Racismo no futebol: por um legado de Demba Ba. Por Cláudio Arreguy

Publicado no Ultrajano

Demba Ba tomou a iniciativa de deixar o campo após caso de racismo no jogo PSG x Istanbul Basaksehir

Quando se interrompe um jogo da mais badalada competição de clubes do planeta… Quando a Uefa capitula e aceita adiá-lo por um dia, com outra equipe de arbitragem… Alguma consequência terá de haver. Não dá para aceitar que tudo fique por isso mesmo. Punir o árbitro por ato racista é pouco diante do que as entidades do esporte precisam fazer

Em 1995, o Tribunal de Justiça da União Europeia deu ganho de causa ao volante Jean-Marc Bosman, de 31 anos, do Visé, num processo que durava cinco anos contra o Standard de Liège e envolveu a Federação de Futebol do país. A vitória do discreto Bosman foi um marco nas relações trabalhistas entre jogadores e clubes e virou símbolo do fim da Lei do Passe.

Vinte e cinco anos depois, um senegalês nascido na França, Demba Ba, de 35 anos, do Istambul Basaksehir, pode se transformar no símbolo de um enrijecimento das medidas contra o racismo no futebol. O motivo que faltava para a Fifa e a Uefa deixarem de lado as medidas tímidas a respeito do assunto, traduzidas em faixas nos estádios, pronunciamentos antes de jogos e postagens nas redes sociais.

Nesta terça-feira, no Parque dos Príncipes, Paris Saint-Germain e Basaksehir se enfrentavam havia 18 minutos quando o banco do time turco reclamou de uma marcação da arbitragem. O ex-jogador camaronês Pierre Webó, integrante da comissão técnica, foi apontado como “aquele negro” pelo quarto árbitro, o romeno Sebastien Coltescu.

Demba Ba,  que estava no banco, cobrou imediatamente: “Você nunca diz ‘aquele cara branco’, diz ‘aquele cara’. Por que quando menciona um cara negro você diz ‘aquele negro ali’?”. Inconformado, liderou a saída de campo de sua equipe num jogo decisivo para a classificação à segunda fase da Liga dos Campeões da Europa. E, mais importante ainda, contou com o apoio integral da comissão técnica e dos jogadores do PSG, liderados, registre-se, pelos dois mais badalados ‒ por sinal, negros ‒, Neymar e Mbappé.

A atitude dupla na competição de clubes mais badalada do mundo põe em xeque a Uefa e a Fifa. Evidentemente, houve passadores de pano na questão. Entre os quais, lamentavelmente, o treinador do Benfica, Jorge Jesus. O português que levou o Flamengo aos títulos brasileiro e da Libertadores no ano passado, relativizou. “Não sei o que aconteceu, o que se falou, o que se disse, mas hoje está muito na moda isso do racismo”. E emendou: “Hoje, qualquer coisa que se possa dizer contra um negro é sempre sinal de racismo, a mesma coisa contra um branco já não é sinal de racismo”.

Em que mundo vive o Míster, que no maior título de sua carreira (Libertadores) contou com a participação decisiva de dois negros: o craque da competição, Bruno Henrique; e o artilheiro, Gabigol? Onde estava quando os Estados Unidos foram convulsionados após o assassinato de George Floyd, asfixiado por um policial branco em Minneapolis? Crime que mobilizou os meios esportivos no mundo inteiro, consagrou a expressão “Vidas Negras importam” e teve como pontas de lança nos protestos respeitáveis figuras como o astro da cesta LeBron James e o campeoníssimo das pistas Lewis Hamilton.

Moussa Marega

Quando se interrompe um jogo da mais badalada competição de clubes do planeta… Quando a Uefa capitula e aceita adiá-lo por um dia, com outra equipe de arbitragem… Alguma consequência terá de haver. Não dá para aceitar que tudo fique por isso mesmo. Punir o árbitro por ato racista é pouco diante do que as entidades do esporte precisam fazer. Não se trata de simples atitude de protesto ‒ ainda que louvável, claro ‒ como a do atacante francês naturalizado malinês Moussa Marega, de 29 anos, no jogo entre seu time atual, o Porto, e o ex, Vitória de Guimarães, em 16 de fevereiro. Depois de escutar provocações racistas da torcida, ele devolveu as ofensas com xingamentos. Revoltado, ergueu acima da cabeça um dos assentos atirados por ela no gramado e recebeu cartão amarelo. Ele foi para os vestiários, mas acabou substituído e a partida continuou.

Nesta terça , os apelos pelo prosseguimento do jogo não tiveram efeito. Solidários, PSG e Basaksehir se recolheram aos camarins. Ao contrário do ocorrido meses antes em Portugal, o triste episódio parisiense se deu no estádio vazio. O que dimensionou ainda mais o que foi dito em campo. Tanto na ofensa do árbitro romeno, por sinal em sua despedida da função, quanto na resposta contundente Demba Ba em defesa de Webó e na decisão da dupla de abandonar o campo, seguida por Neymar, Mbappé e cia.

O futebol cobra medidas mais duras contra o racismo. Não dá para a Uefa e a Fifa permanecerem nas medidas paliativas e pouco efetivas. Se precisava de um marco, este 8 de dezembro em Paris preencheu a lacuna.

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