Renan teve o azar de tomar o remédio milagroso de Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Renan Antunes de Oliveira. Foto: Sérgio Vignes/Reprodução/Facebook

Publicado originalmente no blog do autor

As imagens da terça-feria nas capas dos jornais online, em toda parte, são de covas coletivas sendo abertas e de parques lotados de gente por causa do feriado. Essa foto, de Fabiano do Amaral, do Correio do Povo, é da orla de Porto Alegre.

A maioria dos trabalhadores está em feriado compulsório desde o início da pandemia. Essa maioria fica em casa. Mas outros entendem que, sendo feriado, devem sair para as ruas. E saíram. Porque era feriado.

Tem sido assim. Pensei então no que li hoje no DCM sobre a morte do jornalista Renan Antunes de Oliveira, no domingo. Renan foi hospitalizado na semana passada, em Florianópolis, com sintomas que levavam à suspeita de infecção pelo coronavírus.

Morreu no domingo, depois de tomar hidroxicloroquina e azitromicina e ser mandado para casa. Foi medicado durante cinco dias contra a doença, mas no sábado, um dia antes de morrer, descobriu que o teste havia dado negativo.

O jornalista Kiko Nogueira contou esses detalhes em reportagem do DCM. E o sentimento que tive, lendo o texto do Kiko, é de uma revolta abafada diante do egoísmo dos que continuam correndo riscos – e expondo os outros aos riscos do contágio – e com a morte de Renan.

O jornalista havia feito transplante de rim há cerca de dois meses. Há umas três semanas, conversei com ele por telefone, estava faceiro com a vida nova.

Perguntei como ele se cuidava, me disse que tomava remédios para a rejeição e fez uma declaração que é o que me revolta agora:

– Não tenho medo da rejeição, porque os medicamentos são de última geração. Tenho medo dessa merda desse vírus.

Renan se cuidava, porque queria curtir a vida com o rim novo. Pois o cara que temia o vírus acabou morrendo porque acharam que ele estava com o vírus.

“Essa interação medicamentosa matou Renan. Só deveria ser realizada em ambiente hospitalar”, disse Marcos Caseiro, médico infectologista e professor universitário, na reportagem assinada por Kiko Nogueira.

Como transplantado, com baixa imunidade, ele não poderia ter tomado os medicamentos. Renan teve uma parada cardíaca, uma das consequências mortais da hidroxicloroquina.

Um jornalista valente, que enfrentou lugares e situações improváveis, desafiou esquemas e fugiu do tédio, que nunca teve medo de nada para exercer a profissão, tinha medo do vírus.

Renan, um antibolsonarista, um antifascista, o repórter que vinha denunciando a verdadeira face do véio da Havan em série de reportagens no DCM, foi morto pelo remédio que Bolsonaro mandou distribuir por toda parte.

Essa é uma das realidades da pandemia. Os que se consideram imortais circulam pelas cidades. Os que sabem dos perigos e temem morrer (e contaminar os outros) enclausuram-se em casa.

E por que enclausurados que não desafiavam a peste, como era o caso de Renan, acabam morrendo em meio aos horrores da pandemia, até sem terem sido infectados, enquanto os egoístas continuam passeando?

Renan teve o azar de tomar o remédio milagroso de Bolsonaro que, dizem, mais mata do que cura.

Li a reportagem do Kiko e fiquei ainda mais revoltado depois de ver a foto do Fabiano com esse monte de gente imortal na capa do Correio.

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