘Manolito’ seria um neoliberal de proa seguidor Milton Friedman e teria gostado de Miguel Gonçalves. Teria regozijado com cada Web Summit, faria de tudo para ter a sua start up, e seria adepto da mão-de-obra estagiária à borla. Aos seus trabalhadores repetiria a já célebre frase, “se queres seres alguém, tens de pensar fora da caixa.” Já ‘Susanita’ seria uma seguidora de Bolsonaro e de André Ventura, sem dúvida, e estaria nas redes sociais a chamar ‘feminazi’ a todas as mulheres que lhe se opusessem. Jamais aderia ao movimento ‘me too’ e estaria numa demanda para encontrar o seu CEO perfeito que lhe pudesse comprar a casa ideal para mostrar nas redes sociais. Seria da opinião de que um curso superior de nada serve, até porque o seu empreendimento seria encontrar um marido, concordaria com o discurso em voga contra a intelectualidade e pensaria, provavelmente, que dar uma moeda a um mendigo seria o mesmo que dar uma moeda a quem tem rios de dinheiro em várias offshores, ou que quem é mendigo só está na rua porque quer.

Mafalda, por seu lado, veria que no desgaste de uma globalização que não funcionou bem (a ascensão e a queda do sonho dos seus pares) , há quem fale em novas e brilhantes tecnologias e coisas impensáveis, enquanto há os que, pura e simplesmente, não conseguem apanhar esse comboio. Perceberia que andamos muito polarizados e hiper informados, mas sem conseguirmos ter conhecimento e capacidade de argumentação, sendo fácil, por isso, ceder ao insulto gratuito. A informação aumentaria, mas a falta de conhecimento continuaria a mesma, e não perceberia porquê. Chamaria a esta aldeia global inovação, talvez, mas para a expressão de ideias que cheiram a naftalina. Mas afinal, foi a democratização da escola real? Houve uma educação para a contemporaneidade e para a análise dos média? E como é que se pode falar em verdadeira informação e conhecimento da actualidade, quando o próprio jornalismo atravessa uma crise e o leitor só se fica pelos artigos mais curtos ou mesmo pelos títulos mais sensacionalistas que aparecem nas redes sociais? Sendo assim, estaremos realmente hiper-informados, ao ponto de se gerar uma atrofia e inerente entropia, ou caímos na mentira, manipulação e ilusão de que estamos, verdadeiramente, informados?

Mas não deixaria de ficar com medo das ameaças nucleares da Coreia do Norte, temeria a China e as suas actuais atitudes perante Hong Kong e o forte cerco à liberdade de imprensa, assim como a sua aposta nos ‘vários centros de dados’ que proliferam no país. Odiaria Trump, Bolsonaro, e veria a ligação que existe entre a ascensão destas duas personalidades, e a doutrina que tentaram vender aos jovens nas universidades após a crise de 2008.

Veria espantada a nossa única e verdadeira inovação, a nossa capacidade de manipulação que de facto evoluiu bastante com as redes sociais. As armadilhas são muitas e é muito fácil deixarmos que as nossas posições se voltem contra nós. Tomaria ela o ‘nervocalm’ em vez do seu pai, mas não deixaria de questionar grandes empresas como a Google e os seus paraísos fiscais,ou o próprio Facebook, e traria sempre consigo o ‘Admirável mundo novo’, do Huxley, e o ‘1984’, do Orwell, porque Mafalda seria esperta e perceberia que, independentemente das novas roupagens, nós somos é muito bons a arranjar novos nomes para velhas consequências: solidão, precariedade, muita doença, ganância e prepotência. O mundo continua doente, desta vez de forma literal, e por isso nunca vai deixar de precisar que Mafalda tome conta dele e lhe tire a temperatura. O segredo é sabermos que tudo é novo e tudo é velho, mas não necessariamente por essa ordem.

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