Um tributo ao homem que compôs o grande hino de Londres, Waterloo Sunset: Ray Davies, do Kinks

Os londrinos redescobrem o extraordinário Ray Davies, líder do Kinks, e o celebram com entusiasmo

É para ler, de preferência, ouvindo Waterloo Sunset.

Londres, para quem cresceu nos anos 70, é um sonho musical. Você pode ver um concerto dos caras cujos discos você colecionou fascinado adolescente. Gente como Steve Winwood, do Traffic.

Ou Ray Davies, do Kinks.

Ontem fui com Camila ver RD no Royal Hall do Southbank Centre. Era um plano antigo. Nas férias de julho que Camila passou comigo em Londres vimos incontáveis vezes o vídeo de RD no festival de Glastonbury. Passou na BBC e gravei.

Quando soube que ele se apresentaria no Southbank Centre no dia 19 de dezembro, disse para Camila que não poderíamos perder. A data coincidia com novas férias dela, outra vez passadas com o pai.

Não foi exatamente uma “gig” (guigue), uma apresentação qualquer. Foi uma apoteose, um reconhecimento ao extraordinário talento do autor de um hino belíssimo de Londres, Waterloo Sunset. RD foi aplaudido de pé ao cantar Waterloo Sunset. Parecia que os londrinos haviam redescoberto um gênio musical esquecido.

Não que ele seja uma unanimidade. Alguns meses atrás, comprei numa banca de Portobello Road uns discos do Kinks. O balconista, da minha geração, elogiou minha escolha. Disse a ele que gosto muito de Ray Davies. Ele me olhou com uma certa reprovação. “O Davies certo é o Dave.”

Dave Davies, que foi guitarrista do Kinks, é irmão de Ray. Tiveram brigas antológicas. Os fãs se dividiram entre os dois. Ray achava Dave folgado. O irmão saía para farras enquanto Ray ficava compondo. Ray fala com bom humor de Dave. Diz de um certo disco – Village Green Preservation – que é seu preferido, embora tenha sido um flop, fracasso, porque quase não brigou com o irmão ao gravá-lo.

Ontem pediu uma salva de palmas a Dave – ausente – ao lembrar que ele fizera o riff de You Really Got Me, que projetou o Kinks, com 17 anos. Foi atendido. Mas logo avisou, sorrindo: “Chega.”

Foram duas horas de show. RD tinha uma banda e mais um coral para acompanhá-lo. Mas você logo vê que ele faria sozinho um espetáculo. Tem uma grande voz, toca bem violão e é carismático, com seu rosto prognata que lembra Tarantino e Federar e suas pernas finas. Tem o humor fácil, jovem. Parece um adolescente descompromissado num corpo sexagenário.

Mistura clásicos do Kinks com algumas composições – desconhecidas, e mais cerebrais – da carreira solo. É a maneira, acredito, que ele encontrou para não se entediar cantando sempre a mesma coisa. Victoria, Johnny Thunder, Sunny Afternoon, All Day and All of the Night, Waterloo Sunset. Ouvi tudo que queria. E mais alguma coisa.

Ouvimos.

Ao chegar em casa, vi Camila fuçar no laptop. Ela encontrou no YouTube uma música da fase solo de RD que jamais ouvíramos. Conheceu no show, amou, lembrou vagamente do título, pesquisou e achou. Como uma legítima fã do Kinks. Como uma legítima repórter. In a Moment é o nome. Intimista, meio jazz, meio bossa nova. Está no pé deste texto e, se você retornar à leitura, recomendo que faço ouvindo In a Moment.

Ouviu uma dez vezes seguidas a música. Terminava, Camila recolocava. Obsessivamente. Compulsivamente.

Exatamente como o pai. Quando digo que ela é minha miniatura, não estou exagerando.

Este texto foi publicado no Diário do Centro do Mundo em 20 de dezembro de 2010.

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