Regina Duarte, Bolsonaro e meu tio do pavê que batia na mulher. Por Nathalí Macedo

Jair Bolsonaro e Regina Duarte

Costumávamos prezar por políticos autênticos, cujas promessas pudessem ser levadas a sério, mas, pela primeira vez na história, pessoas votam em um candidato justamente por não acreditarem que ele cumprirá o que promete. 

A racionalidade agoniza nas eleições das fake news. 

Regina Duarte, a voz quase solitária da classe artística que fala em favor de Bolsonaro, dois dias antes do segundo turno, nos fez o favor de explicitar o que pensam as pessoas que ainda guardam alguma sensatez a respeito dos absurdos fascistas, racistas, machistas e xenófobos ditos por ele: “é tudo da boca pra fora.” 

Essa é a assertiva mais perigosa de todas as lorotas que sustentam a candidatura de Jair.

A irracionalidade antipetista é tamanha, que os mecanismos de defesa mais primários são despertos em seus eleitores.

A negação dos fatos é o discurso predileto de quem, no fundo, não se importa com as atrocidades que Bolsonaro e seus seguidores representam, ou não o suficiente para deixar de lado, por um momento, os próprios interesses.

É possível que uma artista como Regina Duarte realmente tenha tamanha deficiência cognitiva? É possível que uma artista despreze o poder da palavra? 

Infelizmente, não creio. 

Isso me cheira a desonestidade intelectual e jogo de interesses, mesmo. 

Assim como boa parte dos eleitores convictos do monstro, Regina Duarte sabe que não, não é da boca pra fora.

Conheço um desses típicos figurões dos anos cinquenta.

É o meu tio do pavê, que tem o mesmo sangue que eu por mero insulto do destino. 

Ele é do tipo boa praça, churrasco, mulher e cerveja para esconder a masculinidade frágil, piadas homofóbicas e racistas causando constrangimento geral na mesa do almoço, aquele que cria o filho homem pra ser o terror das meninas, e a filha mulher pra aprender a ser uma boa dona de casa. 

Gente indigesta. E de gente indigesta, infelizmente, eu entendo.

Esse tio que na verdade só está demonstrando seu “humor brincalhão típico dos anos 1950, que faz brincadeiras homofóbicas, mas que são da boca pra fora, coisas de uma cultura envelhecida, ultrapassada” (DUARTE, Regina. 2018), bateu na esposa e quebrou a casa inteira, bêbado, por não querer que ela trabalhasse. 

Sonega impostos em sua pequena bodega de esquina. Acha que comunistas querem invadir seu apartamento parcelado na Caixa Econômica Federal em noventa meses e, para evitar isso, não se importa que morram alguns inocentes – para essa gente, a propriedade vale mais que qualquer coisa, principalmente que a vida das minorias. 

Além de toda essa “doçura” por trás do aparente ódio e desumano egoísmo, meu tio do pavê é, sobretudo, estúpido o suficiente para manter um discurso do século passado. 

Ele não o mantém por uma questão de bom humor: mantem porque, de fato, assim como Jair, ele parou no tempo. 

O meu tio do pavê é a representação assustadora, de tão fiel, do pensamento retrógrado escancarado nas falas de Bolsonaro: não é piada, é sintoma. Sintoma do ódio às minorias, do desprezo aos pobres e do proselitismo fascista.

Sintomático também, aliás, o argumento dela – que é usado por muitos outros – segundo o qual os absurdos ditos por Bolsonaro são resultado do “jeito masculino.”

De fato. O jeito masculino ameaça eliminar opositores por não saber lidar com a diferença. É o jeito masculino que faz com que homens tenham necessidade de reafirmarem a própria masculinidade com violência. 

O jeito masculino, que eu chamo de cultura patriarcal, foi construído sobre muito ódio e sangue. 

E Regina Duarte sabe disso.

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