Sakamoto: Banco Master converteu poupança de aposentados em super luxo para seu dono

Atualizado em 7 de janeiro de 2026 às 10:13
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master – Reprodução

Publicado por Leonardo Sakamoto no Uol

O Banco Master criou um programa tipo “Meu Luxo, Sua Dívida” enquanto tungava aposentados. Daniel Vorcaro e empresas ligadas a ele compraram mansões, apartamentos e jatinhos no valor de R$ 2 bilhões enquanto sua instituição apodrecia em praça pública.

Ou seja, não apenas CDBs de investidores individuais e empresariais, mas grana de servidores públicos vinda de fundos de pensão, como os do Rio de Janeiro e do Amapá, viraram alegria para usufruto do mancebo. A apuração sobre a compra de patrimônio de super luxo foi publicada por Natália Portinari, Amanda Rossi e Pedro Canário hoje no UOL.

Sim, em se tratando de Master, a cada enxadada, surge uma minhoca. Ou um verme.

Por que aposentados? O Rio de Janeiro de Cláudio Castro (PL) investiu cerca de R$ 1 bilhão no Master (o Tribunal de Contas do Estado fala em R$ 2,6 bilhões) quando já era claro para o mercado que o banco era uma comédia. E o Amapá de Clécio Luís (Solidariedade) investiu R$ 400 milhões em títulos de risco. Era dinheiro de aposentadorias de professor com burnout, enfermeira que segura plantão triplo e gari que limpa rua alagada.

A Rioprevidência e o Amprev do Amapá disseram que o pagamento de aposentadorias e pensões está garantido ao segurados mesmo com a liquidação do Banco Master. A questão é quem assume o tamanho do prejuízo. Há gente crescida no leite de pera defendendo que o rombo seja coberto pela União, ou seja, por nós contribuintes.

Se quiser sentir raiva, veja as fotos das mansões do Vorcaro na matéria do UOL.

Mansão de Daniel Vorcaro em Brasília. Foto: reprodução

Em tese, a grana que o Master mamou em fundos de estados e municípios pode ser (parcialmente) recomposta vendendo o patrimônio de Vorcaro e das empresas relacionadas a ele – quando for comprovado que existem apenas para protegê-lo em momentos como este.

Digo parcialmente porque há grana que foi embora na descarga da privada. De acordo com a reportagem do UOL, cerca de R$ 40 milhões foram gastos em um camarote na Sapucaí no Carnaval, R$ 15 milhões em uma festa de aniversário de 15 anos para sua filha, pelo menos R$ 1,1 milhão com diárias da casa em Trancoso.

Mas tem gente que parece que não quer permitir o abatimento do prejuízo. O Tribunal de Contas da União (TCU) emitiu um despacho indicando que pode impedir o Banco Central de vender bens ligados ao Master na liquidação do banco. Também reforçou que tem competência para fiscalizar as ações do BC no caso e ordenou urgência em uma inspeção sobre a decisão da instituição.

O TCU atua como um braço do Congresso Nacional, operando como órgão fiscalizador das contas públicas. As medidas tomadas estão sendo vistas como bizarras e reforçam o receio de favorecimento político do banco e de seu dono, amigão de deputados e senadores, principalmente do centrão.

O Master foi liquidado, em novembro passado, após o BC negar sua compra pelo Banco de Brasília, negócio que traria mais prejuízo à população. Vorcaro foi preso ao tentar sair do país e, depois, solto. A Polícia Federal investiga fraudes que passam de R$ 12 bilhões.

O Fundo Garantidor de Créditos irá bancar até R$ 250 mil investidos no banco, totalizando mais de R$ 40 bilhões. A venda de ativos poderia cobrir investimentos perdidos acima desse valor. Mas a defesa de Vorcaro quer garantir que ele saia de todo o episódio livre e com muito dinheiro no bolso.

Como já disse aqui, ele é ave que canta quando enjaulada e sem dinheiro no bolso. Uma possível delação estaciona o caminhão de explosivos na garagem do Congresso, mas não só lá. Afinal, um crime dessa magnitude não se sustenta sem apoio político e jurídico. Vorcaro e sócios construíram amizades em um espectro ideológico amplo, da direita à esquerda, no Legislativo, no Executivo, no Judiciário, na Faria Lima.

Mas briga não é apenas jurídica ou técnica, mas moral. Ou o país aceita que a grana de quem trabalhou a vida inteira vire piscina aquecida, hangar e camarote vip sem consequência real para ninguém, ou decide que banqueiro não é uma casta acima da lei. Blindar patrimônio, atrasar liquidação, impedir venda de bens e socializar prejuízo é escolher, conscientemente, proteger mansões e jatinhos em detrimento de aposentadorias.

E quando o Estado faz essa escolha, ele deixa claro quem manda no Brasil — e, principalmente, quem sempre paga a conta.