Relatos de brasileiros enganados expõem drama de quem foi à guerra na Ucrânia

Atualizado em 11 de fevereiro de 2026 às 9:36
Combatentes em guerra na Ucrânia. Foto: Andriy Andriyenko/AFP

Brasileiros que viajaram à Ucrânia para lutar na guerra contra a Rússia denunciam pressão psicológica, agressões físicas, xenofobia, salários atrasados e retenção de passaportes. Em Kiev, à espera de ajuda para deixar o país, eles relatam ao Uol frustração com as condições enfrentadas e dizem que desejam retornar ao Brasil.

“Mais do que uma decepção, isso aqui é uma ilusão”, disse um dos combatentes. Dois brasileiros, de 31 e 36 anos, afirmam que estavam preparados para a guerra, mas não “para não ter o mínimo de dignidade”. Sob anonimato, relatam traumas após deixarem família e trabalho para se alistarem. “Pensei que enfrentaria um treinamento, mas é só humilhação”, afirmou um deles.

Eles dizem ter sido recrutados pela empresa brasileira Advanced Company Group, ligada ao grupo internacional Revanche Tatical Group, associado ao serviço de inteligência ucraniano (GUR).

O pagamento prometido variava de 45 mil a 120 mil grívnias por mês, além de 2.800 grívnias por missão no combate direto. “A gente escolhe a área que quer. Eu queria um pouco mais de ação e porque paga um pouco melhor”, disse o brasileiro de 31 anos.

Segundo os relatos, o contrato só foi assinado um mês e meio após a chegada. “O contrato só foi assinado um mês e meio depois que chegamos aqui [ele chegou em junho de 2025]. Estranhamos a demora”, disse. O salário também atrasou. “Não esperava ficar tanto tempo sem dinheiro, trouxe pouco”, relata. “Logo no primeiro mês acabou”.

O outro afirmou: “A gente assina o contrato com dúvidas e pé atrás. Falam que podemos romper com seis meses, mas, se você já estava sendo maltratado, quando ameaça romper é ainda pior”.

Prédio destruído na Ucrânia. Foto: reprodução

Os brasileiros relatam maus-tratos durante o treinamento BZVP. “Tinha vez que éramos acordados com pontapé e armas apontadas na cabeça”, disse o brasileiro de 36 anos. “Presenciei colegas sendo espancados”.

Eles também afirmam que celulares e passaportes foram retidos e que havia vigilância armada. “No outro dia, não saímos nem para ir ao mercado, falaram que era por segurança, mas tinham medo que a gente fugisse. Ficaram com meu passaporte retido por três meses”.

Há ainda denúncias de xenofobia. “Foi uma decepção a maneira como fomos tratados por ucranianos”, disse um deles. Em outro episódio, relatam que “Um francês começou a brigar com um brasileiro. Minutos depois, entrou um sargento ucraniano da Revanche que mostrou a tatuagem para nosso amigo negro, deu um tapa na cara dele e começou a apontar a arma para todos”.

O Itamaraty recomenda que “convites ou ofertas de trabalho ou de participação em exércitos estrangeiros sejam recusadas” e alerta que “A assistência consultar pode ser severamente limitada pelos termos dos contratos assinados entre alistados e forças armadas de terceiros países”. A pasta também afirma que não há obrigação do poder público em custear retorno ao Brasil.

Especialistas defendem maior transparência. “Não se pode impedir que os brasileiros vão para a Ucrânia lutar, mas o governo brasileiro poderia cobrar mais investigação sobre o recrutamento dessas empresas operando livremente no Brasil”, explicou Tito Lívio Barcellos Pereira.

Para o advogado Emílio Múcio de Melo Rosa, “Familiares podem recorrer a cortes internacionais de direitos humanos”. Ele acrescenta que “São contratos frágeis”.

Augusto de Sousa
Augusto de Sousa, 31 anos. É formado em jornalismo e atua como repórter do DCM desde de 2023. Andreense, apaixonado por futebol, frequentador assíduo de estádios e tem sempre um trocadilho de qualidade duvidosa na ponta da língua.