Sakamoto: Bombas na Venezuela jogaram fumaça sobre escândalo do Banco Master

Atualizado em 5 de janeiro de 2026 às 23:59
Imagem do incêndio em Fuerte Tiuna, o maior complexo militar da Venezuela, após uma série de explosões em 3/1/2026. Foto: Luis Jakmes/AFP

Por Leonardo Sakamoto no Uol

Enquanto o Brasil e o mundo voltam os olhos — e com razão — para as bombas na Venezuela, o petróleo dos EUA e o futuro da América Latina sob Trump, o escândalo político e financeiro do Banco Master continua se desenrolando, agora com uma cortina de fumaça na forma de Tomahawks e mariners.

O Tribunal de Contas da União (TCU) emitiu um despacho indicando que pode impedir o Banco Central de vender bens ligados ao Master na liquidação do banco. Também reforçou que tem competência para fiscalizar as ações do BC no caso e ordenou urgência em uma inspeção sobre a decisão da instituição.

O TCU atua como um braço do Congresso Nacional, operando como órgão fiscalizador das contas públicas. As medidas são incomuns e reforçam o receio de favorecimento político do banco e de seu dono, Daniel Vorcaro, amigão de deputados e senadores, principalmente do centrão.

O Master foi liquidado, em novembro passado, após o BC negar sua compra pelo Banco de Brasília, negócio que traria um prejuízo à população. Vorcaro foi preso ao tentar sair do país e, depois, solto. A instituição também estaria vendendo títulos podres, inclusive em transações bilionárias para governos, como o do Rio, e prefeituras. A Polícia Federal investiga fraudes que passam de R$ 12 bilhões.

Daniel Vorcaro, dono do Banco Master – Reprodução

O Fundo Garantidor de Créditos irá bancar até R$ 250 mil investidos no Master, totalizando mais de R$ 40 bilhões. A venda de ativos poderia cobrir investimentos perdidos acima desse valor e ressarcir o próprio fundo.

A defesa de Vorcaro disse ao TCU que houve falhas na liquidação do banco conduzida pelo Banco Central. Se a reversão desse processo é difícil por conta do tamanho do descaramento, um pedido de indenização para o banqueiro é mais fácil de se imaginar.

E Vorcaro é ave que canta quando enjaulada e sem dinheiro no bolso.

Uma possível delação estacionaria o caminhão de explosivos na garagem do Congresso, mas não só lá. Ela pode apontar quem pressionou o BC e governos estaduais para bancar com dinheiro público operações bilionárias com créditos podres. E se investigar a fundo, deve constranger mais gente, no governo, na oposição, na Faria Lima.

Afinal, um crime dessa magnitude não se sustenta sem apoio político. Vorcaro e sócios construíram amizades em um espectro ideológico amplo, da direita à esquerda, no Legislativo, no Executivo, no Judiciário.

Enquanto o Brasil e o mundo se preocupam — novamente, com muita razão — com os desdobramentos do bombardeio norte-americano na Venezuela, no discreto tabuleiro interno, a guerra travada é outra. Demanda-se atenção para evitar a blindagem de poderosos, o que permitiria que o poder e a riqueza escapassem das consequências reais das suas decisões. E o Brasil tem direito de saber: quem mamava no Master?

A América do Sul não precisa das bombas dos EUA, mas um apocalipse trazido pela explosiva delação de Vorcaro seria mais que bem-vinda.