Quem tem medo do impeachment? Por Roberto Amaral

Originalmente publicado em VERMELHO

Por Roberto Amaral

S​​​etores próximos à esquerda brasileira levantam dúvidas quanto ao acerto tático das mobilizações populares e partidárias que visam ao impeachment do ainda presidente. Há os que veem no movimento o dedo sujo da direita brasileira e, associadamente ou não, de generais cansados de administrar os assanhamentos da marioneta rebelde. Muitos temem que a desejada decapitação de Bolsonaro e sua consequente inabilitação eleitoral para 2022 converta-se numa pá de cal nas esperanças, de todos nós, de voltar a viver em um país republicano, com a possível eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Segundo essa linha de raciocínio, se a direita (com seus múltiplos aparelhos, como o controle dos meios de comunicação de massa) está contra Bolsonaro, ou seja, a favor do impeachment, é porque o impeachment é do seu interesse, da casa-grande, e é do seu interesse justamente porque visa a impedir a eleição de Lula. Portanto, o impeachment deve ser evitado, e de seu pleito deve afastar-se a esquerda. É o que se diz. Assim, temos a premissa e sua conclusão.

O raciocínio maniqueísta nos recomenda, ao fim e ao cabo, retornarmos à ordem da inação da qual recém saímos. Não considera o óbvio, a saber, que, abandonando o “Fora, Bolsonaro”, estaremos entregando o campo de luta ao protagonismo da direita. Não parece boa aposta. Dando as costas ao movimento social, corremos sério risco de um atropelamento histórico.

Dentre seus muitos aspectos fascinantes a História tem este: ninguém comanda seus movimentos.

Examinemos essas dúvidas. A primeira delas diz respeito à inesperada presença da direita em nossa lide, a segunda dá conta de hipotéticos prejuízos advindos à candidatura Lula pela eventual consumação do impeachment.

O fato de a direita estar, nesta altura do jogo, apoiando o impeachment, não nos pode afastar da contenda, consabidamente uma iniciativa do movimento social – levada às ruas, aliás, muito antes da definição das principais organizações partidárias. A direita terá vindo por iniciativa própria e movida por interesses que não são os nossos, e atuando com seus instrumentos e em sua arena. Isso não implica aliança nem comprometimento de meios ou fins. Nada temos a ver com o movimento de nossos adversários. Os que já dominam as diferenças entre tática e estratégia sabem, como ensinava antigo conselheiro chinês, que não se deve discutir a cor dos olhos dos gatos, mas saber se eles comem os ratos. Se a ausência da direita (e mesmo seu apoio ao capitão que ajudou a eleger) não nos impediu de ganhar as ruas no movimento pelo impeachment, não será sua eventual adesão, oportunista, quando as massas se mobilizam, que nos deve afastar de nosso bom caminho. Socialistas, centristas, tucanos e liberais arrependidos, militares e muita gente da Faria Lima terão razões distintas para, ocasionalmente, engrossarem as águas do mesmo moinho.

Assinale-se, ainda, que a efetivação do impeachment em nada ameaça a eleição de Lula. Ao contrário, ainda mais a possibilitará, pois, desmontando o esquema autoritário golpista matará politicamente a cabeça simbólica da hidra, a saber, o capitão Bolsonaro – o único, hoje, dentre os civis e fardados da extrema-direita (como, por exemplo, o insosso Mourão) que conserva apoio popular, ainda que em fase descendente, quando dele se afastam não só os ricos e os ressentidos com o lulismo, mas também crescentes segmentos da classe média e mesmo boa parte de setores evangélicos, seu antigo “eleitorado raiz”.

Apeada do mando, onde hoje se refastela como suínos na pocilga, a grei bolsonarista ver-se-á à margem da “caneta”, à qual tanto se reporta o sátrapa fardado, desprovida dos recursos das verbas públicas, sem o aparelho policial-militar, sem poder manobrar os “orçamentos secretos”, e, finalmente, sem o usufruto dos dividendos da corrupção. O general vice, sem base popular e inepto politicamente, pouco tempo terá para montar sua própria súcia e inevitavelmente terá seu espaço de ação delimitado pelo processo eleitoral, que logo entrará em curso. E ainda não é tudo; mesmo inviabilizada a hipótese do impeachment, teria ganho a mobilização popular, o que em si já seria um significativo ganho político.

Mas condicionar as tarefas do movimento social ao sucesso da candidatura de centro-esquerda encerra um pragmatismo canhestro, porque simplesmente esquece que, para termos eleição, é preciso garantir, primeiro, a continuidade do processo democrático, ostensivamente ameaçada pelo capitão e seus engalanados do terceiro andar do palácio do planalto, delegados de um estamento que chegou ao poder e suas ricas adjacências galopando na garupa de sua cela, que com ele conquistou espaços e usufrui de benesses, corporativas e pessoais.

Para a esquerda socialista, a preservação institucional torna-se, nestes termos, condição necessária. A primeira a ser assegurada.

É preciso compreender, porém, que a candidatura de Lula – e esse raciocínio se aplica a qualquer outra de nosso campo – não deve ser vista como um fenômeno político autógeno, como aliás, nenhum é, e igualmente não pode ser tratada como um fim em si. A eleição do ex-presidente – e, mesmo, a simples viabilização de sua candidatura, que ainda não deve ser dada como favas contadas – é uma etapa da luta popular, e só se efetivará na medida em que for vitorioso o movimento social que, hoje lutando pelo impeachment, visa a deter o processo autoritário em marcha batida para uma forma qualquer de ditadura, que os militares e os juristas da casa-grande saberão engendrar.

Em outros termos, a candidatura da centro-esquerda deve estar subordinada aos interesses do país: para além de reduzir o risco autoritário, a tarefa que nos deve chamar a todos, prioritariamente, é a defesa da vida e da sobrevivência do país diante do republicídio bolsonarista, do clientelismo e da corrupção quando mais os corruptos dizem combatê-la, diante do assalto às estruturas do Estado, diante da destruição das bases do desenvolvimento, da subalternização da soberania nacional, da destruição do ensino e da ciência, do etnocídio das populações nativas, da revogação de direitos dos trabalhadores, da destruição ambiental, enfim, diante de um projeto coerentemente desestruturizante do país e da nação.

O ponto nodal da questão é este: a direita quer defenestrar Bolsonaro para salvar o fundamental do projeto austericida, violentamente classista. Para nós, derrubar Bolsonaro é a tarefa imediata que se impõe, para derrotarmos esse projeto (portanto, algo para além de mandar o capitão para casa ou para a cadeia) e suplantá-lo, construindo uma democracia digna do nome, rumo ao socialismo. É, portanto, até infantil, repelir a adesão da direita ao “Fora, Bolsonaro”, tanto quanto é tolo iludir-se com ela.

É claro que sobreviveremos a mais um ano e meio de bolsonarismo, se for o caso, mas a um custo político e social inaceitável, e, a esta altura, sabidamente evitável. É preciso, pois, antes de mais nada, salvar o país, o que subtende o afastamento do genocida, o quanto antes possível.

Qualquer manual de estratégia aponta como lição primária a escolha de prioridades, para que o secundário não se apresente como fundamental, a forma subsuma o conteúdo, o meio tome o lugar do fim.

Os muitos que estão sinceramente preocupados com as ameaças à eleição de Lula juntem-se aos que presentemente investem na desestabilização do bolsonarismo. Se não for possível deter agora e já as ameaças que pairam sobre o país e nosso povo, é preciso fazer com que esse governo desatinado chegue em 2022 aos rés do chão ou totalmente desmoralizado. A mobilização popular permanente é o condicionante fundamental para um pleito sem traumas e sem golpes de espada ou de algibeira, o caminho aplainado para a eleição de um quadro de esquerda, e, finalmente, sua posse e seu governo, que não logramos com nossa vitória nas eleições de 2004, frustrada com o golpe de 2016.

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