Rio Grande do Sul é exceção no mapa do PCC e do CV; entenda

Atualizado em 30 de agosto de 2025 às 16:04
Dagoberto da Costa (E) recebe o então presidente do Supremo Tribunal Federal, Joaquim Barbosa, no Presídio Central de Porto Alegre em março de 2014.

O Rio Grande do Sul é considerado uma exceção no mapa das facções criminosas no Brasil. Enquanto o Primeiro Comando da Capital (PCC) atua em 25 estados e o Comando Vermelho (CV) em 26, ambos não conseguiram estabelecer presença territorial sólida em solo gaúcho. Ainda assim, organizações locais, como os Manos e a Bala na Cara, dominam o cenário criminal e mantêm vínculos com os grandes grupos nacionais.

Especialistas apontam que a dificuldade de expansão do PCC e do CV no estado está ligada à força histórica das facções gaúchas, que remontam a quase 40 anos. A primeira delas, a Falange Gaúcha, surgiu nos anos 1980 dentro do sistema prisional e deu origem aos Manos, hoje a mais influente do estado. Essas organizações consolidaram domínio nas cadeias e comunidades, criando barreiras para a entrada de rivais de fora.

A socióloga Marcelli Cipriani, da UFRGS, destaca que, apesar de não controlarem territórios, as facções nacionais influenciam o mercado ilegal no Rio Grande do Sul ao regular cadeias de valor da droga que chega da fronteira com o Paraguai. O fenômeno, conhecido como “fechamento”, consolidou parcerias entre grupos gaúchos e PCC ou CV, especialmente a partir de 2017, quando os Manos e a Bala na Cara se alinharam às duas maiores organizações do país.

No entanto, como ressalta o juiz Sidinei José Brzuska, que atuou por mais de duas décadas no sistema penal, o controle efetivo de presídios e bairros depende da presença física. Segundo ele, é inviável que presos recebam ordens de líderes que nunca viram pessoalmente. Isso explica por que, mesmo após tentativas de transferência de figuras como Marcola para presídios gaúchos, o PCC não consolidou domínio no estado.

Foto de dinheiro apreendido durante megaoperação da Polícia Federal e outros órgãos

O histórico de violência no Rio Grande do Sul mostra que a ausência de PCC e CV não garante mais segurança. Conflitos como a guerra entre Bala na Cara e Anti-Bala, em 2016 e 2017, transformaram Porto Alegre em uma das cidades mais violentas do mundo. Esses grupos, assim como as facções nacionais, exploram tráfico de drogas, roubo de cargas e latrocínios, com níveis de brutalidade equivalentes ou superiores.

Apesar das peculiaridades, o estado continua inserido nas rotas do crime organizado. Recentes apreensões de drogas na BR-386 reforçam a hipótese de que o Rio Grande do Sul serve como passagem para o tráfico internacional, principalmente via Porto de Rio Grande. Para especialistas, a combinação entre raízes locais antigas e conexões externas faz com que o estado seja um caso singular no cenário criminal brasileiro.