
O Banco Central decretou, nesta quinta-feira (15), a liquidação extrajudicial da Reag Investimentos, atual CBSF Distribuidora de Títulos e Valores Imobiliários S.A., após identificar “infringência às normas que disciplinam suas atividades”.
A decisão ocorre um dia após a segunda fase da Operação Compliance Zero colocar a gestora no centro das apurações sobre fraudes bilionárias envolvendo o Banco Master. Mandados de busca e apreensão atingiram João Carlos Mansur, fundador da Reag, ampliando a pressão sobre a estrutura financeira que teria sustentado o esquema.
A Reag aparece na investigação como administradora de fundos usados para dar aparência de solidez a operações que, segundo a Polícia Federal, simulavam lastro, inflavam artificialmente o patrimônio do Banco Master e mascaravam créditos fictícios. O MPF identificou movimentações em alta velocidade, rentabilidades extraordinárias e operações incompatíveis com padrões normais de mercado, indicando um fluxo financeiro destinado exclusivamente a gerar resultados no papel, sem sustento real.
A liquidação da gestora foi decretada em meio à crise desencadeada pela investigação sobre o Master, cuja falência se transformou em disputa institucional. Em novembro, o Banco Central liquidou o Master após suspeitas de fraude na venda de carteiras de crédito ao BRB por R$ 12,2 bilhões.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, classificou o caso como “a maior fraude bancária” já apurada no país. Agora, com a Reag oficialmente liquidada, cresce o foco sobre a rede de fundos que movimentou recursos entre empresas, investidores e estruturas controladas por Daniel Vorcaro.
Documentos obtidos pela PF mostram que parte das suspeitas surgiu da análise de fundos administrados pela Reag, que receberam valores provenientes de empréstimos concedidos pelo Master a empresas que não pagavam as parcelas.
Os recursos eram repassados em poucos minutos a fundos recém-criados e retornavam ao banco por meio de aplicações, gerando uma cadeia circular que simulava liquidez e rentabilidade. Para a PF, esse fluxo foi essencial para inflar ativos e sustentar a aparente robustez do Master antes de sua liquidação.

A ação da última quarta-feira apreendeu documentos, equipamentos eletrônicos e registros financeiros em endereços ligados a Mansur. O objetivo é mapear como o dinheiro circulou entre pessoas físicas, empresas e fundos e identificar beneficiários diretos das operações.
Essa não é a primeira vez que a Reag aparece em investigações federais: a gestora já havia sido alvo da Operação Carbono Oculto, que apura infiltração do crime organizado em operações financeiras e de combustíveis. Após aquele episódio, Mansur deixou o comando do conselho da empresa, que depois anunciou a venda de seu controle.
Com mais de três décadas de carreira, Mansur construiu trajetória no mercado financeiro estruturando mais de 200 fundos, além de atuar em grandes empresas como Monsanto, PwC e WTorre.
Ele também menciona em seu currículo uma passagem pela Trump Realty Brazil, joint venture criada em 2003 entre a Trump Organization e o empresário Ricardo Bellino para desenvolver empreendimentos de luxo no país. O projeto durou até 2006 e vários empreendimentos não chegaram a sair do papel.
No universo do futebol, Mansur também consolidou presença. Foi o mais votado para o Conselho de Orientação e Fiscalização do Palmeiras em 2023, é próximo da presidente Leila Pereira e participou da estruturação do Allianz Parque. A Reag, sob sua liderança, atuou na Arena do Grêmio, administra fundos ligados à Neo Química Arena e executa a SAF do Juventus. Um braço da empresa, a Reeve, será responsável pela gestão do Novo Canindé por 50 anos após a reforma do estádio da Portuguesa.