“Repórter especial”: Globo paga fortuna a Virginia enquanto jornalistas reclamam de salários

Atualizado em 8 de junho de 2026 às 21:08
Virginia Fonseca em amistoso da Seleção Brasileira

Ver Virginia Fonseca presa poderia salvar o meu dia, e a vida daqueles que perderam tudo nas bets que ela divulgava.

Como se não bastasse, agora sua empresa é investigada pela Polícia Federal por receber mais de R$ 22 milhões em movimentações consideradas suspeitas. Nada disso foi noticiado pela Globo, que escolheu a influenciadora para ser sua “repórter especial” durante a Copa.

Ela não conseguiu aparecer namorando Vini Jr, mas deu seu jeito de aparecer de outras formas, após ser apadrinhada por Luciano Huck, o homem mais odiado do Brasil. Aparecer, para os influenciadores, significa muito dinheiro e quem sabe um vício egóico patético.

A Globo vai pagar R$ 40 mil pra uma criatura que não tem a menor ideia do que é ser uma repórter – nem uma rainha de bateria, nem empresária e nem nada do que costuma fazer a não ser divulgar bet e postar dancinha no Tiktok.

Luciano Huck e sua afilhada, Virginia, na Globo

No Brasil, influenciadores podem fazer qualquer coisa sem preparo, sem instrução, sem qualidade, apenas valendo-se de uma fama sem mérito.

Enquanto jornalistas passam anos estudando, apurando e construindo carreira, o mercado parece cada vez mais disposto a trocar experiência por engajamento. A sensação é de que talento e formação se tornaram secundários diante do número de seguidores.

Jornalistas de verdade, e com toda razão, reclamam de seus salários ao vivo, num debate que seria cômico se não fosse trágico; o cachê de Virginia é várias vezes maior do que o salário de um repórter esportivo da Globo e de seu canal SporTV. Os profissionais recebem entre R$ 5 mil e R$ 15 mil por mês.

Em uma cena que viralizou na sexta-feira (5), o repórter Cristiano Gomes, da afiliada da Globo em Santa Catarina, reclamou, em tom de brincadeira – mas com um fundo de verdade inconfundível – que seu salário desaparece rapidamente.

Como não? Da conta de Virginia, que nunca estudou absolutamente nada, certamente sobra o que deveriam estar ganhando repórteres de fato preparados, ainda mais em plena Copa do Mundo.

“Sextou. Não sei se vocês olharam na conta de vocês, mas o salário caiu, viu?! Graças a Deus! Mas, no meu caso, ele caiu e já saiu, de uma maneira muito mágica. Ele só foi… Mas tudo bem! Vamos que vamos!”, disse o jornalista, tomando cuidado pra não ser demitido, coitado.

No estúdio, o apresentador Douglas Márcio reagiu com bom humor e acrescentou: “O salário pingou e já saiu. Com o que sobrou, a gente sobrevive. E sem vale, né?! Aí não dá!”.

Virginia Fonseca não serve nem pra influenciadora, uma profissão ridiculamente desnecessária, muito menos como repórter de um evento dessa magnitude.

O mais revoltante nisso tudo é o retrato que ela faz do Brasil contemporâneo.

De um lado, jornalistas, pesquisadores e profissionais que passam anos estudando para conquistar espaço; do outro, uma indústria da fama instantânea que transforma seguidores em credenciais e engajamento em autoridade.

Nathalí Macedo
Nathalí Macedo, escritora e colunista baiana com 15 anos de experiência e 3 livros publicados: As mulheres que possuo (2014), Ser adulta e outras banalidades (2017) e A tragédia política como entretenimento (2023). Doutora em crítica cultural. Escreve, pinta e borda.