Rosana Pinheiro-Machado fala sobre saída do Brasil: ‘Não me sinto mais segura na rua’

Antropóloga Rosana Pinheiro-Machado. Foto: Arquivo Pessoal

Do site Sul 21:

A professora, escritora e articulista do The Intercept Brasil Rosana Pinheiro-Machado anunciou nesta quarta-feira (28), em suas redes sociais, que está deixando o Brasil para assumir uma posição em uma instituição de ensino na Europa, que ela pretende manter em segredo. Rosana diz que não sabe se pode considerar o seu caso como mais um episódio de “auto-exílio” em tempos bolsonaristas, assim como o de outras pessoas contrárias ao governo que deixaram o País recentemente – como a professora Débora Diniz e o ex-deputado Jean Wyllys -, após receberem ameaças, mas afirma que estava a sua situação já estava ficando insustentável devido ao nível de mensagens ofensivas e ameaçadoras que ela vinha recebendo.

Rosana avalia que a sua decisão de deixar o País é uma combinação da crise econômica com a política. “O que é escolha, na verdade? Ainda é muito confuso para mim o quanto eu tive escolha para ficar. Tenho 12 anos de doutorado e não tinha vagas para a minha qualificação. Num país em condições normais, eu imagino que certamente teria tido oportunidades”, diz.

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), mestre, doutora e pós-doutora em Antropologia Social pela mesma universidade, com outro pós-doutorado pela universidade americana de Harvard, Rosana era professora visitante na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) desde 2017 e teve o contrato encerrado recentemente. Segundo ela, membros da universidade tentaram estender sua bolsa de visitante, mas o máximo que a legislação permite na modalidade são dois anos e não foi possível. “Eu teria que me realocar e estava com o desemprego em vista”, diz Rosana, que também foi professora visitante da Universidade de São Paulo (USP).

Um plano inicial era manter o vínculo com o programa de pós-graduação na UFSM, mas sem receber, e viver de palestras, livros, cursos e outras atividades. Em breve, deverá ser lançado o seu próximo livro “Amanhã Vai Ser Maior”. No entanto, ela diz que, seria uma situação complicada, ao mesmo tempo, sem estabilidade e sem a proteção institucional da universidade.

Ondas de ataques frequentes

Rosana conta que vinha sofrendo ataques há anos. “Em 2017, eu fui dar uma disciplina na USP e o MBL fez um escarcéu, dizendo que eu ia dar um curso sobre protestos. A manchete deles era: ‘Professora da Carta Capital vai dar curso sobre protestos’”. Foi a primeira vez em que ela foi chamada de “professora terrorista” e daí para baixo. “Foi muito violento”.

Já na UFSM, os ataques contra ela aumentaram após a publicação de um artigo sobre Paulo Freire no The Intercept Brasil. O texto foi compartilhado por páginas de direita locais e recebeu centenas de comentários ofensivos contra a professora. Mensagens que diziam que ela tinha que “apanhar na rua”. Além disso, na ocasião, grupos se organizaram para pedir que a universidade rompesse o vínculo com ela. “O artigo deu muita repercussão. Aquele episódio foi muito difícil, porque eles tentaram fazer processos administrativos em massa. Ficaram me ligando, mandando e-mail, ligando para a pós-graduação”, diz.

Ela lembra que um dos momentos mais difíceis pelos quais passou ocorreu em janeiro deste ano, depois que a ouvidoria da UFSM negou a abertura de um processo administrativo contra ela, quando passou a ser perseguida virtualmente por uma pessoa. “Esse cara, particularmente, foi muito assustador. Ele ficou obcecado por mim, usava um e-mail falso. Depois eu comecei a fazer uma pesquisa pelo próprio perfil dele e vi que era um desses caras que participavam desses chans, esses caras solitários, de celibatário, de incel“, conta. “O cara tentou chamar a minha atenção de tudo que é jeito. Um processo bem perigoso. Eu sempre fui atacada, mas nunca tinha passado por uma situação de alguém obsessivo por mim. Mandando e-mail para o e-mail pessoal”, diz.

A onda de ataques mais recentes que sofreu ocorreu entre o final de junho e o início de julho, quando ela foi dar uma palestra “normal” em um campus da Unipampa em São Borja. Na ocasião, um participante fez uma foto de um momento da palestra em que Rosana sobrepunha a imagem do presidente Jair Bolsonaro com a palavra “vagabundo”, mas no sentido de que ele costumava usar esse termo. No entanto, a foto caiu nas redes de um radialista local que a acusou de chamar o presidente de vagabundo. “Foi um horror. Até hoje eu recebo mensagens no Facebook. Hoje (nesta quarta-feira, quando a entrevista foi feita), eu recebi uma mensagem que dizia: ‘Sua vaca, por que tu não abre teus comentários? Tá indo embora, sua vaca, já vai tarde”.

Rosana diz que tem um colega que monitora grupos de WhatsApp bolsonaristas e que ele lhe contou que, no dia em que a informação sobre a palestre veio à tona, sua imagem foi a mais compartilhada nestas redes. “Eu não digo publicamente que estou sendo ameaçada, mas tem muitas falas de surra, principalmente aqui no Rio Grande do Sul, que tem muito essa coisa de que eu vou tomar uma surra se me encontrarem na rua, vão me dar um laço. ‘É terrorista que vai tomar um laço’”.

Rosana avalia que já não estava mais segura em Santa Maria. Ela, inclusive, já tinha deixado a cidade depois do episódio de São Borja. “Minha vida virou de cabeças para o ar. Então, quais as condições que eu tenho se a cada dois meses têm me acontecido isso? Qual é a condição que eu tenho de dar aula hoje no Brasil, pelo menos no Rio Grande do Sul? Eu tenho essa característica de que as minhas coisas viralizam e eles vêm para cima mesmo”, diz.

Ondas de ataques frequentes

Rosana conta que vinha sofrendo ataques há anos. “Em 2017, eu fui dar uma disciplina na USP e o MBL fez um escarcéu, dizendo que eu ia dar um curso sobre protestos. A manchete deles era: ‘Professora da Carta Capital vai dar curso sobre protestos’”. Foi a primeira vez em que ela foi chamada de “professora terrorista” e daí para baixo. “Foi muito violento”.

Já na UFSM, os ataques contra ela aumentaram após a publicação de um artigo sobre Paulo Freire no The Intercept Brasil. O texto foi compartilhado por páginas de direita locais e recebeu centenas de comentários ofensivos contra a professora. Mensagens que diziam que ela tinha que “apanhar na rua”. Além disso, na ocasião, grupos se organizaram para pedir que a universidade rompesse o vínculo com ela. “O artigo deu muita repercussão. Aquele episódio foi muito difícil, porque eles tentaram fazer processos administrativos em massa. Ficaram me ligando, mandando e-mail, ligando para a pós-graduação”, diz.

Ela lembra que um dos momentos mais difíceis pelos quais passou ocorreu em janeiro deste ano, depois que a ouvidoria da UFSM negou a abertura de um processo administrativo contra ela, quando passou a ser perseguida virtualmente por uma pessoa. “Esse cara, particularmente, foi muito assustador. Ele ficou obcecado por mim, usava um e-mail falso. Depois eu comecei a fazer uma pesquisa pelo próprio perfil dele e vi que era um desses caras que participavam desses chans, esses caras solitários, de celibatário, de incel“, conta. “O cara tentou chamar a minha atenção de tudo que é jeito. Um processo bem perigoso. Eu sempre fui atacada, mas nunca tinha passado por uma situação de alguém obsessivo por mim. Mandando e-mail para o e-mail pessoal”, diz.

A onda de ataques mais recentes que sofreu ocorreu entre o final de junho e o início de julho, quando ela foi dar uma palestra “normal” em um campus da Unipampa em São Borja. Na ocasião, um participante fez uma foto de um momento da palestra em que Rosana sobrepunha a imagem do presidente Jair Bolsonaro com a palavra “vagabundo”, mas no sentido de que ele costumava usar esse termo. No entanto, a foto caiu nas redes de um radialista local que a acusou de chamar o presidente de vagabundo. “Foi um horror. Até hoje eu recebo mensagens no Facebook. Hoje (nesta quarta-feira, quando a entrevista foi feita), eu recebi uma mensagem que dizia: ‘Sua vaca, por que tu não abre teus comentários? Tá indo embora, sua vaca, já vai tarde”.

Rosana diz que tem um colega que monitora grupos de WhatsApp bolsonaristas e que ele lhe contou que, no dia em que a informação sobre a palestre veio à tona, sua imagem foi a mais compartilhada nestas redes. “Eu não digo publicamente que estou sendo ameaçada, mas tem muitas falas de surra, principalmente aqui no Rio Grande do Sul, que tem muito essa coisa de que eu vou tomar uma surra se me encontrarem na rua, vão me dar um laço. ‘É terrorista que vai tomar um laço’”.

Rosana avalia que já não estava mais segura em Santa Maria. Ela, inclusive, já tinha deixado a cidade depois do episódio de São Borja. “Minha vida virou de cabeças para o ar. Então, quais as condições que eu tenho se a cada dois meses têm me acontecido isso? Qual é a condição que eu tenho de dar aula hoje no Brasil, pelo menos no Rio Grande do Sul? Eu tenho essa característica de que as minhas coisas viralizam e eles vêm para cima mesmo”, diz.

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