
Por Leonardo Sakamoto, no UOL
Pesquisa RealTime Big Data divulgada hoje mostra que Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo) empatam ou chegam perto de Lula num segundo turno, enquanto Flávio Bolsonaro (PL) perde por cinco pontos. A conclusão que alguns apressados tiram disso é que a direita tem opções “mais viáveis” do que o filho do ex-presidente. O problema é que essa conclusão ignora a natureza quase religiosa do bolsonarismo e o que significa, na prática, disputar votos com uma seita.
Flávio Bolsonaro aparece com 31% das intenções de voto no primeiro turno, enquanto seus adversário no mesmo campo têm 6% (Ronaldo Caiado e Renan Santos, do Missão) e 4% (Romeu Zema). Lula (PT) marca 38%.
Os votos não migraram de Jair para seu ungido por convicção programática, mas por pertencimento identitário. Não votam em Flávio porque concordam com suas propostas, lembrando que a principal é libertar o pai condenado. Votam porque ele é Bolsonaro.
E esse eleitorado não abandona o barco por escândalo nenhum. Os áudios e mensagens que vieram a público mostrando Flávio pedindo R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição que se tornou símbolo do maior escândalo financeiro da história do país, não moveram essa base. Tampouco a mensagem em que o senador promete ao bandido-banqueiro que estaria sempre com ele. Para esse grupo, não se trata de avaliar comportamento, mas de fidelidade tribal. Escândalos são narrativa do inimigo.
A série histórica da própria pesquisa confirma: Flávio caiu, sim, de 44% para 40% numa simulação de segundo turno contra Lula entre maio e junho, queda que coincide com a revelação dos áudios pelo Intercept Brasil. E ainda assim ele mantém um patamar robusto. A pergunta relevante não é se ele caiu um pouco. É por que ele não despencou.
A resposta está na geometria do bolsonarismo. Para tirar Flávio do segundo turno, não basta ser competente, moderado ou “mais palatável ao centro”. É preciso ser mais bolsonarista do que o próprio Bolsonaro.

Foi exatamente o que o influenciador Pablo Marçal fez em São Paulo: não disputou o eleitorado bolsonarista oferecendo uma alternativa razoável, mas superando o original em radicalismo, em performance, em disposição para o confronto. Ultrapassou Ricardo Nunes entre os bolsonaristas justamente porque pareceu, aos olhos desse eleitor, mais autêntico do que o aliado oficial.
Caiado e Zema sabem disso, ou ao menos intuem. E a maneira que encontraram de acenar para essa base foi prometer anistia aos golpistas. Relativizaram a democracia para dar um sinal de reconhecimento, uma senha para o duro do bolsonarismo entender que eles estão dispostos a entrar no clube. O problema é que entrar no clube pela porta dos fundos não convence quem já tem o filho do sócio-fundador.
O eleitor que defende os golpistas, que não viu crime no pedido dos R$ 134 milhões, que não crê nos desvios dos salários de servidores públicos por Flávio, esse eleitor vai olhar para Caiado ou Zema e fazer uma pergunta simples: por que votaria na cópia se o original está disponível?
É por isso que os números de segundo turno, apesar de animadores para quem faz as contas da “viabilidade”, dizem pouco sobre a dinâmica real da disputa. Caiado empata com Lula com 43% a 43%. Zema empata na margem de erro, 43% a 40%. Renan fica 16 pontos atrás. Flávio perde por cinco. A aritmética favorece os ex-governadores. Mas a política não é só aritmética, mas também sobre quem tem o direito de representar uma identidade.
Enquanto 50% dos brasileiros reprovam o governo Lula e apenas 43% aprovam, há espaço real para uma direita competitiva. Só que ocupar esse espaço exigiria romper com o bolsonarismo, não imitá-lo. E nenhum dos dois governadores demonstrou, até agora, disposição ou capacidade para isso, tirando algumas críticas pontuais após o escândalo BolsoMaster vir à tona.
Prometem anistia a golpistas e esperam que o eleitorado de Flávio os veja como opção. Esse eleitorado, enquanto isso, continua no culto, esperando a vinda do filho do (Jair) Messias, não uma cópia.