Raquel Dodge cria força tarefa para Brumadinho e tenta sair bem na foto após proteger Temer e tucanos

Michel Temer e Raquel Dodge. Foto: Marcos Corrêa/PR

A procuradora-geral da República Raquel Dodge declarou que “certamente há um culpado ou mais de um” pela tragédia de Brumadinho.

“O Ministério Público precisa trabalhar de uma forma adequada, sem espetacularização, mas firmemente, na busca dos responsáveis por essa tragédia”, disse, em sua voz de soprano.

O MP, acrescentou, “está empenhado em promover todas as medidas necessárias para auxiliar nos resgates das vítimas, na identificação das pessoas desaparecidas e, sobretudo, prevenir que acidentes como esses não mais ocorram”.

Raquel anunciou uma “força tarefa” de procuradores vai apurar as causas e as responsabilidades da catástrofe.

Essa é a Raquel da ficção e das causas unânimes e, com todo respeito, fáceis e demagógicas.

A Raquel Dodge da vida real está retratada numa matéria de Guilherme Amado na Época sobre seu trabalho com Michel Temer e o PSDB:

A curva descendente em que a operação [Lava Jato] mergulhou da segunda metade de 2017 para cá não foi só culpa dela, claro: a habilidade de Temer e o Supremo Tribunal Federal (STF) ajudaram. Mas Dodge foi fundamental. As delações desapareceram, as prisões minguaram, a cooperação internacional implodiu e o relógio de alguns prazos passou a bater no ritmo do interesse de alguns tucanos e de um certo emedebista com assento no Planalto. (….)

A propósito, as delações evaporaram sob Dodge.

Qual teria sido o desenlace do caso Temer se ela tivesse aceitado, por exemplo, negociar com Geddel Vieira Lima? E se as cabeças coroadas da OAS tivessem falado antes das eleições de 2018? Quantos Jucás mais não teriam sido demitidos pelas urnas?

A lentidão das decisões tem sido outra pá de cal na Lava Jato. Fora a insegurança jurídica que cria, há a seletividade. 

Se Dodge tivesse tido com tucanos e emedebistas a mesma diligência que, acertadamente, teve em cada etapa que lhe cabia no processo de Lula, Temer e Aécio teriam fritado. (…)

Em 11 de setembro, quando a PF enviou para Marco Aurélio Mello a investigação que originou a Operação Ross, colocada na rua em dezembro e que tinha Aécio Neves como alvo, Mello imediatamente pediu o parecer de Dodge. Embora o tucano fosse candidato, ela só retornou seu parecer para o STF em 28 de outubro — 49 dias depois e com Aécio já devidamente eleito.

Os ponteiros de Dodge também foram amigos de Temer. Luís Roberto Barroso enviou para a PGR em 16 de outubro o indiciamento de Temer e o pedido de prisão do coronel Lima, o braço direito do ex-presidente. Dodge só denunciou Temer no fim do dia 19 de dezembro, quando o recesso no STF já havia começado. Barroso já não podia decidir nada. (…)

Diante da realidade das urnas, ela agora tenta se aproximar de Jair Bolsonaro. Há duas semanas, numa cerimônia na PGR, afirmou que o presidente “renovou a esperança dos brasileiros”. Mas, fora dos holofotes, tem feito ainda mais. Arregaçou as mangas na aproximação com os militares. Foi à posse dos três comandantes e do ministro da Defesa e tem procurado marcar audiências privadas.

Já no dia da posse de Bolsonaro, havia compartilhado no grupo de Telegram de procuradores-chefes de todo o país a notícia de que ela havia sido a única aplaudida na cerimônia. Em seguida, enviou ao grupo, orgulhosa, uma foto do livro de posse, com sua assinatura ao lado da de Bolsonaro. Mais um lance ousado: o MPF é majoritariamente antibolsonarista.

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