
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Os elogios de presidenciáveis brasileiros da oposição ao bombardeio da Venezuela, realizado pelos EUA à revelia das Nações Unidas e do próprio Congresso, indicam que sua política externa, caso sejam eleitos em outubro de 2026, será mais que de alinhamento a Donald Trump. Vão abraçar o America First e o Make America Great Again. Brasil? Maybe later.
Nicolás Maduro é um ditador que fraudou eleições, tratava os adversários com punho de ferro, atropelava os direitos humanos e merecia ser retirado do poder pelos próprios venezuelanos. Mas se isso bastasse para bombardear países estrangeiros sem autorização da comunidade internacional, a Arábia Saudita, berço de movimentos terroristas, seria uma das primeiras da fila. Seu príncipe herdeiro, acusado de assassinato de jornalista, contudo é tratado como amigo por Trump.
E o norte-americano deixou claro em sua coletiva que o combate às drogas ou a defesa da democracia são acessórios em comparação ao controle da maior reserva de petróleo do mundo que está sob a Venezuela.
Um presidente da República do Brasil precisa seguir as leis internacionais, não elogiar quem as ignora. E defender os interesses dos brasileiros, independente de suas preferências ideológicas. E o risco de interferência sobre os interesses dos cidadãos da América do Sul disparou após a ação militar no vizinho. Troque PDVSA por Petrobras e imagine os EUA passando a controlar, pela força, a produção e venda de nossos recursos naturais.
Era esperada a celebração por parte do clã Bolsonaro, até porque ele já havia deixado claro o seu lado. Conspirou sanções do governo dos Estados Unidos contra o Brasil para forçar o STF e o Congresso a liberarem Jair Bolsonaro, apesar da tentativa de golpe de Estado. Disso brotou o tarifaço de 50% sobre os produtos brasileiros, que gerou desemprego e fechamento de empresas. No 7 de setembro do ano passado, aniversário de nossa independência, bolsonaristas estenderam uma gigantesca bandeira dos EUA na avenida Paulista.
Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Michelle Bolsonaro (PL), os dois presidenciáveis do clã, celebraram o ataque.
Os governadores Ratinho Júnior (PSD-PR), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), Romeu Zema (Novo-MG) e Ronaldo Caiado (União Brasil-GO) também comemoraram o bombardeio dos EUA à Venezuela. Querem a ajuda de Trump nas eleições deste ano, pois sabem que ele pode interferir no pleito brasileiro. Mas também jogam para a torcida, tentando mostrar que são dignos dos votos dos órfãos de Jair.
Dessa forma, vão muito além do gesto de Tarcísio, que colocou um boné MAGA (Fazer a America Grande Novamente) quando Trump assumiu o governo em janeiro. E, depois, foi cobrado por isso pela opinião pública após o norte-americano impor sanções.

Outro presidenciável que não é do campo de esquerda, o governador Eduardo Leite (PSD-RS) mostrou aos colegas que é possível criticar duas coisas ao mesmo tempo: bateu na ditadura de Maduro e afirmou que a violência de uma nação estrangeira é “igualmente inaceitável”. Ele está correto, mas ponderação não gera voto junto ao público bolsonarista-raiz.
O Brasil sempre evitou alinhamentos automáticos a governos estrangeiros, com exceção do governo Jair Bolsonaro. Sim, a continência que o ex-presidente prestou à bandeira norte-americana, em maio de 2019, não era folclore, mas prenúncio.
Por exemplo: a fim de ajudar Trump, que buscava votos nos estados produtores de milho (matéria-prima do etanol por lá), Bolsonaro dificultou a vidas dos produtores brasileiros e do etanol nacional, ambos com estoques para gastar devido à redução do consumo na pandemia. Ainda renovou a cota de etanol dos EUA que podia entrar aqui sem pagar imposto de importação.
E isso logo depois de os EUA terem reduzido a cota de aço semiacabado que o Brasil podia vender a eles sem tarifas. O motivo também foi pressão da indústria dos EUA sobre Trump, candidato à reeleição, por causa da queda de demanda devido à pandemia.
A questão não era de livre comércio. Você pode ser a favor de que Brasil e Estados Unidos tenham uma relação de compra e venda sem tarifas para vários produtos, como já aconteceu com o etanol até os EUA darem um salto no total exportado para cá. A questão é que tudo soa como vassalagem demais.
Bolsonaro temia que Trump saísse do poder e o democrata Joe Biden o substituísse, o que fragilizaria sua posição e reeleição. E, por conta disso, aceitou fazer o que fosse necessário. Inclusive entregar ao norte-americano o que estivesse ao seu alcance, passando por cima dos interesses dos brasileiros em torno de promessas de futuro.
A gestão passada do Itamaraty abandonou uma tradição de mais de um século de uma diplomacia independente em nome de migalhas que poderiam cair da mesa de um amigo. Amigo que se mostrou imaginário, claro.
Aliás, uma das máximas da diplomacia é que países não têm amigos, têm interesses. O interesse do governo Trump é claro. E os dos presidenciáveis brasileiros?