
A reunião extraordinária da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos terminou neste domingo sem consenso nem declaração conjunta sobre o cenário político da Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos. O encontro, convocado pela Colômbia, reuniu representantes de 33 países e evidenciou divisões internas do bloco diante da ação americana.
O Brasil participou por meio do chanceler Mauro Vieira, que acompanhou a discussão por videoconferência a partir do Itamaraty, em Brasília. A reunião durou cerca de duas horas. Vieira havia interrompido o período de férias e retornado à capital após a ofensiva dos EUA contra o governo venezuelano.
Durante o encontro, a maioria das delegações manifestou preocupação com os desdobramentos da crise. A Celac, no entanto, reúne governos de orientações distintas. A Argentina, comandada por Javier Milei, foi citada como um dos países que se posicionaram de forma favorável à prisão de Nicolás Maduro.
Além do Brasil, participaram representantes de países como Bolívia, Suriname e Trindade e Tobago. No caso argentino, o país enviou um representante diplomático, mas não o chanceler. As diferenças de posicionamento impediram a construção de uma nota conjunta ao fim da reunião.

O governo brasileiro reiterou oficialmente a defesa da soberania venezuelana. O Itamaraty também informou que reconhece Delcy Rodríguez, vice de Maduro, como presidente interina da Venezuela após a prisão do chefe de Estado.
Está prevista para esta segunda-feira uma reunião de emergência do Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, solicitada pela Colômbia com apoio de Rússia e China. O Brasil não tem direito a voto no colegiado, mas participará com o embaixador Sérgio França Danese.
Na reunião da Celac, o chanceler venezuelano Yván Gil classificou a ação americana como um ataque direto à soberania do país. “Quero denunciar um feito extremamente grave. O dia de ontem ficará marcado como uma data obscura na história. O governo dos EUA infligiu de maneira aberta à paz da região”, afirmou. Segundo ele, Maduro é “presidente constitucional” e “se é contra um presidente, é contra a soberania de seu povo”.
Gil também declarou que a ofensiva violou direitos humanos ao atingir civis. “As máscaras caíram definitivamente. Esse ataque não é só contra a Venezuela, é contra a América Latina e Caribe. Amanhã pode ser contra qualquer país que tentar exercer sua soberania”, disse.
Mais cedo, Brasil, México, Chile, Colômbia, Uruguai e Espanha divulgaram uma carta conjunta criticando a ação dos Estados Unidos. O documento afirma que a tentativa de “controle governamental, de administração ou apropriação externa de recursos naturais ou estratégicos” é incompatível com o direito internacional e ameaça a estabilidade da região.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva também se manifestou, classificando os ataques como “inaceitáveis”. Segundo ele, a prisão de Maduro e os bombardeios representam uma “afronta gravíssima” à soberania venezuelana e criam “mais um precedente extremamente perigoso para toda a comunidade internacional”.