Quem vai chorar hoje por essa Seleção? Por Moisés Mendes

Atualizado em 15 de junho de 2026 às 6:39
Manchete do Jornal da Tarde com registro de menino chorando na eliminação na Copa de 1982. Foto: Reginaldo Manente

Diga rápido, de memória, qual é a imagem forte, mas recente, que expresse sentimento de brasilidade pela Seleção. Pela força do time em campo ou pela simbologia da camiseta.

Não vale uma imagem antiga, como aquela do fotógrafo Reginaldo Manente, que flagra o menino chorando quando da eliminação na Copa de 82, publicada sem manchete na capa do Jornal da Tarde.

Não valem as imagens das também distantes conquistas de 1994 e 2022. Tente resgatar uma imagem dos últimos anos, mesmo que não sejam de eventos, que nos digam: aqui está o Brasil, nessa camiseta.

Uma imagem recente e forte é grotesca. É a do sujeito com a camisa amarela grudado no para-brisa de um caminhão, quando dos bloqueios golpistas de estradas, em novembro de 2022, depois da eleição de Lula.

Há também imagens de ‘sentimentos coletivos’ nas manifestações de rua de tios e tias bolsonaristas. Sempre como farsa. Não há quem encontre uma imagem, uma só, que expresse, em episódio recente, compromisso da camiseta da Seleção como expressão genuína de pátria e de identidade.

Porque a camiseta é deles, é do fascismo, é da geração mais medíocre de jogadores, não no sentido de talento para o futebol, mas do conjunto de virtudes cidadãs precárias.

Uma Seleção de jogadores alienados, em que Endrick, uma das estrelas (que não joga), comemora gols fazendo arminha com os dedos. E com a maior naturalidade.

Endrick comemorando gol. Foto: Reprodução

Ninguém pede para que não faça, ou se pedem não são ouvidos. Um guri de 19 anos vai continuar fazendo arminha, se for escalado e marcar gols?

Vai fazer arminhas na terra de Trump, onde as liberdades permitem o uso disseminado de todo tipo de arma, para matar os próprios cidadãos americanos e para matar crianças pelo mundo?

Eu tenho vergonha de torcer por essa Seleção. Mesmo que torcer ou não seja um dilema antigo, do tempo do velho fascismo da ditadura.

O novo fascismo do bolsonarismo só reabilitou essa dúvida. O brasileiro que não vê sentido em torcer é indiferente ou torce contra como protesto e pelo mesmo sentimento de vergonha que eu sinto.

A Seleção e a camiseta pertencem hoje muito mais à extrema direita por coerência com o que essa ‘instituição’ representa. A Seleção, pelos dirigentes do futebol e pelos jogadores que a integram, é uma estrutura terrivelmente alienante.

RESGATE IMPOSSÍVEL

Respeito líderes e cidadãos de esquerda que vestiram a camiseta amarela. É uma dedicação que comove, na tentativa de resgatar o que não pode mais ser resgatado.

A COPA É DELES

Essa é a Copa com o maior número de fascistas por metro quadrado.

Hoje, há mais deputados bolsonaristas, liderados por Nikolas Ferreira, nas cidades da Copa do que em Brasília.

Nesse domingo à noite apareceu na TV, nas arquibancadas, o presidente fascistão do Equador, Daniel Noboa. E logo depois a Costa do Marfim fez o gol da vitória.

MODERADA

Ganha força no bolsonarismo o nome da deputada Júlia Zanatta para vice de Flávio Bolsonaro.

A catarinense seria a presença moderada na chapa da extrema direita. Faz sentido. Eles estão precisando de uma voz sensata.

O bolsonarismo tem muita estratégia. É uma jogada de mestre. Parece o time do Ancelotti jogando de grinalda contra o Marrocos.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/