Sakamoto: Bolsonaro pode manter QG eleitoral na cadeia mesmo

Atualizado em 8 de fevereiro de 2026 às 12:44
ex-presidente Jair Bolsonaro em close, com cara de choro
O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) – Reprodução

Por Leonardo Sakamoto, no UOL

O laudo da Polícia Federal enviado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, tem o efeito de um balde de água fria sobre a encenação do bolsonarismo: a de que Jair Bolsonaro estaria à beira da morte caso permanecesse preso. Segundo a perícia oficial, o ex-presidente tem sim um quadro de saúde que demanda cuidados, mas eles são compatíveis com o ambiente carcerário — desde que sejam adotadas medidas de saúde corriqueiras em sistemas prisionais estruturados. O que é o caso da Papudinha.

Traduzindo do juridiquês-médico para o português claro: Bolsonaro pode continuar preso. Basta usar CPAP [o aparelho para a apneia] durante o sono, manter uma dieta fracionada, controlar a pressão arterial, garantir hidratação adequada, prevenir broncoaspiração e ter acesso periódico a exames laboratoriais e de imagem, além do acompanhamento médico.

Nada disso exige prisão domiciliar humanitária em mansão e tratamento VIP fora da cadeia. Exige apenas que o Estado faça o que deve fazer com qualquer preso que tenha problemas de saúde, inclusive aqueles que não contam com uma claque de políticos batendo ponto na porta da cela.

O laudo desmonta, peça por peça, a narrativa de “tortura” vendida por aliados, familiares e influenciadores que transformaram a Papudinha num palco. O documento da PF não aponta incompatibilidade estrutural entre o estado clínico do ex-presidente, que – frisa – requer cuidados, e o cumprimento da pena em regime fechado. Ao contrário: a perícia detalha que o ambiente prisional visitado dispõe de condições físicas, acesso a serviços de saúde e possibilidade de acompanhamento compatíveis com o quadro apresentado.

Cela de Bolsonaro na Papudinha. Foto: reprodução

Isso torna ainda mais constrangedora a tentativa de vitimização. Bolsonaro não está isolado em masmorra medieval, tampouco privado de cuidados básicos. Está preso em instalações compatíveis com Estado Maior, com espaço individual de 65 metros quadrados, acesso ao ar livre em tempo integral, acompanhamento médico, visitas frequentes e, como se vê na prática, liberdade suficiente para seguir operando politicamente na definição eleitoral deste ano. A Papudinha não virou símbolo de crueldade institucional, virou escritório político com grades.

O próprio histórico recente ajuda a explicar por que o pedido de prisão domiciliar soa menos como preocupação humanitária e mais como estratégia eleitoral. De dentro da cadeia, Bolsonaro segue influenciando alianças, distribuindo bênçãos políticas e organizando o jogo sucessório da extrema direita, como venho apontando aqui na coluna.

A diferença é que, agora, a farsa da fragilidade extrema encontra um obstáculo difícil de contornar: um laudo técnico assinado por peritos médicos da Polícia Federal. A Procuradoria-Geral da República pode recomendar e Moraes enviar Jair para a domiciliar mesmo assim? Pode, o laudo da perícia foi claro.

No Brasil, saúde virou argumento seletivo. Serve para tentar suspender a pena de quem tem capital político, rede de proteção e cascalho na conta. Mas o laudo da PF lembra um detalhe incômodo: direitos existem, privilégios não. Garantir tratamento médico adequado é obrigação do Estado. Transformar isso em passe livre para sair da cadeia é outra coisa.

Se há algo que o documento enviado ao STF deixa claro, é que Bolsonaro pode continuar onde está, ou seja, mantendo seu QG eleitoral improvisado. O problema, para seus aliados, não é a saúde do ex-presidente. É o fato de que, desta vez, a realidade clínica não ajuda a sustentar a mentira política.