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Reino Unido rejeita recurso e Assange será extraditado para os EUA

Atualizado em 8 de junho de 2023 às 14:25
Julian Assange
Julian Assange (Henry Nicholls/Reuters)

O juiz da Corte de Apelação do Reino Unido, Swift, decidiu extraditar Julian Assange, recusando todas as razões legais pleiteadas em seu recurso para a Suprema Corte britânica. Ele justificou a sua decisão num ofício de três páginas, em que a maior parte é dedicada a queixas sobre o volume de material recebido. Esta sentença extraordinária e frontalmente ilegal parece indicar uma tentativa dos juízes de evitar por todos os meios que esta corte seja desqualificada em nível mundial como cúmplice de uma das mais cruéis e óbvias perseguições políticas dos nossos tempos.

O critério de admissibilidade para que um caso seja apreciado pelo Suprema Corte é ele ser de grande importância pública ou constitucional. Assange foi espionado pela CIA durante seu asilo político numa embaixada estrangeira e teve suas conversas com advogados e médicos clonadas pela empresa de segurança da embaixada, como ficou comprovado num processo em andamento em Madri.

Se este caso não é de interesse público ou grave violações de direitos fundamentais, qual seria?

Resta apenas uma última etapa nos tribunais britânicos, uma vez que a defesa tem cinco dias úteis para apresentar um recurso de apenas 20 páginas a um painel de dois juízes, que convocará uma audiência pública. Não será possível interpor mais recursos a nível nacional, mas Assange poderá recorrer ao Tribunal Europeu dos Direitos do Homem.

O que isto significa é claro: Julian Assange será extraditado para os EUA no final de julho ou em outubro, dependendo das conveniências. Não há razão para acreditar que a audiência oral não seja mais do que uma mera formalidade ritualística, para dar a impressão de que o procedimento legal foi seguido.

O Reino Unido, numa escalada pós-Brexit para a ultradireita tem como principal objetivo de sua agenda sair da Convenção Européia de Direitos Humanos. A ação na corte européia não tem efeito suspensivo, e não há nenhuma razão para crer que dentro de um contexto de sistemática marginalização de acordos internacionais, as elites britânicas darão tratamento justo a Julian Assange.

“É absurdo que um único juiz possa emitir uma decisão de três páginas que possa colocar Julian Assange na prisão pelo resto de sua vida e impactar permanentemente o clima do jornalismo em todo o mundo”, diz a defesa do jornalista. “O peso histórico do que acontece a seguir não pode ser exagerado; é hora de acabar com esse alvo implacável de Assange e agir para proteger o jornalismo e a liberdade de imprensa. Nosso apelo ao presidente Biden é agora mais urgente do que nunca: retirar essas acusações, encerrar o caso contra Assange e permitir sua libertação sem mais demora.”

Stella Assange, esposa de Julian, fez uma declaração no Twitter: “Na terça-feira da próxima semana, meu marido Julian Assange fará um pedido renovado de recurso para a Suprema Corte. O assunto prosseguirá então para uma audiência pública perante dois novos juízes na Suprema Corte e continuamos otimistas de que prevaleceremos e que Julian não será extraditado para os Estados Unidos, onde enfrenta acusações que podem resultar em ele passar o resto de sua vida em uma prisão de segurança máxima por publicar informações verdadeiras que revelaram crimes de guerra cometidos pelo governo dos EUA.”

Esta é a última etapa em mais de três anos de processos judiciais nos tribunais do Reino Unido, já que o governo dos EUA fez o seu caso de extraditar Assange para julgá-lo em 18 acusações em conexão com a publicação pelo WikiLeaks de centenas de milhares de documentos confidenciais vazados que informaram relatórios de interesse público em todo o mundo. Embora o tribunal de primeira instância tenha decidido contra a extradição por motivos de saúde mental, o Tribunal de Apelações anulou a decisão em consideração às garantias diplomáticas apresentadas pelo governo dos EUA. Ele enfrenta uma sentença total combinada de possíveis 175 anos de prisão.

Sara Vivacqua
Sara Vivacqua é advogada, graduada em Direito pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha), e mestre (honours)em Jornalismo Investigativo pela Birkbeck, University of London, com menção máxima (distinction) na dissertação final sobre os povos Yanomami. Atuou como procuradora no Government Legal Department (GLD) junto ao Ministério do Meio Ambiente do Reino Unido, e é conhecida por sua atuação na campanha pela libertação de Julian Assange em Londres