“Reencantamento”: por que estamos voltando à Idade Média, segundo escritora

Atualizado em 1 de junho de 2026 às 14:40
Ilustração sobre a Idade Média. Foto: Reprodução

A escritora Katya Ungerman, autora da newsletter Default.blog sob o pseudônimo Katherine Dee, afirma em artigo publicado no New York Times que a sociedade contemporânea está passando por um processo de “reencantamento” do mundo, marcado pela volta da crença em forças sobrenaturais, fenômenos inexplicáveis e teorias conspiratórias. Segundo ela, o excesso de informação, o avanço da inteligência artificial e a perda de confiança nas instituições estão criando um ambiente que lembra cada vez mais a mentalidade medieval.

Para sustentar sua tese, Ungerman cita episódios recentes que ganharam destaque nos Estados Unidos. Um deles envolve o comentarista conservador Tucker Carlson, que afirmou ter sido atacado fisicamente por um demônio enquanto dormia. Segundo seu relato, ele acordou sangrando e com marcas de garras pelo corpo. A declaração foi levada a sério por líderes religiosos cristãos, que chegaram a discutir publicamente o caso.

Outro exemplo envolve Gregg Phillips, diretor do Escritório de Resposta e Recuperação da Agência Federal de Gestão de Emergências dos Estados Unidos (FEMA). Phillips chamou atenção ao afirmar que havia sido teleportado contra a própria vontade para uma unidade da rede Waffle House localizada a cerca de 80 quilômetros de distância. O New York Times chegou a investigar a história, mas não encontrou ninguém que se lembrasse da presença dele nos restaurantes mencionados.

Ao mesmo tempo, instituições religiosas registram crescimento significativo. Igrejas católicas em diversas dioceses receberam neste ano o maior número de convertidos em mais de uma década. Comunidades ortodoxas também relatam expansão acelerada, especialmente entre homens jovens. Um sacerdote da Igreja Ortodoxa Antioquina afirmou ao jornal que um crescimento dessa magnitude jamais havia sido observado na história da Igreja Ortodoxa nos Estados Unidos.

Para Ungerman, todos esses fenômenos refletem uma sensação crescente de que forças invisíveis estão moldando a realidade. Ela descreve a vida pública atual como um ambiente claustrofóbico e quase alucinatório, no qual a distinção entre realidade e fantasia se torna cada vez mais difícil. Entre os exemplos citados estão declarações sobre objetos voadores não identificados, supostos materiais biológicos não humanos recuperados pelo governo e demonstrações públicas envolvendo robôs humanoides.

Membro do QAnon na invasão do Capitólio

Uma das causas desse processo é a sobrecarga informacional produzida pela internet e pelas redes sociais. O cérebro humano é naturalmente programado para identificar padrões, mas a quantidade de informações disponíveis hoje faz com que muitas pessoas passem a enxergar conexões inexistentes. Segundo ela, é esse mecanismo que ajuda a explicar o crescimento de movimentos conspiratórios como o QAnon e a popularização de conteúdos que apresentam coincidências como sinais sobrenaturais.

Outro fator é a inteligência artificial. Ungerman observa que, no passado, produzir provas falsas exigia tempo e recursos. Hoje, imagens, vídeos e documentos podem ser fabricados em segundos e com aparência convincente. Como consequência, qualquer afirmação pode ser acompanhada de supostas evidências, mas qualquer evidência também pode ser descartada como falsa. O resultado é uma crise crescente de confiança na própria ideia de verdade verificável.

A escritora também destaca o desgaste das instituições tradicionais. Escândalos envolvendo governos, empresas e autoridades minaram a credibilidade de organizações que durante décadas serviram como referência para a sociedade. Como exemplo, ela cita a Purdue Pharma, fabricante do medicamento OxyContin, acusada de minimizar os riscos de dependência enquanto a epidemia de opioides se espalhava pelos Estados Unidos. Para Ungerman, episódios desse tipo abriram espaço para que astrologia, demonologia e teorias conspiratórias passassem a ocupar o lugar deixado pela perda de confiança institucional.

O retorno do pensamento espiritual não é necessariamente negativo. Ela argumenta que a busca por algo além do mundo material acompanha a humanidade há séculos e faz parte da experiência humana. O problema surge quando esse impulso se desenvolve sem limites ou sem comunidades capazes de oferecer orientação e freios. Como exemplo, ela cita um caso relatado pela revista Rolling Stone em que um homem passou a acreditar que era Deus após longas conversas com o ChatGPT.

Ungerman afirma que o mundo está se tornando mais parecido com aquele que existia antes da modernidade do que com o modelo racional e científico que predominou durante parte do século XX. A crença em forças sobrenaturais e narrativas alternativas continuará avançando. A questão central para o futuro, escreve ela, não é se as pessoas acreditarão em algo, mas em quê decidirão acreditar.

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