Rachel Sheherazade faz Jabor parecer de esquerda

A âncora do SBT Brasil defende o pastor Marco Feliciano porque sua agenda é, basicamente, a mesma que a dele.

Ela
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Rachel Sheherazade virou notícia. A âncora do SBT Brasil, o principal telejornal da emissora de Silvio Santos, fez um comentário sobre as manifestações contra o pastor Marco Feliciano na câmara. Disse ela, em resumo, que “um homem não pode ser condenado por suas crenças, nem discriminado por causa delas. Como muitos gostam de enfatizar, o Estado brasileiro é laico, e garante não só a liberdade de culto, como também o livre pensamento e a liberdade de expressão. Gostem ou não, Marco Feliciano foi eleito democraticamente. Quem não estiver preparado para a democracia que renuncie a ela”.

(O nosso leitor Leonardo Tribst falou do amontoado de chavões e citou, adequadamente, o historiador americano Howard Zinn: “A desobediência civil não é algo fora do domínio da democracia; democracia não existe sem desobediência civil.”)

Logo surgiu um boato de que artistas e jornalistas do SBT haviam preparado um abaixo-assinado: “Rachel Sheherazade não nos representa”. Nem ela e nem o canal confirmaram a existência do documento. “Não fui admitida nem mesmo para reverberar a opinião do dono da emissora. Muito pelo contrário”, disse para o UOL. “Pediram-me, simplesmente, que emitisse minhas próprias opiniões. Falasse sobre o que quisesse, com total liberdade”.

Rachel passou a ser saudada (e malhada) como “a nova musa do conservadorismo brasileiro”. Uma espécie de Boris Casoy de calças. Ela fez questão de afirmar que não é “precursora do jornalismo opinativo” e citou os colegas que, antes dela, abriram “o espaço para esse jornalismo vivo e apaixonante que posso praticar hoje” — Boris, Arnaldo Jabor, Reinaldo Azevedo.

Mas é um exagero chamá-la de conservadora no sentido ideológico. Ela não sai da superfície. É conservadora nos, vá lá, costumes. Não é a versão nacional de Ann Coulter, a advogada, colunista, escritora e apresentadora americana, republicana fervorosa, loira, alta, que causou furor, há alguns anos, com suas posições antiaborto, antigays, antiárabes etc. Coulter passa da linha com frequência, mas é uma provocadora, eventualmente, brilhante. “Seríamos um país melhor se as mulheres não votassem”, disse uma ocasião. Ainda não foi desta vez, rapazes.

Rachel talvez seja, isso sim, a nova cara do que se poderia chamar de jornalismo evangélico. Aos 40 anos, natural da Paraíba, casada, dois filhos, bonita e articulada, ela se declara, no Twitter, “muito grata a Deus por tudo o que ele me deu”. Distribui améns, bênçãos. Sua agenda não é diferente da de Marco Feliciano e Silas Malafaia.

Foi para o SBT depois de uma diatribe numa tevê paraibana contra o carnaval, em 2011. O vídeo foi postado no YouTube e estourou. Desde então, já bateu na defesa do Conselho Federal de Medicina à causa do aborto, na descriminalização das drogas, na igreja católica, na descriminalização do adultério, no desarmamento, na igualdade de direitos para as mulheres. Também discordou de uma reportagem que seu próprio jornal realizou sobre a adoção de cinco crianças de Monte Santo, Bahia, que sofriam maus tratos dos pais.

Acusou os “laicistas” (os mesmos que usou para defender Feliciano) de intolerância quando um projeto de lei quis retirar a frase “Deus seja louvado” das cédulas de real. “Liberdade, igualdade, honestidade, respeito, justiça… São todos princípios do cristianismo, o mesmo que vem sofrendo perseguição dos ditos ‘defensores do Estado laico’. É, no mínimo, uma ingratidão à doutrina que inspirou nossa cultura, nossos valores, nossa tradição e, até mesmo, a nossa própria Constituição Federal, promulgada ‘sob a proteção de Deus’. A Carta Magna será, certamente, o próximo alvo dos laicistas”.

Rachel Sheherazade não é só um rostinho bonito. Ela pode até ser o sonho do PIB, o Perfeito Idiota Brasileiro. Mas ele terá de conversar com o bispo primeiro. Em todo caso, como diz o livro dos Provérbios, capítulo 31, versículo 30, “enganosa é a beleza e vã a formosura, mas a mulher que teme ao Senhor, essa sim será louvada”.

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