Quem vai substituir as promotoras? Por Moisés Mendes

Marielle Franco. Foto: Wikimedia Commons

Originalmente publicado em BLOG DO MOISÉS MENDES

Por Moisés Mendes

Um delegado pilantra, preso por corrupção, orienta seus parceiros de dentro da cadeia a atrapalharem as investigações em torno da morte de Marielle Franco.

E de dentro da cadeia esse delegado, chamado Maurício Demétrio Afonso Alves, recebe informações que correm em segredo de Justiça no caso Marielle, ajudado por cúmplices da própria polícia, envolvido com milicianos.

Por essa e por outras as promotoras Simone Sibilio e Letícia Emile decidiram deixar as investigações do assassinato.

O delegado, os milicianos e os que circulam em volta dessa gente envolvida com os Bolsonaros venceram, por enquanto.

Se duas promotoras escaladas para que tenham dedicação especial a um caso de repercussão mundial não conseguem trabalhar, porque os bandidos as ameaçam, quem conseguirá?

Como chegar aos mandantes dos crimes, se uma estrutura de milicianos e políticos, todos misturados com a polícia, põe em risco a vida de servidores do Ministério Público?

Há muito silêncio em torno desse caso, inclusive em Brasília. Será que a maioria dos integrantes do tal sistema de Justiça tem medo dos milicianos protegidos pelos Bolsonaros?

Quem garante a partir de agora a segurança das promotoras, que não tiveram o apoio que deveriam ter para seguir em frente?

Que macho irá encarar a tarefa de levar adiante a investigação que conduza aos mandante do assassinato de Marielle?

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O ENCONTRO

Ninguém viu nem ouviu a reunião de Bolsonaro com Luiz Fux no Supremo. Foi, lá dentro, quase uma reunião secreta.

Mas não era uma reunião daquelas em que o convidado entra fora do horário e fora da agenda. Porque Fux não queria que fosse, para o público externamente, uma reunião secreta.

Ao contrário, deveria ser bem divulgada, para que sua existência ficasse registrada depois dos últimos ataques de Bolsonaro a Luis Roberto Barroso, ao TSE, ao STF e às eleições.

E assim aconteceu. Todo mundo ficou sabendo da reunião, mas ninguém mais, de nenhum dos lados, acompanhou a conversa.

Agora, vamos imaginar um diálogo em que Fux deve ter dito a Bolsonaro (sabe-se lá de que jeito) que a coisa está complicada.

Ninguém imagina que Fux possa ter dado conselhos diretos a Bolsonaro, para que não ataque a eleição, o STF e a democracia.

Deve ter sido uma enrolação geral de ambas as partes. Mas vai durar quanto tempo essa trégua?

Para usar a linguagem de um dos ilustres interlocutores, até a próxima cagada, em meio a soluços intermitentes.

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CIRO GOMES CHEGA À ‘MATURIDADE’

Ciro Gomes disse ontem a Roberto D’Avila, na GloboNews, que não fugiu para Paris e que votou em Fernando Haddad em 2018. Afirmou que só o que ele não fez foi campanha para Haddad.

Ciro disse, em tom de apelo, que não quer mais ser conhecido por frases infelizes e adjetivos fortes, porque chegou agora à maturidade. Não é maios o homem do pavio curto.

Lula e Bolsonaro, segundo ele, se dedicam ao mesmo modelo de gestão do Brasil. Ele é o novo, e Lula é o velho.

Repetiu que “Lula é o maior corruptor da história moderna brasileira”. E que ele, Ciro, tem “mais conteúdo para repartir numa palestra do que o Lula”.

D’Avila perguntou com quem ele tem conversado. E Ciro disse que conversa com presidentes dos maiores bancos e dos grandes conglomerados. Nessa ordem.

Não contou se conversa com alguém do povo, sindicatos, entidades, índios, ONGs. Só citou os os banqueiros e os conglomerados e, genericamente, disse que conversa com todo mundo que queira ajudar o Brasil.

Ciro acha que Bolsonaro, que ele define como criminoso, está transformando parte dos militares e das polícias em partido armado.

Ciro tentou se apresentar como outro homem, mas sem saber dizer direito que homem é esse. O novo Ciro Gomes, que se apresenta como a terceira via, é um sujeito dependente do velho Ciro Gomes.

Desde o início, Ciro bateu forte na direita e na esquerda, porque pretende, como admitiu, conquistar esse centro difuso e nebuloso que é a direita encabulada.

Sim, essa direita é importante para a democracia, é decisiva para a governabilidade em qualquer país, mas é direita.

O ex-tucano desistiu de se apresentar como alguém de esquerda e fez força para empurrar essa tarefa para Lula. Ciro não quer mais saber de rótulos que o incomodem.

Ciro parece mesmo querer ser um novo Geraldo Alckmin, com a diferença de que Alckmin não odeia tanto Lula, o PT, o PSOL e o PCdoB, depreciados em tom de deboche por ele na entrevista.

E tem quem ainda ache que Ciro é trabalhista e brizolista.

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