Quem são os reais patrocinadores do churrasco de Bolsonaro com a morte. Por Moisés Mendes

Jair Bolsonaro. Foto: EVARISTO SA/AFP

Bolsonaro fez questão de se apresentar como um homem sensato, ao avisar ontem que nesse sábado iria fazer um churrasco para os amigos, incluindo alguns ministros.

Em nome da sensatez, Bolsonaro determinou que ninguém irá tomar nada com álcool no Alvorada, porque a primeira-dama poderia colocar todo mundo a correr. É a regra. O álcool altera o comportamento das pessoas.

Bolsonaro também é um governante austero, que não mistura suas festinhas particulares com as festividades oficiais. Por isso, avisou também que fez uma vaquinha de R$ 70 por cabeça. Cada um paga a sua parte.

Serão uns 30 convidados. Antes que alguém coloque fogo na churrasqueira e conte a primeira piada, o Brasil já terá 10 mil mortes por coronavírus.

Será um churrasco histórico. Mas ninguém irá beber álcool e ninguém irá gastar dinheiro do governo na festa dos 10 mil no Alvorada.

Não há hoje no mundo, por mais que seja procurado, outro governante fazendo festa com filhos, amigos, ministros e auxiliares em meio à pandemia. Esse é um desvario exclusivo do Brasil.

Mas essa não é uma festinha apenas de Bolsonaro, não é uma loucura só dele. O país que lhe garante 30% de apoio deveria estar representado no churrasco com saladinha e, depois, uma peladinha, porque esse é o Brasil do futebol.

O homem que faz churrasco no dia em que o país atinge uma marca decisiva para a compreensão da tragédia que ele ignora deveria ter ao seu lado um representante dos brasileiros bem ricos.

Os ricos estão na base oportunista e eleitoral do bolsonarismo. Sem eles, Bolsonaro não teria sido eleito. O rico, mesmo pagando os R$ 70, levaria a picanha.

A classe média do bolsonarismo de raiz também deveria estar lá, essa classe média bem mediana e bem reaça.

A classe média tradicional, a tucana decadente, que sempre se achou mais próxima dos ricos e que desejava um Aécio ou um Alckmin, mas votou em Bolsonaro para evitar a vitória de Haddad – e que gosta muito de costela gorda –, essa não poderia faltar.

É aquela classe média temerosa porque negros e pobres também teriam filhos médicos, advogados, engenheiros. Era o pessoal incomodado com pobres em shoppings, aeroportos, restaurantes. Paga R$ 70 e entra.

Tem a novíssima classe média, muitas vezes mais reacionária do que a velha, de gente que ascendeu socialmente durante o lulismo e pulou da classe C para a B.

São os ‘novos ricos’, a maioria empreendedores convencidos de que se fizeram sozinhos, os comedores entrecot com pão com alho de bolinha.

Tem o empreendedor pobre, neopentecostal, que ganhou tudo de Deus, com a ajuda dos pastores, e não quer saber de emprego e de patrão.

E tem ainda o pobre que se acha parte dessas turmas, por autoengano, por ignorância ou por tentativa de imitação e desprezo pelos iguais. Esse serve o salsichão.

Todos eles misturam advogados, engenheiros, médicos, latifundiários, grileiros, desmatadores, assassinos de índios, militares da ativa e reformados, policiais, ex-policiais, milicianos, gente que gosta de arma e que combate a corrupção. Seria um churrasco de gente de bem.

E tem ainda, não pensem que iriam faltar, os jovens bolsonaristas, que são minoria mas muito decididos. São os comedores de coraçãozinho.

Chegou, não tem mais ninguém? Ainda não. Precisa estar representado no churrasco o sujeito que não é bolsonarista mas é alienado, resignado e acovardado, o isentão.

O brasileiro que deveria ter ido às ruas, logo depois da posse do homem e das primeiras barbaridades cometidas, esse também deve sentar-se à mesa com Bolsonaro e pagar os R$ 70, com direito a sobremesa de ambrosia.

Todos estariam ao redor de Bolsonaro para rir, gargalhar com as piadas de Bolsonaro e dos filhos dele, mas sem falar de coisas ruins, da falta de UTIs, respiradores, remédios, enfermeiros, muito menos das pessoas morrendo por asfixia.

Esse churrasco macabro tem mais patrocinadores do que se pensa, tem torturadores, pessoas cruéis, amigos de milicianos, racistas, homófobos, mas tem também religiosos que rezam todos os dias antes de dormir.

Esse churrasco sem álcool tem cheiro e presença da morte e é promovido por todos os que inventaram e sustentam Bolsonaro sob os mais variados pretextos.

Todos carregarão o cheiro e o gosto desse churrasco para o resto das suas vidas que já estão mortas.

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