
Publicado por Leonardo Sakamoto no Uol
O Banco Master criou um programa tipo “Meu Luxo, Sua Dívida” enquanto tungava aposentados. Daniel Vorcaro e empresas ligadas a ele compraram mansões, apartamentos e jatinhos no valor de R$ 2 bilhões enquanto sua instituição apodrecia em praça pública.
Ou seja, não apenas CDBs de investidores individuais e empresariais, mas grana de servidores públicos vinda de fundos de pensão, como os do Rio de Janeiro e do Amapá, viraram alegria para usufruto do mancebo. A apuração sobre a compra de patrimônio de super luxo foi publicada por Natália Portinari, Amanda Rossi e Pedro Canário hoje no UOL.
Sim, em se tratando de Master, a cada enxadada, surge uma minhoca. Ou um verme.
Por que aposentados? O Rio de Janeiro de Cláudio Castro (PL) investiu cerca de R$ 1 bilhão no Master (o Tribunal de Contas do Estado fala em R$ 2,6 bilhões) quando já era claro para o mercado que o banco era uma comédia. E o Amapá de Clécio Luís (Solidariedade) investiu R$ 400 milhões em títulos de risco. Era dinheiro de aposentadorias de professor com burnout, enfermeira que segura plantão triplo e gari que limpa rua alagada.
A Rioprevidência e o Amprev do Amapá disseram que o pagamento de aposentadorias e pensões está garantido ao segurados mesmo com a liquidação do Banco Master. A questão é quem assume o tamanho do prejuízo. Há gente crescida no leite de pera defendendo que o rombo seja coberto pela União, ou seja, por nós contribuintes.
Se quiser sentir raiva, veja as fotos das mansões do Vorcaro na matéria do UOL.

Em tese, a grana que o Master mamou em fundos de estados e municípios pode ser (parcialmente) recomposta vendendo o patrimônio de Vorcaro e das empresas relacionadas a ele – quando for comprovado que existem apenas para protegê-lo em momentos como este.
Digo parcialmente porque há grana que foi embora na descarga da privada. De acordo com a reportagem do UOL, cerca de R$ 40 milhões foram gastos em um camarote na Sapucaí no Carnaval, R$ 15 milhões em uma festa de aniversário de 15 anos para sua filha, pelo menos R$ 1,1 milhão com diárias da casa em Trancoso.
Mas tem gente que parece que não quer permitir o abatimento do prejuízo. O Tribunal de Contas da União (TCU) emitiu um despacho indicando que pode impedir o Banco Central de vender bens ligados ao Master na liquidação do banco. Também reforçou que tem competência para fiscalizar as ações do BC no caso e ordenou urgência em uma inspeção sobre a decisão da instituição.
O TCU atua como um braço do Congresso Nacional, operando como órgão fiscalizador das contas públicas. As medidas tomadas estão sendo vistas como bizarras e reforçam o receio de favorecimento político do banco e de seu dono, amigão de deputados e senadores, principalmente do centrão.
O Master foi liquidado, em novembro passado, após o BC negar sua compra pelo Banco de Brasília, negócio que traria mais prejuízo à população. Vorcaro foi preso ao tentar sair do país e, depois, solto. A Polícia Federal investiga fraudes que passam de R$ 12 bilhões.
O Fundo Garantidor de Créditos irá bancar até R$ 250 mil investidos no banco, totalizando mais de R$ 40 bilhões. A venda de ativos poderia cobrir investimentos perdidos acima desse valor. Mas a defesa de Vorcaro quer garantir que ele saia de todo o episódio livre e com muito dinheiro no bolso.
Como já disse aqui, ele é ave que canta quando enjaulada e sem dinheiro no bolso. Uma possível delação estaciona o caminhão de explosivos na garagem do Congresso, mas não só lá. Afinal, um crime dessa magnitude não se sustenta sem apoio político e jurídico. Vorcaro e sócios construíram amizades em um espectro ideológico amplo, da direita à esquerda, no Legislativo, no Executivo, no Judiciário, na Faria Lima.
Mas briga não é apenas jurídica ou técnica, mas moral. Ou o país aceita que a grana de quem trabalhou a vida inteira vire piscina aquecida, hangar e camarote vip sem consequência real para ninguém, ou decide que banqueiro não é uma casta acima da lei. Blindar patrimônio, atrasar liquidação, impedir venda de bens e socializar prejuízo é escolher, conscientemente, proteger mansões e jatinhos em detrimento de aposentadorias.
E quando o Estado faz essa escolha, ele deixa claro quem manda no Brasil — e, principalmente, quem sempre paga a conta.