Sabe quem é Viih Tube? Nem eu. Mas ela está sendo linchada há dois dias

Vitória Moraes, a Viih Tube
Vitória Moraes, a Viih Tube

 

Você sabe quem é Viih Tube?

Eu também não sabia. Mas ela está sendo linchada.

O nome me chamou a atenção quando não saía do topo dos trending topics do Twitter, a lista de assuntos mais comentados.

Vitória Moraes é uma youtuber de 16 anos que mora em Sorocaba, interior de São Paulo. Tem 2,7 milhões de seguidores no Facebook e 3,2 milhões no Youtube.

Ela faz vídeos sobre sua vida e assim ficou famosa. Insuportáveis, mas isso não vem ao caso. Num deles, cometeu uma bobagem: cuspiu na boca de seu gato.

Por causa disso, há dois dias está sendo chamada de “assassina”, “puta”, “imbecil”, “exu”, entre outros epítetos. Milhares de pessoas desejam que ela morra. Um sujeito espera que ela seja “enforcada e cuspida na cara”. E por aí vai.

No momento em que digito, uma nova hashtag manda que Vitória “volte para o útero”. No Facebook, uma enxurrada de ameaças e xingamentos.

Tentou pedir desculpas. “Realmente, me desculpem, eu fui um lixo de pessoa. Eu nunca mais vou fazer uma brincadeira desse tipo com o meu gatinho. Foi a primeira vez que eu fiz. Todo mundo tem razão”, disse.

Num auto flagelo sequencial, escreveu no Twitter: “Eu sou nova, queria ver um adolescente passar por tudo que passo e se manter em pé”.

Eis aí um mistério. Como é que uma menina sobrevive a um linchamento virtual dessa envergadura? É normal? Faz parte da coisa? Como e quando passou a ser normal que adolescentes dediquem tanto tempo e energia para exercitar seu ódio?

O último episódio da terceira temporada da aclamada série “Black Mirror”, um distopia sobre um mundo dominado pela tecnologia, oferece alguma reflexão nesse sentido.

Chama-se “Hated in the Nation”. Uma dupla de detetives investiga o assassinato de uma jornalista e de um rapper que haviam sido alvos de trolls na internet que usavam a hashtag “MorteA”.

Quando os usuários ficam sabendo, através da imprensa, que têm o poder de tornar seu desejo realidade, ao invés de recuar, passam a utilizar mais o recurso.

Era um jogo. O autor da brincadeira, porém, tinha outros planos para os 387 036 cidadãos que participaram. Eles eram iscas. Mais não conto.

O criador do seriado, Charlie Brooker, se inspirou num episódio que ocorreu com ele mesmo após um artigo satírico no Guardian, em 2004, sobre George W. Bush, intitulado “Lee Harvey Oswald, John Hinckley Jr, onde estão vocês quando precisamos?”

“Foi aterrador”, diz ele sobre o massacre que sofreu. “Espero que eu não esteja profetizando nada”.

O futuro já chegou e ele não é mais como era antigamente. Boa sorte para nossas crianças.

 

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