
O reverendo Jesse Jackson, uma das figuras mais influentes da luta pelos direitos civis e pioneiro da participação negra na política dos Estados Unidos, morreu nesta terça-feira aos 84 anos. Internado desde novembro para tratar uma condição neurodegenerativa rara, o pastor batista construiu uma trajetória que atravessou mais de seis décadas de ativismo, campanhas presidenciais e mediação internacional, consolidando-se como principal liderança negra do país desde a morte de Martin Luther King até a ascensão de Barack Obama.
Colaborador próximo de Luther King nos anos 1960, Jackson destacou-se como orador carismático e organizador de protestos pacíficos contra a segregação racial. Ele esteve ao lado do mentor em momentos decisivos, inclusive em Memphis, em 1968, quando King foi assassinado.
Ao longo da vida, tornou-se símbolo da luta por igualdade racial e ampliação de direitos para afrodescendentes, além de atuar como mediador em crises internacionais e defensor do fim do apartheid na África do Sul. A família ressaltou seu legado ao afirmar: “Nosso pai foi um líder servidor – não apenas para nossa família, mas para os oprimidos, os sem voz e os marginalizados ao redor do mundo”, destacando sua crença na “justiça, igualdade e amor”.
Nascido Jesse Louis Burns em 1941, na Carolina do Sul segregada, filho de uma mãe adolescente e de um ex-boxeador, adotou posteriormente o sobrenome do padrasto. Destacou-se na escola e conquistou bolsa universitária, formando-se em sociologia em uma instituição historicamente negra.
Sua origem humilde marcou o discurso político e religioso ao longo da carreira. “Eu não nasci com berço de ouro. Eu tinha uma pá programada para as minhas mãos”, disse certa vez, sintetizando a narrativa de superação que o aproximou das camadas populares.
Jackson ganhou projeção nacional ao fundar organizações voltadas à justiça social e à mobilização política negra, como a Operation PUSH e a Coalizão Arco-íris.

Nos anos 1980, tornou-se o primeiro negro a disputar com relevância as primárias presidenciais do Partido Democrata, abrindo espaço para futuras candidaturas e colocando temas raciais no centro do debate nacional. Em 1984, declarou na convenção democrata: “Meu eleitorado é formado pelos desesperados, pelos condenados, pelos deserdados, pelos desrespeitados e pelos desprezados”. Sua atuação pavimentou o caminho para a eleição de Obama décadas depois.
Mesmo após o auge político, Jackson manteve presença em momentos-chave da história recente, como a comemoração da vitória de Obama em 2008 e o apoio à família de George Floyd em 2021.
Também atuou como enviado especial em missões diplomáticas e negociações para libertação de prisioneiros. Apesar de controvérsias ao longo da carreira, permaneceu como referência moral e política para movimentos sociais.
Nos últimos anos, enfrentava problemas de saúde relacionados a doenças neurodegenerativas, incluindo Parkinson e paralisia supranuclear progressiva. Segundo a família, ele “faleceu em paz”. Sua trajetória deixa um legado duradouro na luta por direitos civis, justiça racial e inclusão política nos Estados Unidos.