Quem paga para um bolsonarista tomar a vacina? Por Moisés Mendes

Agente de saúde manuseia possível vacina para Covid-19

Originalmente publicado por BLOG DO MOISÉS MENDES

Por Moisés Mendes

Tem um assunto estranho sendo levado a sério nos Estados Unidos e não é improvável que chegue por aqui. É sobre as pessoas que não querem tomar a futura vacina contra a Covid-19.

É gente que tem medo de qualquer vacina (levando a sério crendices do século 19) ou teme apenas essa vacina ou porque simplesmente é negacionista e não quer saber de imunização.

A controvérsia do novo debate é esta: alguns epidemiologistas e pensadores ditos liberais americanos defendem que o governo pague para que essas pessoas se imunizem.

Era só o que faltava, mas eles falam sério. As pesquisas mostram que somente 44% dos americanos tomariam a vacina. O resto não quer tomar ou ainda está indeciso.

Outro dado assustador: 58% dos eleitores democratas afirmam que tomariam a vacina. Mas apenas 36% dos republicanos dizem a mesma coisa, ou seja, quase dois terços dos conservadores não querem saber de se imunizar.

Aqui, seria uma espécia de Bolsa Vacina dos bolsonaristas. Mas no Brasil a situação é melhor. O Datafolha mostrou em agosto que 89% dos brasileiros querem fazer a vacina.

E agora? Se houvesse dinheiro, o governo deveria tentar convencer os refratários com alguma compensação? Nos Estados Unidos, já chegaram a sugerir que o governo pague US 1 mil por pessoa.

Há nesse debate uma pretensa discussão filosófica fajuta, vencida há muito tempo, sobre liberdades.

Misturam o negacionismo de quem ameaça a saúde pública até com quem fuma cigarro ou maconha ou cheira cocaína porque acha que esse é o seu direito. Não são a mesma coisa.

É uma argumentação metida a bacana, que cita defensores incondicionais dos direitos individuais e busca argumentos para defender que é preciso entender o cara que se nega a se vacinar, por qualquer motivo.

O problema é que esse sujeito não é um só, são muitas as categorias de quem rejeita vacinas. Mas aí vem a pergunta incômoda para os radicais do liberalismo que defendem as liberdades sem restrições.

Essa é a pergunta: quer dizer que uma convicção pode ser comprada por US$ 1 mil? O cara que tem medo de vacinas não teria mais? Seria o mesmo caso de quem faz discursos contra as vacinas por achar que afrontam suas vontades?

E aquele que politiza a imunização, inspirado nos discursos de Trump e Bolsonaro, também seria tentado a se vender por um dinheirinho?

E agora vem a grande questão: nós todos pagaríamos para que o dinheiro público financiasse a compra das certezas dos negacionistas?

Se pudesse decidir, eu não pagaria. Entendo quem, por qualquer fobia ou algum trauma pessoal, teme as vacinas. Mas não dá pra entender quem faz discursos primitivos, e muitas vezes alegadamente religiosos, contra a vacinação.

O resumo dessa falsa controvérsia é o seguinte. Chega dessa conversa fiada de direitos individuais e de vida privada, quando o que está em questão é a defesa objetiva da saúde pública.

Quem quiser discursar em nome de liberdades pessoais, que estariam acima dos direitos e dos interesses coletivos até numa pandemia – direitos concretos, e não abstratos –, deve viver isolado.
Mesmo os que alegam que a ‘religião’ não permite que eles tomem vacinas.

A solução aqui é o contrário. Em vez de pagar para que o negacionista seja vacinado, o governo tem o dever de impor normas que valem para todos. O negacionista é que deveria pagar pela infração de não querer se vacinar.

Não se trata de uma exigência moral. É apenas o cumprimento de regras de convívio social, que se impõem ainda mais em tempos de exceção e de pestes. É o Estado cumprindo função.

O negacionista que topa (ou finge) tomar cloroquina não pode ser tratado como uma criança, mas como um adulto egoísta que precisa ser enquadrado.

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