Rei morto, rei posto. Por Denise Assis

Atualizado em 5 de novembro de 2022 às 8:39
Lula em campanha no Complexo do Alemão, balançando bandeira do Brasil
Foto: REUTERS/Pilar Olivares

Por Denise Assis

Rei morto, rei posto. É assim, na esfera do poder. Convencido de que iria levar a melhor no pleito do dia 30 – afinal, foram despejados bilhões na compra de votos, como mostrou o jornalista Caco Barcellos (e quem não imaginava?) e montado um plano anunciado no último ano à exaustão, para a permanência no cargo a qualquer custo, à moda de um capitólio caipira, Bolsonaro tentou esticar a corda.

Na falta do resultado esperado, fez propositalmente um vazio de 45 horas até se pronunciar de forma ambígua, de modo a dar tempo para o seu exército de anjos caídos capengas tomar as estradas, atazanando a vida da população e revoltando o agro que é tech, é pop, mas é acima de tudo empresário, amigo do lucro e do bom fluxo de mercadorias escoando estradas à fora. Somente o estado de Santa Catarina, computou – segundo dados da coluna do Ricardo Noblat -, R$ 36,8 milhões por dia de prejuízos no setor de aves e suínos.

Por fim, metido num figurino inadequado, à lá Zelenski, (em que lhe faltava músculos para preencher a camiseta estilo “mamãe sou forte”), franziu a testa e vestiu o figurino de que mais gosta: o da vitimização. A referência a Zelenski era a composição para o personagem sitiado, isolado no seu bunker, a falar com os seus seguidores, um bando de fanáticos fascistas, dispostos a enfrentar trechos de estradas por uma causa perdida.

Sabia, de antemão, que o seu teatro não o levaria a nada, mas preparava o terreno para uma saída “confortável”, garantindo casa, comida e roupa lavada, com a promessa de dar em troca o “poder” que julga ter amealhado para carrear para o seu partido, o PL, que veio em seu socorro. Como sempre, não vai entregar o prometido. Não tem determinação para a luta, não tem tradição política e sua liderança dura o tempo das famigeradas camisas amarelas irem da máquina ao varal.

Seus aliados se bandeiam para o governo que desponta. Até o general, pai do “orçamento secreto”, Luiz Eduardo Ramos, já se apresentou solícito ao vice-presidente eleito, Geraldo Alckmin, desmanchando-se em mesuras, ao seu estilo subserviente. E o seu trunfo, o governador eleito para São Paulo, Tarcísio de Freitas, em quem certamente pensou em agarrar-se, já fez movimentos de arredar a sua mesa para fora da ultradireita, pela qual se elegeu, deixando atrás de si o cadáver do Felipe Lima, jovem de 28 anos, morto da comunidade de Paraisópolis, que a mídia tradicional já esqueceu.

Bastou que Tarcísio sorrisse e se mostrasse contra os bloqueios das estradas, para um comentarista já vê-lo como a promessa de uma “terceira via” vindoura, a ser montada com os cacos do que sobrou (?) do PSDB, e do rescaldo de pequenos partidos que os colegas acreditam se unirão para um “começar de novo”… Querem porque querem uma oposição civilizada para alimentar suas colunas e os vesperais televisivos.

Quanto ao chefe do capitólio caipira, fez o papel de sempre. Tal como no 7 de setembro de 2021, quando medrou ao ver que o fuzuê armado poderia, sim, vingar e resvalar para um golpe, de novo se trancou no closet da mulher e deixou no sereno o seu exército de Brancaleone, a quem pediu desculpas, na live/bunker, sem deixar claro os motivos. Deveria ter confessado a sua inapetência e incompetência para o papel de líder, a sua inabilidade política, a sua personalidade “deprê”, e a sua eterna vocação para tirar o corpo fora e botar a culpa no primeiro que entrasse ali.

Sua triste figura vai sucumbir no ostracismo – finalmente -, assim que se ver sem mordomias, sem a turma de puxa-sacos em torno de si, sem o poder que reluta em deixar. Vai encarar intermináveis processos e, certamente, terá de acertar contas com a Justiça. E nem vou desfiar aqui a pilha de crimes a que responderá. Tomaria muito espaço.

Enquanto isto, inaugura-se uma era de dinamismo que começou hoje, com Lula já distribuindo tarefas e às voltas com uma agenda internacional portentosa, de deixar Bolsonaro enfiado debaixo da cama, de inveja. O nome do quase ex encolhe nas páginas e telas, enquanto crescem as especulações em torno de tantos nomes ilustres a seu dispor, que Lula se verá em apuros para selecionar e distribuir os cargos de existentes e os que serão criados. Já caminham céleres as agendas econômicas, ambientais e sociais, numa demonstração inequívoca de que governar é para quem tem apetite, talento e prestígio.

Ah! Não se esqueçam de apagar as luzes das dependências da sala presidencial até 1 de janeiro. Pelo visto, atividades lá só com a volta de Lula ao posto.

Publicado originalmente em Jornalistas Pela Democracia

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