A escrita natural, espontânea e não idealizada de Margaux Motin. Por Luísa Gadelha

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“O homem é o único animal que ri”, afirmou Aristóteles. E é “rindo que ele mostra o animal que é”, completou o cartunista brasileiro Millôr Fernandes.

É rindo de si mesma que a desenhista e quadrinista francesa Margaux Motin, nascida em 1978, começa sua graphic novel Placas Tectônicas (Editora Nemo, 256 páginas). Protagonista de sua própria história, aos 30 e poucos anos, recém-separada e com uma filha pequena, Margaux narra o bouleversement – palavra francesa sem tradução exata, que pode significar mudança profunda, agitação – que acomete sua vida com – muito! – bom humor.

Impulsiva, espontânea, autêntica, espirituosa e irônica, Margaux ri das próprias pequenas desgraças diárias – o fim de um relacionamento, a maternidade, as dificuldades no trabalho como ilustradora, as ressacas, tudo isso com um traço leve e bem definido, repleto de estampas coloridas. Desbocada, prepare-se para se deparar com uma diversidade de palavrões a cada página.

A maternidade aparece de forma não idealizada, com cenas em que Margaux se cansa da filhinha, ou prefere sair com as amigas para beber – como a própria Margaux diz, após a separação, ela volta a ter 14 anos. A sexualidade de Margaux é abordada de maneira espontânea e natural, como deveria ser na vida de toda e qualquer mulher: alguns conflitos, dúvidas e questionamentos, mas nenhum tabu.

Sempre bem-vestida, vaidosa, combinando estampas e saltos altíssimos, Margaux não se define como mulherzinha. Pelo contrário, prega que o feminismo permite que a mulher escolha como quer ser. “Ser livre para ser o que você quiser de acordo com suas próprias regras. Esse é o verdadeiro combate feminista… Quer ser dona de casa, amamentar seus filhos até eles tirarem carteira de motorista? É o que você curte? Está sendo feminista. Quer se vestir como uma puta, ser marceneira, colecionar saltos 12 e martelos? Você curte? É feminista.”

A sororidade também é um fator importante na vida de Margaux: rodeada de um grupo de amigas, sempre dispostas a consolá-la ou beberem juntas, Margaux se diverte até nos momentos difíceis.

Os continentes de Margaux, enfim, não parecem se abalar tanto quando os infortúnios da vida a acometem, desde que sejam levados com leveza e bom humor. Placas Tectônicas é uma envolvente hq, com tiradas e piadas geniais de sua autora, sem perder a delicadeza.

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