Racismo e cafajestada: o problema de Silvio não é ser velho, mas ter ideias caquéticas. Por Nathalí

Silvio,

Eu sei que está difícil pra você. Imagino que seja terrível ser o tiozão do pavê, conservador e preconceituoso, em um mundo que, irremediavelmente, abre suas portas à diversidade.

O sentimento de inadequação deve consumir as vísceras da sua vaidade durante seu sono que, em travesseiros de pluma de ganso, tinha tudo pra ser tranquilo.

Conheço alguns outros senhores parecidos com você nesses aspectos, e estão todos desesperados.

Suas piadas já não funcionam, e, ao contrário de você, eles não têm aviões de dinheiro pra comprar as risadas dos presentes. Às vezes as pessoas riem por dó, mas logo perdem a paciência e se retiram num muxoxo.

A verdade, Silvão, é que esse personagem conservador-piadista-de-gosto-duvidoso que você tanto defende está gasto, fede a mofo. E você sabe disso.

Você sabe tão bem que, no auge do desespero, tenta mudar as regras do jogo – como fez ontem pra tentar impedir que uma mulher preta vencesse uma prova no seu também gasto programa.

Tudo bem: no SBT, você é deus. Mas, aqui fora, no resto do mundo, você não pode mudar as regras.

Por exemplo: ontem uma mulher preta foi coroada Miss Universo, e nem você nem o SBT podem fazer nada a respeito. Imagino o quanto isso deve lhe doer, mas dizem que quando aceitamos de coração algo que nos machuca, a dor é menor.

Como dizem os jovens na rede mundial de computadores: aceita que dói menos.

Ao contrário de muitos, não acredito na sua senilidade.

Você é um exemplar perfeitamente saudável do velho mundo: aquela gente que não aceita a diversidade porque ainda não conseguiu aceitar nem mesmo a Lei Áurea, e faz questão de honrar o sangue escravagista que lhe corre nas veias.

Você não é um velho esclerosado: é apenas um velho ultrapassado, que acredita-se no direito de reproduzir racismo em rede nacional porque tem muito dinheiro no banco e uma emissora de televisão.

Deve ser mesmo difícil se dar conta de que, não, nada te dá esse direito, e que, no novo mundo, você não é deus nem o diabo, é apenas uma carta que continuará a ser plenamente descartada pelo futuro, que, acaso você ainda não tenha percebido, é diverso e anti-racista.

Tenho, entretanto, também uma boa notícia pra você: é possível envelhecer sem virar um mala. É possível, inclusive, rejuvenescer com o passar dos anos.

Olhe, por exemplo, para Tom Zé: ele não só reconhece e se comunica com este novo mundo da diversidade, como o poetiza nas letras que continua a compor (faça um favor a si mesmo e ouça Tribunal do Facebook).

E Gilberto Gil? no palco, parece um menino. Caetano, Bethânia, Elza… o seu problema, Silvio, não é ser velho, é manter posturas velhas, defender um personagem velho, buscar um mundo velho que já não existe e, para a sua agonia – não importa com quantos presidentes militares você se mancomune – não voltará a existir.

Envelhecer bem deve ter a ver com aceitar o fluir do mundo – essa lição, parece, os anos não deram conta de te ensinar.

Um xamã indígena com o qual tenho proximidade – índios, essa gente que vocês desprezam – me disse certa vez que um velho que mantém em seu peito a teimosia adolescente não tem cura nesta vida: só o que se pode fazer é ajudá-lo a morrer. Concluí – sem pesar, confesso – que você é um desses velhos: já não tem salvação (e talvez também já esteja morto, faltando-nos apenas darmos por isso).

Se ainda me presto a escrever sobre você, se ainda insisto – eu e as pessoas do novo mundo – em apontar sua inconformidade, é porque, enquanto porta-voz desse mundo de velharias conservadoras, você arrasta milhões em sua audiência, e é com esses milhões que queremos falar.

Eles que assistem ao SBT porque ainda não descobriram algo mais legal no YouTube – é só uma questão de tempo, cara -, eles já estão se dando conta de que o seu barco, o barco do conservadorismo, está afundando.

Em breve, nenhum aviãozinho de dinheiro salvará a sua popularidade, e talvez você pense que nada disso te abala: um figurão do velho mundo não deve ter medo de nada, certo?

Errado. Ser associado ao que há de mais desprezível na atualidade – racismo, fascismo, militarismo, etc – e por fim, ser lembrado pelos livros de história como a apresentador que morreu em vida junto com os valores retrógrados que defendia não deve ser exatamente o que você pensa para o fim da sua carreira – mas é o caminho que claramente se desenha pra você.

Estaremos aqui para te ajudar a morrer.

Com amor,

Nathalí.

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